Hoje, 28 de julho, o Portal Catarinas completa dez anos.

Em um dia como hoje, em 2016, lançamos oficialmente o Portal no Centro Cultural Badesc, no coração de Florianópolis. Naquele momento, nascia um veículo de jornalismo comprometido com um jornalismo feminista, antirracista, transfeminista, anticapacitista e independente. Nascemos impulsionadas pela força coletiva das ruas e das redes, que marcou a chamada Primavera Feminista, um período de intensa mobilização social que fez florescer coletivos, organizações, grupos de pesquisa, iniciativas de comunicação, disciplinas, cursos e projetos em diferentes áreas do conhecimento e da vida pública. 

Mais do que uma onda de mobilizações, a Primavera Feminista abriu um novo horizonte para os feminismos. Em vários países do mundo, mulheres passaram a ocupar novos espaços, disputar narrativas e construir outras formas de produzir conhecimento, cultura, política e comunicação. O Catarinas é fruto desse tempo histórico. 

Uma década de lutas

Dez anos depois, sabemos que essa escolha nunca foi fácil. Veio o contra-ataque, acompanhamos a derrubada da única mulher eleita presidenta do país, a ascensão da extrema direita, a proliferação da desinformação, os ataques ao jornalismo e às defensoras de direitos humanos. Vivemos uma pandemia sob um governo da morte, cujas ações e omissões ampliaram seus impactos, sobretudo sobre os grupos sociais mais vulnerabilizados. 

Nesse mesmo período, a machosfera deixou de ocupar espaços marginais da internet para influenciar o debate público, orquestrando um revisionismo antifeminista que normaliza a misoginia, distorce dados e busca desacreditar o feminismo e os direitos humanos.

Vimos a violência misógina contra as mulheres ser filmada, transmitida e consumida como espetáculo. Vimos a polícia matar jovens negros, legitimada por discursos que naturalizam e autorizam a letalidade da violência nas periferias.

Vivemos uma década em que a violência institucional ganhou novos contornos. Presenciamos autoridades públicas, integrantes do sistema de Justiça e profissionais de saúde instrumentalizarem seus cargos para sabotar o direito de meninas ao aborto legal, submetendo vítimas de violência sexual a novas formas de sofrimento. 

Vimos crescer a ofensiva contra as lutas feministas, antirracistas e LGBTQIAPN+ sob o rótulo de “identitarismo”, criando uma falsa competição entre desigualdades e opressões de classe, raça e gênero, inclusive com narrativas reproduzidas por setores da esquerda. Uma perspectiva que desconsidera que essas estruturas de desigualdade se entrelaçam e se reforçam mutuamente. 

As redes sociais, que inicialmente ampliaram o alcance do jornalismo independente e fortaleceram a construção de comunidades, consolidaram um modelo de negócios baseado na lógica algorítmica, que privilegia conteúdos de alta viralização, reduz a circulação do jornalismo de interesse público e alimenta um ecossistema de desinformação, polarização e monetização por meio do ódio.

Fomos alvo de campanhas de ódio, enfrentamos perseguições, tentativas de intimidação e dificuldades permanentes para financiar um projeto que escolheu estar ao lado de mulheres, meninas e populações historicamente silenciadas.

Na perseverança do conjunto de lutas, tivemos muitas conquistas. Ao longo desses dez anos, acompanhamos as principais transformações do país pela lente dos feminismos. Reunimos jornalistas, colunistas, pesquisadoras, ativistas e colaboradoras que fizeram do Catarinas um espaço de produção de conhecimento e de sentidos sobre o nosso tempo. Nossas reportagens, investigações, ensaios e análises ajudaram a construir uma memória coletiva dessa década, propondo novas formas de compreender as desigualdades, questionar estruturas de poder e imaginar horizontes mais democráticos e justos. 

Muitas iniciativas potentes da comunicação feminista e independente na América Latina não resistiram às crises, aos ataques, aos retrocessos democráticos e à falta de financiamento. E nós ainda estamos aqui. E esse é um feito coletivo que merece ser celebrado. 

Um jornalismo de transformação

Produzimos investigações que repercutiram nacional e internacionalmente, contribuímos para revelar violações de direitos, influenciamos debates públicos, formamos novas gerações de leitoras e comunicadoras e construímos uma comunidade que acredita que certas histórias, quando contadas, têm o poder de mudar leis, políticas e vidas.

Ao longo de dez anos, o Catarinas mostrou que o jornalismo pode mudar o rumo de histórias concretas. Foi assim quando revelou que uma menina de 11 anos, vítima de estupro, foi questionada por uma juíza se “suportaria mais um pouquinho” para não acessar o aborto legal. A repercussão nacional e internacional contribuiu para que seu direito fosse garantido e expôs as violações enfrentadas por meninas brasileiras. 

