Em “trocar/tocar nossas línguas: trans/escrita, memória y registro”, a escritora, pesquisadora e tradutora Joanna Leoni articula memória, escrita e experiência travesti para refletir sobre as formas de registrar histórias e produzir conhecimento. O livro nasce de sua pesquisa de mestrado em Artes Visuais pela Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) e de uma prática artística iniciada ainda na graduação, quando passou a fotografar em Polaroid o próprio corpo e, posteriormente, pessoas trans próximas a ela. 

Desenvolvida em parceria com a (elle/elu) edições e traduções, a publicação foi contemplada pelo Prêmio Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura (2025), por meio da Fundação Catarinense de Cultura, e teve seu lançamento em 1° de agosto, em Florianópolis (SC).

Este é o terceiro livro assinado por Joanna, atualmente doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais (PPGAV) da Udesc. Ela também é autora de Livro das Dores (2023) e organizadora da coletânea Vozes não silenciadas: vivências LGBTQIA+ (2021). 

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Lançamento de “trocar/tocar nossas linguas: trans/escrita, memória y registro. Crédito: Leo Eslabão.

​A relação de Joanna com a escrita e a pesquisa se entrelaça à sua história pessoal. Filha de professora, esteve próxima da rotina escolar desde a infância, quando acompanhava a mãe em sala de aula. Essa proximidade fez com que a docência surgisse como um caminho natural no ensino superior. Já o interesse pelas artes visuais, intensificado no ensino médio, se expandiu durante a graduação em Artes Visuais, período em que também viveu sua transição de gênero.

Sua atuação no campo da cultura e da pesquisa inclui ainda a cofundação da Coletiva Trama, a coordenação do Faísca – Arquivo da Memória Trans de Santa Catarina e o trabalho de tradução no projeto Trav. 

​Em entrevista, Joanna Leoni detalha esses processos, aborda a concepção do novo livro e compartilha as vivências e inquietações que perpassam sua trajetória.

Joanna, como surgiu o interesse em trabalhar com a memória de corpos dissidentes no estado?

Passei por muitos conflitos na sala de aula com relação ao meu corpo, sobre ser uma travesti ocupando aquele lugar, em uma cidade pequena como Brusque. Foi um momento muito difícil e, por estar cursando uma licenciatura, decidi voltar minha pesquisa para esse campo: o corpo trans na sala de aula.

Ao mesmo tempo em que desenvolvia minha pesquisa em educação, também estava desenvolvendo minha prática artística, que começou na graduação e que dá origem ao livro. Foi uma série de fotografias em Polaroid.

Primeiro sobre o meu corpo e as mudanças pelas quais ele vinha passando. Depois, passei a registrar pessoas trans próximas a mim, principalmente quando comecei a conviver de perto com a violência. Quando pessoas trans que eu conhecia faleciam devido à violência, percebia que não havia registro delas. Eu não tinha fotos com aquelas pessoas e elas não tinham fotos para serem guardadas.

Entendi que era necessário criarmos esses registros com a mesma velocidade e urgência com que tiram as nossas vidas.

​Naquele momento, pensava a educação também como esse campo de possibilidade de sobrevivência para um corpo trans, seja para mim enquanto professora, seja para estudantes que estão lá dentro sofrendo violência por serem LGBT, sofrendo uma série de preconceitos e dificuldades de permanecer na escola. Eu fazia diferença tentando colocar o meu corpo lá, mas, ao mesmo tempo, lutando para que as pessoas que não concluíram os estudos pudessem, de alguma forma, também estar lá.

A prática artística era uma possibilidade para isso. Ela começou na licenciatura e depois virou meu projeto de mestrado, que é justamente o que vou chamar de “registro travesti”: esse registro rápido de pegar a máquina e fotografar.

​E havia também a escrita. Entendi que uma forma de recordar essas pessoas, histórias, memória e tudo o que tínhamos vivido para além do registro fotográfico, era através da escrita. Foi a partir daí que comecei.

Como se deu a concepção do livro e por quê o trocar/tocar a língua e a trans/escrita são termos tão importantes para você?

​O livro é a minha dissertação, que pensa justamente a fotografia e a escrita como formas de criar registro da nossa memória e da nossa história. Esse projeto, iniciado por volta de 2022, foi o primeiro passo para o que hoje é minha pesquisa de doutorado: o Arquivo da Memória Trans de Santa Catarina.

Começo a partir da minha memória, da minha história e das pessoas que passaram pela minha vida, agora expandindo para um campo estadual de memória, focado em pessoas trans acima de 50 anos que vivem ou viveram no estado.

​Gosto muito de uma autora, a Camila Sosa Villada, uma escritora travesti argentina. Foi através dela que li pela primeira vez esse termo: “trans/escrita”, com essa barra. Ela traz uma perspectiva que busco utilizar também: não se trata de criar novos gêneros literários ou acadêmicos, mas de utilizar tudo o que temos e podemos para criar algo novo, sem nos preocuparmos se vai ser um poema, um conto ou um artigo científico. São escritas.

​Acredito que a nossa escrita é justamente uma escrita travesti, uma trans/escrita. Primeiro porque somos pessoas trans, somos travestis, e não acho que tenhamos como distanciar nossa vida, nosso corpo e nossa identidade daquilo que escrevemos, falamos e fazemos. Gosto, como a própria Camila diz, da travesti quase como um verbo: “atravestir” como uma ação.

​Sobre “trocar/tocar”, penso que está muito relacionado à memória e também à forma como busco articular minha pesquisa acadêmica. Tocar e trocar porque acho que a memória também é língua.

