Em outubro, escolheremos quem ocupará a Presidência da República, os governos estaduais, o Congresso Nacional e as assembleias legislativas. Nessas escolhas, estão em jogo projetos de sociedade que podem ampliar direitos, redistribuir poder e criar condições para uma vida digna. Ou aprofundar desigualdades, violências e exclusões.

Por isso, nas eleições de 2026, nossa redação decidiu abordar o pleito a partir da vida que queremos tornar possível, especialmente diante da emergência climática, da concentração de riqueza, da precarização das condições de vida, do avanço das tecnologias sobre nossas subjetividades e da ascensão de projetos autoritários.

Disputa que se torna ainda mais urgente ao observarmos que mulheres, pessoas negras, indígenas e LGBTQIAPN+ seguem sendo alvos preferenciais de discursos que fazem do medo e do ódio ferramentas para conquistar e manter o poder.

Nossa cobertura, em sintonia com uma leitura crítica do que estamos vivendo, estará orientada pelo compromisso com o fortalecimento e a ampliação da democracia.

A partir desse entendimento, abordaremos sete caminhos para o Bem Viver: viver sem violências; economia do cuidado, trabalho e tempo; autonomia sobre nossos corpos; distribuição de riqueza e poder; representação e participação nos espaços de decisão; vida nos territórios sem conflitos e preservação dos recursos naturais; democratização da informação e da tecnologia. 

São caminhos que se atravessam. Não há enfrentamento à violência sem autonomia econômica e combate ao racismo. Não há política de cuidado sem renda, tempo, moradia e serviços públicos. Não existe autonomia sobre nossos corpos sem democracia. Não há justiça climática sem justiça racial e territorial. E não haverá democracia plena enquanto poder, riqueza, informação e tecnologia permanecerem concentrados.

A partir desses eixos, vamos buscar propostas, pesquisas, políticas públicas e experiências capazes de apontar horizontes de transformação. Investigar seus possíveis resultados e limites, os recursos necessários para colocá-las em prática, os interesses que precisam ser enfrentados e as decisões políticas capazes de fazer com que alcancem mais pessoas.

O Bem Viver que inspira essa perspectiva não começa conosco. Reconhecemos os caminhos construídos por mulheres negras e indígenas, povos e comunidades tradicionais e movimentos que há muito colocam a sustentação da vida, das relações coletivas e dos territórios no centro da política que praticam.

Experiências, saberes e cosmologias que partem de histórias, territórios e tradições distintas, mas que se encontram no enfrentamento à violência, ao racismo, ao patriarcado, à exploração econômica e às diferentes formas de colonialismo. Encontros que não apagam suas respectivas diferenças, trajetórias e autorias. 

Da radical imaginação política das mulheres negras, reafirmada por Ana Carolina Lourenço e Anielle Franco na obra de mesmo nome, à luta das mulheres indígenas por justiça, Bem Viver e pela continuidade da vida no planeta, expressa na Carta pela Vida e pelos Corpos-Territórios, da 1ª Conferência Nacional das Mulheres Indígenas, fortalece-se o projeto de sociedade que queremos construir: um projeto que rompa com a lógica da exploração econômica, do colonialismo e das relações de dependência que historicamente marcam nosso país. 

Queremos conhecer as candidaturas feministas de todo o país!

Como princípio, o Catarinas divulga candidaturas feministas alinhadas à política editorial do veículo. E desta vez, ampliaremos o mapeamento para candidaturas de todo o país. A mudança responde a uma demanda das leitoras do Catarinas e ao tempo histórico que vivemos.

Por isso, convidamos candidatas cis e trans de todo o Brasil a apresentarem suas propostas para a construção de um projeto de sociedade comprometido com o Bem Viver. 

O formulário é destinado a candidaturas alinhadas à política editorial do Catarinas: feministas, antirracistas, anticapacitistas, transafirmativas, comprometidas com os direitos LGBTQIAPN+ e com a defesa dos direitos humanos. As respostas podem ser enviadas até às 23h59 de 13 de setembro.

ACESSE E RESPONDA AO FORMULÁRIO

A partir das informações enviadas, o Catarinas publicará, em ordem alfabética, uma lista de candidaturas feministas, antirracistas e LGBTQIAPN+ inclusivas nas eleições de 2026.

