“Você tem certeza?” A pergunta veio de uma profissional de psicologia e foi dirigida a uma paciente que acabara de dizer que era lésbica. Em outro atendimento, uma estudante recém-chegada à universidade ouviu que era muito nova, que fosse com calma sobre se dizer lésbica, que mais adiante na vida pensasse nessas coisas. Uma terceira, bissexual, foi empurrada a escolher um lado: já que era para fazer, que fizesse direito. Ela não voltou ao atendimento. 

Os três relatos são trechos de  entrevistas com mulheres lésbicas e bissexuais usuárias de serviços de saúde em Cuiabá, realizadas em 2020, e fazem parte da pesquisa “Experiências de acesso e permanência ao Sistema Único de Saúde por mulheres lésbicas e bissexuais”, da Universidade Federal de Mato Grosso, coordenada por Pablo Cardozo Rocon, da qual também participo como pesquisadora. 

Nenhuma das mulheres ouvidas passou por internação, eletrochoque ou por qualquer prática que o país reconheça de imediato como “cura gay”. 

O que elas relataram foi mais discreto: perguntas que colocam a orientação sexual sob suspeita, orientações que adiam ou corrigem a forma como se nomeiam e comentários que podem parecer pequenos demais para serem reconhecidos como violência. Justamente por isso, podem soar inofensivos. 

Em pleno período eleitoral, que afeta a saúde mental de muita gente, a sexualidade de lésbicas e mulheres bissexuais volta a ser tratada como assunto de disputa. Pouco se pergunta, porém, o que essas mulheres encontram quando procuram cuidado. 

Falamos, portanto, das mesmas mulheres, mas seguimos tratando direitos, saúde mental e permanência no cuidado como se fossem agendas separadas. 

Desde 1999, o Conselho Federal de Psicologia proíbe terapias de reorientação sexual no Brasil. Ainda assim, os relatos reunidos pela pesquisa mostram que o problema não se limita a clínicas clandestinas ou espaços religiosos. 

Nos atendimentos descritos, a tentativa de conversão não aparece como procedimento formal, mas como dúvida lançada sobre a orientação sexual, recomendação para esperar, correção da forma como a paciente se nomeia. 

São práticas menos visíveis, difíceis de registrar e frequentemente tratadas como episódios isolados. O efeito, porém, pode ser concreto: algumas mulheres deixam de voltar ao serviço. 

Chegar ao consultório não significa encontrar acolhimento

Nos atendimentos descritos, a orientação sexual nem sempre chega a ser registrada ou discutida. 

Uma das entrevistadas explicou que não conta ao profissional que é bissexual porque teme o preconceito, a reação e o estereótipo que associa bissexualidade à promiscuidade e à doença. 

Outra observou que jamais lhe perguntaram nada. Presume-se que ela não seja lésbica e, diante da omissão da pergunta, ela também não corrige. 

É um cálculo de risco feito na cadeira do consultório, às vezes antes mesmo da primeira sessão. O cuidado avança, então, sobre uma informação incompleta, enquanto a paciente administra aquilo que pode ou não dizer sobre a própria vida. 

Voltar ao serviço tornou-se, para algumas entrevistadas, a parte mais difícil do cuidado. A pesquisa começou investigando como lésbicas e mulheres bissexuais acessam e permanecem nos serviços de saúde, mas as entrevistas deslocaram o foco: chegar ao consultório não significa, necessariamente, encontrar acolhimento. 

Entrevistadas interromperam o acompanhamento por causa do que ouviram e se recusaram a procurar outro profissional. 

Uma delas relatou o caso de amigas que hoje resistem à ideia de fazer terapia depois de escutarem, dentro do processo terapêutico, que aquilo era fase, rebeldia adolescente ou erro que seria castigado. 

Mulheres que já chegam aos serviços carregando os efeitos da discriminação podem encontrar, justamente no espaço destinado ao cuidado, uma nova experiência de discriminação. 

Desigualdade impacta na escolha de bons profissionais

Os relatos indicam que o problema não se resume a um profissional isolado ou malformado. 

Em 2019 a revista Psicologia: Ciência e Profissão publicaram levantamento que registrou que 29,48% dos profissionais de psicologia pesquisados adotariam práticas voltadas a alterar a orientação sexual de um paciente caso ele solicitasse; outros 12,43% concordavam em fazê-lo mesmo sem solicitação. 

