Em “Um corpo que goza não envelhece”, publicado pela editora Infinitta Leitura, a escritora e historiadora catarinense Marlene de Fáveri provoca a sociedade a repensar os tabus em relação à sexualidade das mulheres e as possibilidades de sentir prazer durante todas as fases da vida, principalmente durante o envelhecimento. A obra defende o direito inalienável das mulheres ao prazer, desafiando preconceitos etários e promovendo uma visão inclusiva sobre a experiência das mulheres.

Os textos, em forma de poesia, prosa, diálogos e depoimentos tecem críticas a padrões naturalizados de beleza, juventude, corpo perfeito sem rugas, estrias, marcas da idade e chama as mulheres para olharem-se como sujeitos de direitos. A capa é assinada pela artista visual Meg Roussenq.

“Abro o livro com o verbete gozar justo para mostrar que prazeres transcendem qualquer conceito fechado, e que pensar o gozo só ligado à sexualidade é muito limitado. São tantos os pequenos, e os grandes, prazeres que as mulheres podem, e devem, permitirem-se e viverem sem culpa, medo, prisões, condenações”, compartilha a autora.

Entre outros verbetes que a autora apresenta está o cunhado por ela: “misoginovelhafobia” que relaciona a aversão às mulheres velhas e o medo de envelhecer a estereótipos e preconceitos.

De Fáveri traz dados para contextualizar a situação de envelhecimento da população brasileira, que irá dobrar em relação a hoje. “Seremos 32 milhões”, destaca. “A sociedade, se quiser ser inclusiva, terá que pensar políticas públicas e sociais, questão previdenciária, de atenção e direitos para as pessoas que envelhecem” afirma.

 Professora aposentada do Departamento de História da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), a entrevistada é membra do Laboratório de Relações de Gênero e Família (LABGEF), do Instituto de Estudos de Gênero (IEG), do GT Gênero (ANPUH Brasil), da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB) e do Mulherio de Letras SC. Publicou artigos, capítulos de livros e artigos de História, Gênero, Feminismo, Divórcio, Mercado do Sexo, Mídias, entre outros temas. 

Participa do Grupo de Poetas e Escritores Mário Quintana, fundado em Itajaí (SC) em 1988, com publicações em coletâneas e diversas premiações, como para o Off Flip 2023. É colunista no Portal Catarinas. Além da nova obra, publicou “Se pulsa, arde e resiste”, “O Ultra-realismo na cena literária de Itajaí”, ambos em 2022, e os volumes 1 e 2 de “Crônicas da Incontingência da Clausura – cotidianos na pandemia”, em 2021, entre outros títulos.

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Credito: reprodução.

Conversamos com a escritora sobre a obra e processo de escrita do livro. 

O que a leitora irá encontrar em “Um corpo que Goza não envelhece”?

O livro foi concebido sobre um tema tabu na sociedade: o inevitável amadurecimento e envelhecimento, especialmente como eles incidem na vida das mulheres. Então, o que proponho é falar da maturidade e o que vem depois dela como um tempo de soma de experiências e sem cerceamentos, porque queremos falar, agir, decidir, amar, sexuar e assegurar nossos direitos.

Simone de Beauvoir nos diz que “viver é envelhecer, nada mais”, sendo a única alternativa para seguirmos vivas e porque nenhuma idade nos define.

São escritos sobre ser possível as mulheres amadurecerem e envelhecerem com muita vida, saúde, vontades, gosto pela vida com atitude, pulso, fruição, sabedoria, sobre habitar-se e, sobretudo, amar-se. Portanto, é um brado contra uma cultura preconceituosa, velhofóbica e etarista que tem invisibilizado as mulheres quando atingem a idade madura e a velhice. É claro que o corpo ganha as marcas das idades e não tem volta no tempo, mas amadurecer saboreando a sabedoria acumulada e transcender, ousar e fazer escolhas não tem preço.

Como foi o processo de escrita da obra?

Eu sou uma mulher inquieta com tudo o que me cerca. Com a passagem do tempo, me percebi uma mulher de meio século e, embora estivesse livre, empoderada e independente, passei a observar e sentir preconceitos e estereótipos para com mulheres de minha geração. 

Ouvindo com mais atenção, observei aflições, angústias e medos de envelhecer dadas as exigências e autocobranças advindas da cultura que valoriza a juventude, a beleza, o corpo perfeito sem rugas, estrias, marcas da idade e que exclui quem está fora destes padrões. Passei a registrar o que me tocava, como sempre fiz. 