As respostas também poderão subsidiar reportagens produzidas pelo veículo ao longo da cobertura eleitoral.

Imaginar juntas o Bem Viver

O Bem Viver nos ajuda a deslocar a lógica que mede o desenvolvimento pelo crescimento econômico, pela produtividade e pelo acúmulo. Em seu lugar, coloca no centro a justiça, a equidade, o cuidado, a coletividade e a relação com a natureza. 

E nos convoca a observar como riqueza, tempo, poder, cuidado, direitos e possibilidades de futuro estão distribuídos — e quem historicamente tem sido privado deles.

É nesse sentido que a Articulação de Mulheres Negras Brasileiras reafirma, no manifesto “Pacto do Bem Viver e as Eleições 2026”, que fazer política não é apenas gestão, é também imaginação.

Imaginar, nessa perspectiva, não significa escapar da realidade. Mas sim disputar seus limites. Recusar a ideia de que as únicas alternativas disponíveis são aquelas formuladas a partir de quem historicamente domina os espaços de decisão; e reconhecer conhecimentos, experiências e formas de organização que resistiram a séculos de violência. 

Foi também o que reafirmou a 2ª Marcha das Mulheres Negras, em 2025, que teve como compromisso a reparação e o Bem Viver, descrito como um farol em direção ao futuro que desejamos para todas as pessoas. 

“Do Bem Viver emerge um novo código sociopolítico em que a justiça, a equidade, a solidariedade e a vida digna são valores inegociáveis, consolidados pela pluralidade de vozes que coabitam o planeta”, destaca o manifesto da mobilização.

O Julho das Pretas deste ano deu continuidade a essa agenda, fortalecendo as reivindicações e os horizontes políticos apresentados na marcha. 

O Bem Viver também é central nas lutas das mulheres indígenas, como ressaltado na Carta dos Corpos-Territórios da IV Marcha das Mulheres Indígenas, que ocorreu no último ano. 

“O Bem-Viver precisa ser pensado para todos, por isso combatemos as injustiças, os privilégios e todos os mecanismos que geram a desigualdade e a degradação dos territórios. Combatemos o modelo de desenvolvimento que considera a terra e a natureza apenas como um insumo para a produção de mercadorias e o consumo. Nossa luta é por um mundo onde todos possam viver em paz, segurança e saúde”, diz a carta.

Jornalismo feminista e o Bem Viver

Nos últimos dez anos, o Catarinas acompanhou os impactos das desigualdades históricas que estruturam a sociedade brasileira. 

Contamos histórias de mulheres assassinadas, meninas impedidas de acessar direitos, mães sobrecarregadas pelo trabalho de cuidado, trabalhadoras sem garantia de uma vida digna, mulheres negras atingidas de forma desproporcional por diferentes violências, indígenas lutando pela existência de seus povos e territórios e pessoas LGBTQIAPN+ transformadas em alvo de projetos políticos.

Mas queremos avançar também sobre aquilo que pode ocupar o lugar do que denunciamos. Se sabemos identificar o mundo que não queremos, precisamos abrir espaço para conhecer e investigar as alternativas que apontam para outros modos de viver.

Muitas delas já estão sendo construídas. Estão em políticas públicas, pesquisas, experiências locais, movimentos sociais, tecnologias sociais, organizações comunitárias e conhecimentos produzidos por mulheres negras, indígenas, quilombolas, periféricas e outros grupos historicamente afastados dos espaços de decisão.

É justamente essa janela entre imaginar e tornar possível que queremos investigar.

Sabemos que as eleições não transformam um país sozinhas e que a democracia não começa nem termina nas urnas. Ainda assim, elas definem quem terá poder para decidir sobre orçamentos, criar ou extinguir políticas públicas, aprovar leis e estabelecer prioridades. São decisões capazes de aproximar determinados futuros e interditar outros.

Quando o Catarinas nasceu, em 2016, sua própria existência partia da convicção de que outro jornalismo era necessário e possível. Dez anos depois, queremos levar essa mesma convicção para a maneira como olhamos para o futuro.

Fazer do jornalismo um espaço para reconhecer os caminhos que já existem, apontar aqueles que ainda precisam ser construídos e tensionar as escolhas políticas capazes de aproximá-los.

Imaginar o Bem Viver é construir, no presente, as condições para torná-lo possível.

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