Neste dezembro realizo uma vontade de adolescência e da vida inteira: publicar um livro autoral de poesias. Desde que aprendi a juntas letras, formar palavras e frases, a poesia me acompanha. Meus gritos e minhas ternuras eu as colocava em papéis ainda virgens de rabiscos. Um evento, uma memória, em susto, um agrado, uma dor e me vêm palavras e frases a compor versos. Não sei viver sem o desafio de um papel e uma caneta. 

Cursei Ciências Sociais, depois História e segui carreira acadêmica na Univali e na Udesc quando escrevi muitos textos e livros, mas os escritos poéticos sempre fizeram parte de minhas folhas de cadernos. Quando morava em Itajaí, participei do Grupo de Poetas e Escritores Mário Quintana e ali pude expressar-me, mas não foi simples: na década de 1980 as mulheres não eram ouvidas. Se falassem, eram ignoradas.

Então eu expunha minhas iras e procuras na poesia e declamava nas ruas e praças e palcos e bares e onde tivessem ouvidos atentos. As mulheres ouviam, e reconheciam-se nas suas desfortunas e nos clamores por nossa dignidade. 

As mulheres com as quais convivi na infância e as que me deparei quando ainda jovem chegando na capital do estado de Santa Catarina para estudar na faculdade tinham em comum o destino de serem mães, submetidas ao pátrio poder e ignoradas na voz. Ao chegar na cidade, eu morava no interior, em Turvo (SC), deparei-me com o cotidiano de mulheres de outra cor, sotaque, corpo, raça, geração, classe social que eu nunca tinha visto e sentia a agudez de suas mazelas. E eram crianças sem futuro pelas ruas. Condoíam-me estas realidades.

Se na década de 1980 as mulheres eram invisibilizadas, hoje elas estão no espaço público, falam, denunciam, estão nos parlamentos, mobilizam-se – se lá as violências tantas eram ignoradas ou pouco citadas, hoje estas mesmas violências estão no calor dos noticiários porque aparecem nas franjas do cotidiano. Não posso me calar. Não podemos. Então escrevo com mais fúria. 

Dentre meus guardados estão milhares de poemas e me reportam ao que eu pensava desde sempre. Com os caminhos da vida, fui escrevendo o que me ocorria e, sem medo, o que se passava e se passa na política, sobre as violências contra mulheres e meninas, dos assaltos à democracia e a dignidade, sobre ser mulher e viver as etapas geracionais e outros temas que nos comovem, rasgam e resistem. 

Desde que golpearam Dilma e promoveram um assalto à democracia neste país, escrevi crônicas no Portal Catarinas. São mais de oitenta escritos furiosos e boa parte está em dois livros publicados em 2021 como Crônicas da Incontingência da clausura – cotidianos na pandemia (ed. Letras Contemporâneas)*. São textos que fervem juntando memórias de minha mãe, as violências na pandemia, os medos, sustos, solidões, preconceitos, saudades, vacina, resistências de nossos cotidianos.  São, sobretudo, escritos feministas que denunciam as violências de gênero, racismo, sexismo e fobias. 

No entremeio destes últimos três anos, escrevi poemas que ora venho publicar no livro Se pulsa, arde e resiste. Nele, estão 50 poemas com temas diversos que convergem com críticas políticas, masculinidades, a religião castradora, direitos, conquistas, prazeres, a busca da arte da escrita e, sobretudo, as múltiplas resistências das mulheres diante de um mundo de relações machistas

O que me passa, me fere, me pulsa tenho posto em frases – como a fúria contra o infame anestesista estuprador.

Não estou sozinha nesta obra: Rosane Magaly Martins teceu, na apresentação do livro, um texto de sororidade e verve que tremularam meus sentidos: “Mostra que corpos libertários e libertinos são revolucionários. Nos provoca para a rebeldia, com a fúria e a ousadia necessária para nossa completa libertação.” Obrigada, Rosane.  A obra conta com o conselho editorial: Adriana Alves da Silva, Caroline Kern, Joana Maria Pedro, Nassau de Souza e Urda Alice Klueger, pessoas sensíveis e potentes. Obrigada por me acompanharem e aconselharem. 

Na programação, um pré-lançamento dia 13 de dezembro no Instituto de Estudos de Gênero (IEG/UFSC). O lançamento será dia 15 de dezembro, com início às 19 horas e performance poética com atriz, professora e poeta Eliss de Castro, de Itajaí. Também haverá espaço para quem queira ler um poema do livro.

Esta publicação recebeu a atenção e estímulo da produtora literária Leonita Fernandes da editora Infinitta Palavra, edição e revisão de Emerson Gasperin. Ainda, o livro traz o selo Versos & Fúrias. A edição é limitada, numerada de 1 a 250, portanto, reserve o seu exemplar!** 

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Imagem: reprodução.

Agradeço a todas, todos e todes que me acompanham nos escritos, e convido para o lançamento – confesso que estou emocionada. Aguardo vocês para um autógrafo, um abraço de calor que sabemos quanto vale! Importante na vida é o valor que damos as pequenas coisas, aos detalhes, a possibilidade de nos encantar e nos indignar. Vamos juntas, juntos, juntes! 

O livro será lançado em evento no Ponto Bar Piadina (rua Victor Meirelles, 138, centro, Florianópolis) no dia 15 dezembro às 19h, com performance poética às 21h. 

E tem o sorteio de um exemplar – em https://www.instagram.com/p/Cl46x6VMi7k/ 

Obrigada!

Marlene de Fáveri, 11 de dezembro de 2022. Em Turvo, SC. 

*Podem ser adquiridos pelo Instagram @marlenedefaveri

**Pode ser adquirido aqui, direto com a autora ou no lançamento, e pode ser enviado via correio postal, no valor de R$54,99 (Pix 48999337028).

Marlene de Fáveri

Professora do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UDESC, onde leciona a disciplina de História e Relações de Gênero. Coordenadora do Grupo de Pesquisa “Relações de Gênero e Família” (CNPQ), e do Laboratório de Relações de Gênero e Família (LABGEF). Membro do Grupo de Trabalho de Gênero da Associação Nacional de História (ANPUH), e do Instituto de Estudos de Gênero (IEG). Autora de livros e artigos de História, Gênero e Feminismo. Militante pelos direitos humanos, integrou o Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Florianópolis (COMDIM).

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