Nossa luta diária contra as desigualdades, injustiças e opressões nos convoca, mais do que nunca, a defender nossos valores, nossas causas e nossa forma de nos posicionar no mundo. 

Como jornalistas feministas, refutamos a suposta imparcialidade e neutralidade que o jornalismo produzido pela mídia tradicional tem ainda defendido, reafirmando pressupostos vazios que não condizem com a sua atuação e com o momento histórico em que vivemos.

Nos posicionamos, assim, a favor da democracia, dos direitos humanos, da justiça social, da autonomia dos povos, do bem viver, das políticas públicas, da soberania nacional, do Estado Democrático de Direito. Por todas essas lutas, nos posicionamos pelo voto em Luiz Inácio Lula da Silva. Votamos 13.

Há dois dias do segundo turno das eleições presidenciais, não sabemos exatamente o que será do futuro do país, mas temos provas inequívocas de que a não reeleição do presidente Lula trará riscos gravíssimos à democracia e a importantes direitos conquistados nos últimos anos, talvez décadas. Principalmente para mulheres, dissidências de gênero e sexualidade, população negra e indígena e outros grupos vulnerabilizados.

Sabemos, de antemão, o que representou o governo de Jair Bolsonaro, em que cortes no orçamento prejudicaram a manutenção de políticas públicas importantes, levando o Brasil a retornar para o Mapa da Fome das Nações Unidas, ao sucateamento das universidades federais e aos altos índices de queimadas e desmatamento na Amazônia. Além de uma condução negacionista e anti-ciência da pandemia que levou à morte mais de 700 mil brasileiras e brasileiros. 

Conhecemos o histórico de Flávio Bolsonaro

Conhecemos também o histórico de Flávio Bolsonaro, filho de Jair e herdeiro de um projeto político familiar em que se cruzam machismo, racismo, violência armada e apropriação privada do que deveria ser público. 

No livro “La guerra contra las mujeres”, a antropóloga argentina Rita Segato analisa como a violência contemporânea atualiza estruturas coloniais de poder. 

Essa perspectiva ajuda a compreender a mafialização da política, em que interesses econômicos, grupos armados e estruturas do Estado se articulam por meio de redes de proteção, lealdade e pactos masculinos de poder. 

A trajetória de Flávio reúne episódios que merecem ser examinados nessa perspectiva. Como deputado estadual, homenageou Adriano da Nóbrega, posteriormente apontado como chefe do Escritório do Crime. Investigações sobre as “rachadinhas” levantaram suspeitas de desvios de recursos do gabinete e de sua utilização em negócios imobiliários em áreas controladas por milícias. 

Nas periferias, as milícias transformam serviços essenciais em negócios impostos pela força, enquanto mulheres negras e pobres enfrentam as consequências da violência armada. 

É o caso de Cristiane Gomes da Silva, mãe de Ana Clara, menina negra de cinco anos morta por um tiro de fuzil em Niterói. Flávio integrou a defesa do policial acusado, impedindo que ele fosse levado a júri popular. 

No Senado, também apoiou uma proposta que retiraria a obrigatoriedade de identificação das munições adquiridas pelas forças de segurança, dificultando o rastreamento de disparos. A medida se insere no contexto da flexibilização do acesso a armas e munições promovida pelo governo Jair Bolsonaro. 

O controle armado dos territórios e as tentativas de controle sobre os corpos das mulheres revelam diferentes dimensões das disputas por poder e autonomia. 

Como deputado estadual, Flávio votou contra a ampliação da licença-maternidade e contra medidas para restringir o porte de armas de policiais envolvidos em violência doméstica. 

Seu campo político também apoia projetos que ameaçam o aborto legal, inclusive para crianças vítimas de estupro. 

Mais recentemente, mensagens divulgadas pelo PlatôBR apontaram que Alexandre Santini, ex-sócio de Flávio Bolsonaro, organizava encontros com garotas de programa, mencionando a presença do senador. 

Uma reportagem da revista Piauí revelou ainda que, durante a pandemia, empresários ligados à Precisa Medicamentos, envolvida nas negociações da vacina Covaxin, organizaram um churrasco em uma lancha no Lago Paranoá, com a presença de Flávio, lobistas e três trabalhadoras do sexo levadas de São Paulo. 

Flávio também manteve proximidade com Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, investigado por suspeitas de crimes financeiros e associado a uma rede internacional de exploração sexual, com recrutamento de mulheres estrangeiras, inclusive refugiadas. 

Esses episódios mostram como mulheres, inclusive jovens em situação de vulnerabilidade, podem ser instrumentalizadas como moedas de troca em confrarias masculinas, nas quais relações pessoais, interesses econômicos e influência política se entrelaçam.

Não podemos normalizar o absurdo

Sua postura arrogante, desrespeitosa e masculinista no debate presidencial na Rede Bandeirantes (Band) não deixou dúvidas sobre o caráter bélico e autoritário que possui. Ficou nítido ainda que as mentiras proferidas ao longo de toda a transmissão servem para dissimular sua total falta de propostas políticas para a condução do país e para minar o espírito democrático que os debates deveriam preservar. 

Infelizmente, o que vimos foram somente acusações infundadas ou distorcidas sobre o presidente Lula, sem qualquer proposição para o futuro do Brasil. 

A situação foi agravada pelo formato escolhido pela Band, que não pode ser desligado de suas escolhas político-editoriais, eximindo seus jornalistas do papel de mediadores críticos do que ali estava sendo dito. 

Pouco questionaram e em nada intervieram quando a mentira era dita como fosse verdade. Perde a população, perde o jornalismo, perde a democracia.

Mas não podemos perder mais, o fascismo, o autoritarismo, o desrespeito com os preceitos democráticos não podem ser normalizados. 

Votamos 13

Temos críticas ao governo Lula (PT), mas também reconhecemos os avanços registrados durante sua gestão. Foi sob esse governo que o Brasil voltou a sair do Mapa da Fome e que foram sancionadas legislações importantes para os direitos das mulheres, como o Pacote Antifeminicídio, a Política Nacional de Cuidados, a Lei da Igualdade Salarial e a previsão de auxílio-aluguel para mulheres em situação de violência doméstica.

Reconhecer essas conquistas não significa abrir mão da crítica. Pelo contrário: o compromisso com a democracia exige fiscalização permanente, liberdade de imprensa, participação social e o direito de cobrar dos governantes a ampliação e a efetivação das políticas públicas. Precisamos preservar e garantir o direito de questionar o poder e exigir respostas.

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