Também foi assim ao contar a história de uma adolescente, vítima de estupro, pressionada por uma rede antiaborto a levar adiante uma gestação sob promessas de apoio que nunca se concretizaram. Após a publicação da reportagem, uma rede de solidariedade se mobilizou e garantiu apoio financeiro à família.

O impacto do nosso trabalho também se revela quando o jornalismo ultrapassa a publicação de uma reportagem e contribui para mobilizar a sociedade, fortalecer redes de proteção e interromper ciclos de violência. Em 2021, publicamos a foto de um feminicida confesso que estava foragido após ter a prisão inicialmente revogada. Uma leitora o reconheceu no Rio Grande do Sul, acionou a polícia e ele foi preso, sendo posteriormente condenado. 

Histórias como essas revelam que o jornalismo não termina quando uma reportagem vai ao ar. Cada publicação é resultado de investigação, entrevistas, análise de documentos, checagem rigorosa, revisão, acessibilidade e acompanhamento dos desdobramentos. É esse trabalho comprometido e persistente que transforma denúncias em mobilização e informação em mudanças reais.

Não por acaso, ao longo da última década, o trabalho do Catarinas passou a ser reconhecido por algumas das mais importantes instituições do jornalismo e dos direitos humanos. A reportagem “Suportaria mais um pouquinho?” tornou-se finalista do Prêmio Gabo, principal premiação do jornalismo ibero-americano, e recebeu menção honrosa no Prêmio Roche de Jornalismo de Saúde. 

Em 2024, o Catarinas ganhou o terceiro lugar da categoria “texto” do Prêmio ACI Ocesc de Jornalismo, promovido pela Associação Catarinense de Imprensa e a Organização das Cooperativas do Estado de Santa Catarina, com a reportagem “Professora é perseguida por apoiar inclusão de aluna trans em escola pública de Florianópolis”. Em 2026, conquistamos o primeiro lugar na categoria com a produção “Rede antiaborto pressiona adolescente de 13 anos a ter filho do estuprador e depois a abandona”.

Mais do que referenciar a qualidade do nosso trabalho, homenagens reconheceram o papel público que o Catarinas desempenha na sociedade. Recebemos uma Moção de Reconhecimento da Câmara Municipal do Rio de Janeiro pela atuação na defesa do direito ao aborto legal, uma Moção de Reconhecimento e Louvor pelo compromisso com uma comunicação alternativa e antirracista, além da Medalha de Mérito Virgílio Várzea pela Câmara de Florianópolis, concedida pelo trabalho realizado em prol de Florianópolis.

Poderíamos dedicar este editorial às métricas. Ao longo de dez anos, alcançamos números expressivos de leitura e engajamento. Mas acreditamos que as transformações produzidas coletivamente pelo nosso jornalismo não se revelam apenas em indicadores e sim nas mudanças concretas que ele ajuda a produzir. 

Está nas meninas que tiveram seus direitos garantidos, nas famílias que encontraram apoio, nas violências que vieram à tona, nas pessoas responsabilizadas e nas transformações que só acontecem quando a informação mobiliza a sociedade. É esse impacto, construído coletivamente ao longo desta década, que escolhemos celebrar.

Tudo isso foi possível porque milhares de pessoas acreditaram que era preciso disputar os sentidos do mundo, romper silêncios, provocar incômodos e construir, todos os dias, um jornalismo mais plural, contra-hegemônico e comprometido com a transformação social. 

É justamente por isso que, ao celebrar os dez anos, escolhemos olhar para frente.

A importância de fortalecer o jornalismo que enfrenta o machismo

Lançamos nossa campanha de financiamento coletivo para convidar quem acompanha o Catarinas a fazer parte da construção dos próximos dez anos. Em um cenário cada vez mais hostil ao jornalismo independente, fortalecer uma iniciativa como a nossa é defender a democracia, os direitos humanos e o direito da sociedade à informação.

Acesse aqui.

Essa celebração também continuará em novembro, quando realizaremos o Festival de 10 anos do Portal Catarinas. Mais do que uma comemoração, será um encontro festivo e político que reunirá quem ajudou a construir essa história para celebrar o caminho percorrido e imaginar, coletivamente, os próximos dez anos do jornalismo, dos feminismos e da democracia. 

Dez anos não são um ponto de chegada. São a prova de que resistimos. E, principalmente, de que ainda há muito a construir.

Se o Catarinas fez parte da sua formação, inspirou uma reflexão, fortaleceu uma luta ou ajudou a transformar uma realidade, este também é um convite. Participe da nossa campanha de financiamento coletivo. Venha celebrar conosco no Festival de 10 anos.

Porque o futuro do jornalismo independente não se constrói sozinho. Ele se constrói coletivamente. E nós queremos seguir escrevendo essa história ao lado de vocês.

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