Alerta de gatilho: esta reportagem aborda misoginia, ameaças e ataques contra mulheres jornalistas. Se esses são temas sensíveis para você, prossiga com cautela.

Mulheres concentraram a maior parte dos ataques online direcionados a jornalistas nas primeiras semanas da campanha eleitoral de 2026. Monitoramento identificou agressões misóginas em que tentativas de deslegitimar o trabalho jornalístico se combinam a ofensas relacionadas ao gênero das profissionais. 

Entre 16 de agosto e 12 de setembro, a Coalizão em Defesa do Jornalismo (CDJor), em parceria com o Laboratório de Internet e Ciência de Dados (Labic) da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), registrou 7030 ataques à imprensa.

Entre eles, 1659 dos ataques estavam direcionados a jornalistas específicos no X e no Instagram. As mulheres concentraram 63,8% desse total. No X, foram alvo de 500 dos 750 ataques. No Instagram, de aproximadamente 558 dos 909 registros.

“Os dados reforçam a importância de analisarmos o cenário de violações de direitos contra o campo, bem como suas especificidades, a partir de uma perspectiva de gênero, sobretudo durante o período eleitoral”, defende Taynara Lira, assessora de Proteção e Participação Democrática da ARTIGO 19 Brasil e América do Sul.

A CDJor é formada por ARTIGO 19, Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), Associação de Jornalismo Digital (Ajor), Associação de Jornalistas de Educação (Jeduca), Comitê para a Proteção de Jornalistas (CJP), Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj), Instituto Palavra Aberta, Instituto Tornavoz, Instituto Vladimir Herzog, Intervozes – Coletivo Brasileiro de Comunicação Social e Repórteres Sem Fronteiras.

Misoginia diferencia ataques contra mulheres jornalistas

A tentativa de descredibilizar jornalistas aparece nos ataques direcionados tanto a homens quanto a mulheres, mas assume características específicas quando elas são os alvos.

Contra profissionais homens, são recorrentes acusações de parcialidade, viés ideológico ou militância. Quando direcionadas às mulheres, essas acusações são acompanhadas por ofensas sexuais e misóginas.

“Há comentários sobre a sua aparência ou vida pessoal, bem como narrativas vexatórias e desumanizantes relativas à sua capacidade intelectual para exercer o jornalismo, que em alguns casos escalaram para menções a violência física contra essas profissionais”, exemplifica Taynara.

Entre os episódios identificados no período estão os ataques contra Natalia Viana, cofundadora e diretora executiva da Agência Pública. Em 20 de agosto, durante uma apuração, a jornalista procurou o influenciador Paulo Figueiredo para obter esclarecimentos. Após o contato, passou a ser exposta e ofendida por ele nas redes sociais. 

“Os ataques recentes são ainda mais graves porque suscitam violência contra profissionais mulheres em um momento de aumento de casos de feminicídio que tem sido, inclusive, pauta durante esta campanha eleitoral”, destacou a Agência Pública em editorial publicado após os ataques.

No posicionamento, o veículo repudiou as tentativas de intimidação e ataque à reputação da organização e à equipe, formada majoritariamente por mulheres. “Eles são ainda mais chocantes quando vindos de figuras centrais a uma campanha para a presidência da República que promete agir contra a violência de gênero”, ressaltou o editorial.

Caso Juliana Dal Piva

Os ataques contra Juliana Dal Piva estão entre os casos acompanhados no período. Após a publicação de uma reportagem sobre conversas entre o deputado federal Nikolas Ferreira (PL/MG) e o banqueiro Daniel Vorcaro, a jornalista recebeu mensagens que a acusavam de produzir “fake news”, além de ataques misóginos. Também foram identificadas manifestações de incentivo à violência física e sexual contra ela.

A cobertura resultou em uma ação judicial contra o ICL Notícias, veículo responsável pelas reportagens. A Justiça Eleitoral de Minas Gerais determinou inicialmente, em decisão liminar, a retirada integral da reportagem. Posteriormente, o magistrado autorizou sua republicação com restrições ao conteúdo.

Nas redes sociais, Juliana compartilhou que ao iniciar a cobertura destas eleições, sentiu que poderia reviver traumas relativos a ataques que sofreu anteriormente. “Já tinha lidado com agressões de incentivo ao suicídio, mas foi talvez a primeira vez que, para mim, chegou a questão da agressão sexual. É tudo nojento demais. Absurdo demais. Surreal mesmo”, desabafou. 