A desigualdade também aparece na possibilidade de escapar de um atendimento discriminatório. Uma das entrevistadas disse não ter passado por experiências semelhantes porque sua condição financeira lhe permite escolher quem a atende. 

No Brasil, essa margem de escolha também se compra. Quem não pode pagar tem menos condições de trocar de profissional, interromper o atendimento sem prejuízo ou buscar outro serviço. 

Entre as interlocutoras ouvidas no estudo, oito se declararam negras ou pretas. A distribuição do risco, portanto, tem cor e renda. 

A questão deixa de ser apenas a sensibilidade individual de cada terapeuta e passa a ser outra: quem pode se levantar e sair de um atendimento ruim? 

Discriminação leva ao apagamento dos registros e das experiências

A LGBTI+fobia de Estado não começa apenas quando o poder público persegue. Ela também se manifesta quando o Estado não vê. 

A presunção de heterossexualidade, a correção envergonhada, o desamparo de quem não pode escolher e a ausência de estatísticas oficiais sobre a extensão do problema mostram como esse apagamento opera. 

Ele não depende de um agente público declaradamente hostil, nem se manifesta apenas pela violência explícita. Aparece quando determinadas existências somem dos dados, dos protocolos, dos currículos de formação e das práticas de cuidado. 

Quinze anos após a criação da Política Nacional de Saúde Integral LGBT, que incluiu diretrizes para a saúde mental, o estudo expõe a distância entre o direito previsto numa política nacional e o que pode acontecer na cadeira de um consultório. 

Há ainda uma consequência menos visível: quando uma mulher sofre discriminação, abandona o atendimento e ninguém registra porque ela não voltou, sua saída também desaparece como problema de saúde. 

Reside nisso uma das formas menos visíveis de LGBTI+fobia de Estado. O Estado recomenda que se procure ajuda, mas não sabe quantas pessoas deixam de procurá-la novamente depois de encontrarem discriminação justamente onde deveriam encontrar cuidado. 

Como exceção reveladora, uma das participantes contou que é acompanhada por um psiquiatra que conhece sua orientação sexual, recebeu sua companheira nas consultas e considera essa informação ao avaliar o que ela sente. 

Para ela, isso não abriu conflito nem constrangimento. Não foi preciso tecnologia nova, protocolo sofisticado ou solução extraordinária. Bastou que o profissional tratasse a orientação sexual como parte da vida da paciente, não como problema a ser corrigido. 

Esse cuidado, justamente por ser simples, mostra o que ainda falta aprender sobre atendimento clínico das diversidades. 

O silêncio das mulheres que não voltam conta outra história 

O recado se repete nas campanhas públicas: procure ajuda. Mas a pergunta decisiva raramente aparece: que ajuda encontra quem finalmente procura?

Para uma mulher que escuta que sua sexualidade é fase, que precisa esperar ou que deve se decidir, o consultório deixa de ser apenas um lugar de cuidado. Torna-se também o lugar onde ela aprende o custo de pedir ajuda e onde esse custo pode ganhar o nome de alerta para outras mulheres. 

Há décadas, pesquisas documentam os danos associados às tentativas de mudar a orientação sexual. No Brasil, normas profissionais também proíbem essas práticas. 

A questão, portanto, já não é apenas saber se há resolução ou conhecimento acumulado. É entender por que esse conhecimento perde força quando chega à porta do consultório e porque, tantas vezes, não alcança o que acontece do lado de dentro. 

Não sabemos quantas mulheres ouviram “você tem certeza?” e decidiram não marcar a sessão seguinte. Não sabemos quantas, depois de uma experiência de discriminação, desistiram de procurar outro serviço de saúde. 

Enquanto essas desistências não forem registradas como informação de saúde, continuará sendo possível repetir que as práticas de conversão ficaram no passado. O silêncio das mulheres que não voltaram e ficaram pelo caminho conta outra história. 

*Se você precisa conversar, procure os serviços de saúde mental do seu município ou o Centro de Valorização da Vida, que atende 24 horas

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  • Bruna-Andrade-Irineu---

    Assistente social, professora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e pesquisadora na área de políticas públicas...

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