Desde muito antes dessas observações, escrevia muito sobre o processo de ser mulher e o duro caminho de tornar-se livre e fazer escolhas. Destas buscas, em 2022 publiquei pela Infinitta Leitura “Se pulsa, arde e resiste”, um livro de poemas furiosamente feministas onde já ensaiava questões da maturidade e da vivência da sexualidade das mulheres.

Sigo a antropóloga Mirian Goldenberg, e seu mais recente livro “A arte de gozar: amor, sexo e tesão na maturidade”, publicado pela Record neste ano, que mostra que sim, é preciso falar sobre nós e nossos desejos em qualquer idade e esta é uma revolução em curso. 

Então, este livro foi pensado a partir de minhas experiências e da escuta. Juntei textos, selecionei e resolvi publicar da forma como concebi, em diálogos, depoimentos curtos e, especialmente, poemas. Foi uma escolha porque acho que textos curtos e poemas propõem leveza na leitura e tempo para ressignificar e olhar-se dentro do texto e até com certo humor. 

Ora, se envelhecer é inexorável, vamos amadurecer com alegria e sem cerceamentos, nem cancelamentos. Queremos viver os prazeres, todos eles, enquanto estamos aqui, vivas. 

A sexualidade da mulher ainda é um tema considerado tabu na sociedade, ainda mais conforme as mulheres envelhecem. Por que você acha que isto ocorre?

Sabemos que, por pelo menos um milênio, meninas foram educadas em concepções religiosas [hegemônicas] para a submissão, a dependência, a maternidade, a dedicação ao cuidado de uma casa, filhos, marido e a absoluta fidelidade sexual. Propriedade do pai, depois do marido, as mulheres tiveram seus desejos ignorados, preparadas para os cuidados dos outros, raro, ou nunca, ao cuidado de si.

Sexo sempre foi tabu na nossa cultura religiosa ocidental cujos discursos promoveram o controle sobre os corpos das mulheres, educados para o recato, o pudor, a vergonha e, portanto, a esconderem-se e jamais falar sobre, e sentir, prazeres.

O pecado de Eva, ao seduzir Adão, condenou as mulheres ao pecado de origem, da carne, mito construído para submeter as mulheres ao controle dos homens. Logo, sexo só é permitido para procriar, jamais por prazer. Este é um legado detonador para os desejos femininos. E, nesta lógica, finda a idade fértil, as mulheres perdem a serventia, então, por que sexuar?

Cristalizou-se uma cultura que condenou as mulheres a terem vergonha do próprio corpo e a deserotização porque não aprova corpos maduros, e velhos, com sensualidade, beleza, felicidade, autonomia e, claro, sexualidade e liberdade. As que envelhecem, ainda são condenadas à invisibilidade e têm os desejos ignorados. A percepção de alcance da maturidade é diferente para cada pessoa, e para as mulheres têm os agravos das cobranças advindas do gênero feminino cujos estereótipos reverberam em preconceitos. 

Mirian Goldenberg nos dá o veredito: “Em tempos de tanto ódio, intolerância, preconceito e violência, gozar é um ato revolucionário”.

Se envelhecer é uma realidade biológica inevitável, preconceitos culturais são ásperos, sobretudo para as mulheres que amadurecem.

Ora, abaixo a ditadura do corpo perfeito: isso deve ser um mantra contra discursos e imagens que enfeiam quem não está num padrão de beleza, de peso, com “pele de 25 aos 60”, que tem cabelos brancos. Cuidar-se, sim, com carinho e proteção, mas entristecer e até adoecer por cobranças, não merecemos. Não mesmo. Cito um texto de Joanna Burigo, no qual diz que “uma mulher envelhecer com gosto e alegria é uma excelente alternativa ao que o patriarcado quer de nós: jovens vulneráveis ou velhas amarguradas”.

Esta obra é sobre isso, sobre mulheres maduras e caminhos para a libertação, sobre ser sujeito dos direitos e da própria história, jamais ser objeto. 

Como romper os estigmas relacionados à sexualidade das mulheres?

No livro, além dos textos temáticos, coloco verbetes e conceitos de palavras pouco conhecidas, como velhofobia, etarismo, idadismo e outras, porque acho importante situar leitoras e leitores do que estou falando e o significado destas palavras.