A jornalista destacou que está sendo cuidada pela família, amigas e colegas, mas que não é possível naturalizar os ataques:

“Nada disso é normal e existem muitos responsáveis. Não dá pra gente se acostumar com isso. Eu, ao menos, não vou”.

Ataques podem interferir nas escolhas editoriais

A violência digital pode ultrapassar as redes sociais e afetar a segurança, a vida pessoal e as decisões profissionais das jornalistas. 

“Esse contexto de ataques, ameaças e risco constante pode desestimular ou até interromper a atuação de jornalistas e comunicadoras, seja por um contexto de censura institucional, seja pela autocensura e uma consequente redução de sua exposição pública”, explica Taynara. 

Os efeitos também podem aparecer quando jornalistas deixam de abordar temas, procurar fontes ou ocupar espaços de exposição pelo receio de novas agressões.

“Quando mulheres jornalistas são intimidadas, descredibilizadas ou levadas a reduzir sua exposição, toda a sociedade perde uma parte da diversidade de perspectivas que deveria estar presente no debate público. Isso impacta diretamente na qualidade da democracia que defendemos, disputamos e queremos construir a partir de uma perspectiva pautada nos Direitos Humanos”, fala.

Ataques a jornalistas também é violência política de gênero

Para Marlise Matos, coordenadora-executiva do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher (Nepem) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ataques misóginos contra mulheres jornalistas também podem ser compreendidos como uma forma de violência política de gênero.

A pesquisadora situa jornalistas, professoras, ativistas e defensoras de direitos humanos entre mulheres que ocupam o debate público e se tornam alvos de ofensivas misóginas.

A Lei 14.192/2021, que estabelece normas para prevenir, reprimir e combater a violência política contra a mulher, é voltada especialmente à participação político-eleitoral. Marlise chama atenção, porém, para a necessidade de mecanismos capazes de alcançar outras mulheres cuja atuação pública também é alvo de violência.

Em março deste ano, o governo federal lançou o Protocolo de Enfrentamento à Violência Política contra as Mulheres. O documento estabelece fluxos para prevenção, acolhimento, investigação e responsabilização e amplia o atendimento para além de candidatas e mulheres eleitas. 

Entre quem pode recorrer ao protocolo estão lideranças comunitárias e sociais, defensoras de direitos humanos, representantes de organizações da sociedade civil, ativistas e outras mulheres que exerçam atuação política ou pública.

Segundo Marlise, essa ampliação permite alcançar situações vivenciadas por jornalistas e outras profissionais que ocupam a esfera pública.

A pesquisadora diferencia os objetivos que a violência pode assumir. Contra parlamentares, pode buscar afastá-las dos espaços institucionais de poder e comprometer o exercício do mandato. Enquanto que, quando direcionada a jornalistas, ativistas e defensoras de direitos humanos, busca restringir a presença e expressão no debate público.

“É o sequestro da perspectiva pública das mulheres”, resume.

Na avaliação de Taynara, a violência de gênero no ambiente digital deve ser compreendida também como uma questão de liberdade de expressão, liberdade de imprensa e participação democrática. “Os ataques não atingem apenas as mulheres individualmente: podem produzir um efeito mais amplo de silenciamento, restringindo sua participação social e política e a sua capacidade de contribuir e de incidir sobre processos políticos”, finaliza.

Onde buscar ajuda?

O Programa de Proteção Legal para Jornalistas, da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), presta assistência jurídica a jornalistas que, em razão do seu trabalho, estejam sendo silenciados ou constrangidos por meio de processos judiciais e também aos profissionais de imprensa vítimas de assédios, ameaças e perseguições que desejem processar civilmente os agressores.

O Tornavoz oferece defesa jurídica especializada para vítimas de processos judiciais em razão do exercício da manifestação do pensamento e da expressão, incluindo jornalistas, e que tenham dificuldade para contratar e remunerar defesa especializada.

O Plantão Colmeia, do Instituto E Se Fosse Você?, presta atendimento a vítimas de violência política de gênero e raça, incluindo comunicadoras.

O Pegabot na Defesa Digital, do Its Rio, apoia organizações, defensores de direitos humanos e jornalistas que são vítimas de ataques online, por meio de monitoramento, análise de ataques digitais e acesso à justiça.

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  • Daniela Valenga

    Jornalista dedicada à cobertura de gênero. Mestranda em Comunicação na UFPR. Atuou como Visitante Voluntária no Institut...

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