As eleições de 2026 apresentam um cenário em que a corrida por votos não se limita às ruas, aos palanques ou à propaganda eleitoral. Há um outro espaço central nessa disputa: o mundo digital.

De um lado, candidaturas investem recursos para aumentar o alcance, cliques e visibilidade. Do outro, eleitoras e eleitores recebem uma enxurrada de conteúdos nas plataformas, verdadeiros, falsos, duvidosos e muitas vezes violentos, na expectativa de encontrar informações suficientes para tomar suas decisões políticas.

Mas há uma questão que costuma ficar escondida nessa disputa: quem consegue fazer a informação circular?

Movimentos sociais, organizações da sociedade civil, portais de mídia, ativistas e coletivos produzem diariamente muita informação de qualidade, mas que nem sempre costumam “performar” bem nas redes sociais.

A cada mês, uma nova estratégia: atualizar o curso de marketing digital, comprar o selo de verificado, mudar o dia e horário de publicação, melhorar a porcentagem de SEO e palavras-chave, escrever textos curtos com títulos que não passam de sete palavras, perguntas que chamem atenção nos cinco primeiros segundo dos vídeos, carrosséis, usar hashtags de #viral, entre tantas outras tentativas. 

A verdade é que, independentemente da estratégia, ainda não sabemos responder o que acontece depois que apertamos “publicar”. O que sabemos é que enquanto determinados conteúdos são priorizados, outros necessariamente encontram mais dificuldades para circular.

Não é à toa que discursos violentos, com propagação de ódio, ataques e ameaças conseguem grande alcance, enquanto conteúdos produzidos por grupos que pautam direitos humanos permanecem restritos a pequenas bolhas digitais.

A disputa não se trata apenas de quem tem a melhor estratégia de comunicação, mas quem de fato pode pautar o debate público que hoje é diretamente entrelaçado com as redes sociais.

Essa é a ponta de um iceberg chamado grandes plataformas digitais, as tais das big techs, que escondem em sua infraestrutura algorítmica muitas camadas de desigualdade.

Quase uma roleta-russa do engajamento, que a todo momento insiste em colocar sobre os usuários a responsabilidade de aplicativos que foram pensados para funcionar para poucos, seguindo uma lógica em que empresas bilionárias concentram poder político e econômico, e ditam o que, como, quando e para quem um conteúdo deve ser entregue.

Uma dinâmica que ganha uma dimensão ainda mais preocupante quando falamos em períodos eleitorais.

Ao não propiciar um ecossistema informacional diverso e transparente, a estrutura em que essas plataformas funcionam afeta diretamente a liberdade de expressão, o acesso à informação e a própria qualidade do debate democrático.  

Por mais  que hoje o Poder Público reconheça os impactos gerados por essas plataformas, em especial com as novas resoluções da Justiça Eleitoral sobre inteligência artificial, remoção e impulsionamento de conteúdo falso e de discurso de ódio, ele ainda está muito longe de dar um retorno digno a sociedade brasileira frente a essa crise que vivemos.

Uma internet democrática não pode ser aquela em que precisemos disputar permanentemente com as lógicas das big techs para nos comunicarmos com efetividade. Tampouco pode ser um espaço em que a participação de mulheres, pessoas negras, indígenas e a população LGBTQIAPN+ dependa de sua capacidade de suportar ataques, ameaças e outras formas de violência digital para estar nesse espaço.

Assim como não podemos aceitar que uma eleição seja decidida pela lógica dos algoritmos e pela capacidade de investimento de quem pode pagar mais, precisamos avançar rumo a uma internet em que haja mais segurança, conexão e possibilidades de participação social e política.

Uma internet que também seja capaz de mobilizar a tecnologia para além do lucro, considerando seus impactos sobre o meio ambiente e a crise climática.

Nesse sentido, há um horizonte em curso. Iniciativas espalhadas por todo território brasileiro, do Norte ao Sul do país, têm trabalhado em prol de uma internet que não dependa de grandes corporações para seu funcionamento e que entendem os dados e as comunidades como bem comum. 

Organizações como a Terra Preta Digital, no Pará; a Pajubá Tech, em Pernambuco; a Abaré, no Amazonas; o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST); a Comunidade CTRL+Z; a ARTIGO 19; a Sleeping Giants Brasil, entre tantas outras, fazem parte de um movimento que busca abrir caminhos concretos para uma comunicação mais democrática, diversa e sustentável. 

Iniciativas desse tipo são essenciais à reflexão também por permitirem outros olhares para o “digital” como espaço de debate político, que influencia profundamente nos rumos democráticos do país, especialmente em períodos eleitorais e em um contexto mais amplo de ameaça aos direitos humanos.

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  • Jornalista, assessor do programa de Proteção e Participação Democrática da ARTIGO 19 Brasil e América do Sul e diretor d...

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