Uso a palavra misoginovelhafobia que junta aversão às mulheres velhas, medo de envelhecer ou a junção de estereótipos e preconceitos.

Também mostro dados estatísticos: em 2025, no Brasil, a população de pessoas com mais de 60 anos vai dobrar e seremos 32 milhões. A sociedade, se quiser ser inclusiva, terá que pensar políticas públicas e sociais, questão previdenciária, de atenção e direitos para as pessoas que envelhecem.

“A velhofobia é o retrato da violência física, verbal e psicológica que as mulheres sofrem diariamente dentro e fora de casa”, na análise da antropóloga Mirian Goldenberg, sendo realidade, infelizmente. Lembro que qualquer política nesta direção necessariamente precisa observar a classe, raça, cor, gênero, camadas geracionais. Envelhecer com segurança e plano de saúde é totalmente diferente de envelhecer em situação de vulnerabilidade. 

Como romper com estes estigmas? Pela educação formal e informal que ressignifique conceitos de idade, beleza, corpos dissidentes, velhos e outras categorias de exclusão por conta das marcas da vida e geracionais. O caso das alunas de medicina recentemente que praticaram bullying sobre a colega que tinha 40 anos resume bem este preconceito. A sociedade precisa se conscientizar que ninguém fica jovem para sempre, somos todos inevitavelmente fadados a finitude, é uma ordem natural.

Uma pergunta que me fiz: existe misoandrovelhofobia? Os homens também envelhecem, mas seus cabelos grisalhos não incomodam, é charme. Ao contrário, nas mulheres, é desleixo. Isso evidencia prescrições de gênero e relações de poder.

As mulheres que hoje se rebelam contra a misovelhoginia são as da geração que lutou contra ditaduras, que acompanhou o fortalecimento do feminismo, que gritou palavras de ordem. O que elas querem hoje? Respeito.

Direitos preservados, serem ouvidas e participar das decisões sobre o que lhes afeta.

Na França, a geração de 1968 voltou à luta. Há 55 anos inventaram a juventude como valor, subverteram ordens e afirmaram o feminismo e, agora envelhecida, esta geração se organiza para criar uma nova maneira de viver para velhas e velhos. “Envelhecer é ser selvagem, raivosa, apaixonada, impertinente”, afirmam. Annie Ernaux, a ganhadora do Nobel de literatura, é uma dessas vozes contra o etarismo e na reivindicação por visibilidade, pelo não confisco da palavra e dos direitos.  

Pode comentar sobre a escolha do título: “Um corpo que Goza não envelhece”?

Abro o livro com o verbete gozar justo para mostrar que prazeres transcendem qualquer conceito fechado, e que pensar o gozo só ligado à sexualidade é muito limitado. São tantos os pequenos, e os grandes, prazeres que as mulheres podem, e devem, permitirem-se e viverem sem culpa, medo, prisões, condenações.

Já fui abordada do porquê usei a palavra gozo e não outra, menos pontual. Na minha perspectiva, gozar é estar de bem com a vida, de ser bem tratada, comer um suflê maravilhoso, ter saúde, conviver com amigas, escolher um filme ou livro, ser ouvida, viver a sexualidade sem vergonha e não precisar se esconder nem esconder as marcas do tempo no corpo. E rir muito.

Gosto de assistir “As avós da razão” e curtir suas risadas gostosas. Rir é o melhor estado de estar vivo, mas rir de nós mesmas é colher quem somos: felizes. Alguém neste mundo pensa o contrário? Não creio. A vida é o valor mais caro, e todas as pessoas querem viver o máximo de tempo e com qualidade de vida. O investimento, nesta fase da vida, deve proporcionar bem-estar e alegrias. Menos tranqueiras e preocupações e mais prazeres, porque a vida passa num hiato. Bora ser feliz!

Chorei muito ao escrever o ‘Poema de amor para minha filha’, que faz parte do livro. Mas [a morte] é absolutamente certo que vai acontecer. O que fazer? Viver intensamente a dádiva de estar viva e amar mais. Sem medo, culpas, vergonha, silêncios impostos. As mulheres merecem.

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  • Daniela Valenga

    Jornalista e estrategista de marketing dedicada à promoção da igualdade de gênero para meninas e mulheres. Atuou como Vi...

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