Há algum tempo, era comum citar o ditado popular que dizia que política e religião não se discutem. E havia quem pensasse que, ainda que valesse a pena entrar no debate, isso não era coisa de mulher. Hoje, o eleitorado brasileiro é composto por nove milhões de mulheres a mais do que os homens. Além disso, em todas as religiões do país, as mulheres compõem mais de 50% da audiência

Portanto, ainda que se esteja longe de haver equiparidade da participação feminina em cargos públicos, é nas mãos das mulheres que está a decisão dos lugares que serão ocupados por muitos homens. E, pelo que se vê, em boa parte, nas mãos de mulheres de fé.   

Para escrutinar as racionalidades cotidianas e as preferências políticas das religiosas, o Instituto de Estudos da Religião (ISER) ouviu 181 evangélicas de todo o país, em quatro anos de rodadas de pesquisas qualitativas (2022-2025)

As evangélicas compõem 55,4% do grupo religioso que hoje perfaz 26,9% da população. Os evangélicos se irmanam com a maioria católica em diversas pautas e ocupam inúmeros cargos públicos nas mais variadas instâncias de poder. 

O que se pode dizer é que parece que o mesmo engajamento que as mulheres têm em seus compromissos eclesiais transcende para outras esferas da vida. Embora elas compartilhem de um sentimento de desgosto e desilusão com a política, 70% continuariam votando se não fosse algo obrigatório. 

A definição do voto se dá mais próximo ao período de ida às urnas, mas o que está no cerne da tomada de decisão são os princípios e valores apresentados pelos candidatos, refletidos em boas propostas. 

Ter boas propostas pode soar como um jargão, mas, neste caso, significa, no geral, ser contrário ao aborto, às drogas, à homossexualidade e à corrupção. 

A identidade religiosa do candidato não é algo determinante. E as evangélicas também não votam em mulheres por elas serem mulheres. Sua lealdade é moral.

Elas também não são categóricas em defender a separação entre igreja e Estado, pois pensam que as comunidades de fé podem ajudar a promover o bem-estar social ao mesmo tempo em que figuras públicas, quando religiosas, podem ser mais éticas.

No entanto, as evangélicas discordam que os púlpitos de suas igrejas sejam utilizados como palanque eleitoral. 

Outro espaço que as preocupa é o da casa. Nos quatro anos da pesquisa, o lar foi considerado inseguro, e os homens nem sempre foram vistos como aptos ao cuidado com os filhos. 

As evangélicas não temem a educação sexual nas escolas, embora sejam contrárias a ela em idade precoce ou quando envolve discussões sobre identidade de gênero. O que elas temem é o abuso contra as crianças e a violência contra as mulheres, e apontam para a inoperância do aparato estatal no sentido de assegurar a proteção. 

Talvez por isso a resistência entre se conciliar religião e feminismo, observada nos primeiros três anos de pesquisa, não tenha sido notada da mesma forma em 2025. Ainda assim, as evangélicas muitas vezes não veem o feminismo como um movimento legítimo e benquisto na luta por direitos. 

Mas uma aproximação parece vir sendo cada vez mais possível, pois elas sonham com um futuro com melhor alimentação, educação, saúde e segurança. E, nesses sonhos, um Brasil evangélico não está na ordem das urgências. 

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  • Nina Rosas é professora do Departamento e da Pós-graduação em Sociologia UFMG, é pesquisadora convidada do Instituto de...

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