Por falar em memória, ela é parte central dos seus trabalhos. Como ela se relaciona com a trans/escrita? 

​A memória é oral, mas também está na língua que nós, travestis, criamos para nos comunicar umas com as outras, transmitir nossos ensinamentos, o que também se dá pela boca, pela língua.

“Tocar a língua” é justamente esse gesto de acolher, de falar com quem é como a gente. Já “trocar”, entendo como um gesto de estar dentro da academia, esse espaço que, para nós, é bastante violento e difícil de se manter, e que possui uma linguagem muito específica e frequentemente excludente.

​Assim, entrar nesse espaço é tocar essa língua acadêmica, tão difícil de entender e habitar, aprender a utilizar essa ferramenta e, então, trocá-la. “Trocar essa língua” é injetar a nossa língua lá dentro, utilizar nossas palavras para permanecer nesse espaço e, contar nossas histórias.

É como uma tática, uma estratégia de sobrevivência: utilizar nosso conhecimento, nosso jeito de falar, de ensinar e de transmitir memória dentro de um espaço que muitas vezes não permite nossa presença nem nossos métodos. Trocar essa língua é quase como uma invasão. Estamos lá dentro articulando nossa passagem com muita estratégia, utilizando o conhecimento daquele espaço, mas, ao mesmo tempo, afirmando os nossos próprios conhecimentos.

​Tudo o que eu fizer vai ser travesti: uma pesquisa travesti, uma escrita travesti, um doutorado travesti.

​E a escrita é fundamental nisso: a forma como escrevemos, o que escrevemos e os temas que escolhemos. Para mim, tem sido muito importante a ideia de trans/escrita por que coloca nossa identidade na frente. Afinal, é isso o que chega antes: quando acesso a universidade, a primeira coisa que veem em mim é uma pessoa trans, uma travesti. Portanto, quero colocar a minha identidade na frente, junto com a minha escrita.

Como é produzir arte e abordar as pautas de gênero e sexualidade em Santa Catarina, um estado frequentemente associado ao conservadorismo? Você já enfrentou episódios de censura ou retaliação pelo seu trabalho?

​Às vezes, acho até difícil conseguir sair do estado profissionalmente, porque existe essa ideia do Sul como esse lugar fascista e de violência. No meu trabalho, luto por uma outra imagem: a de uma Santa Catarina que também é resistência.

Entre 2018 e 2022, principalmente durante a pandemia, vivemos no estado uma série de censuras. A primeira foi ao Criança Viada Show, em Itajaí, projeto de lives que teve repercussão nacional e gerou um longo processo. Foi um período de muitos ataques que abriram margem para diversas outras censuras.

​Depois vivenciei uma censura a um projeto meu, a exposição Vivência Queer: Corpo, Gênero e Sexualidade, aprovada em um edital municipal de Brusque. Recebi ataques pessoais na Câmara de Vereadores, onde citavam meu nome e diziam que eu estava promovendo pornografia com recursos públicos. Não havia sequer fotografias com nudez no projeto. 

Recebi ataques pessoais direcionados ao meu nome na Câmara de Vereadores, onde citavam meu nome e diziam que eu estava promovendo pornografia com recursos públicos. Não havia nada disso no projeto. Não tínhamos foto alguma com nudez, um cuidado prévio que tomei, pois já estávamos utilizando fotografias de pessoas dissidentes da cidade.

​Depois, descobri que tudo foi alimentado por uma fake news. Uma revista pornográfica de São Paulo, sem qualquer relação comigo, estava sendo divulgada como se fosse o projeto aprovado. Como trazia a palavra queer, viram um nome parecido e inventaram que era o meu projeto.

No mesmo ano, também em Brusque, houve outro ataque, desta vez ao artista e educador Douglas Leoni. Ele desenvolve um projeto lindo de pintura chamado Povo de Dentro, no qual faz murais urbanos. Ele possuía cartas de anuência para pintar em escolas, mas certo dia, enquanto pintava sozinho em um dos locais, a polícia o abordou e quase o prendeu sob a acusação de vandalismo, mesmo ele estando com toda a documentação em mãos.

​Isso se desdobrou em outros ataques lgbtfóbicos. Obras dele foram apagadas pela Fundação Cultural de Brusque, um gesto explícito de censura.

​Hoje, sinto que vivemos isso de forma menos explícita, mas converso com pessoas da comunidade LGBTQIA+ que produzem cultura e todas relatam a dificuldade de aprovar projetos que abordem abertamente gênero e sexualidade.

Há poucas políticas culturais voltadas para populações marginalizadas, e a própria palavra “gênero” causa muito receio no estado. Tem sido bastante difícil, mas buscamos estratégias para viabilizar esses trabalhos.

​Também é difícil conseguir apoio institucional. Sou da Udesc, e a universidade, especialmente agora, vive um momento delicado no debate sobre a política de ações afirmativas, recebendo constantes ataques de setores de direita. Muitas vezes, para se protegerem, as instituições deixam de proteger e apoiar seus próprios estudantes, o que piora em períodos eleitorais.

​Vivemos isso inclusive dentro do Ceart (Centro de Artes da Udesc). O centro está sendo denunciado ao Ministério Público por estudantes ligados ao Partido Novo por ter grafites em suas paredes, como se um centro de artes, que possui disciplinas de pintura e arte urbana, não pudesse ter intervenções artísticas em suas estruturas. É esse o cenário que enfrentamos hoje.

Falando agora sobre avanços, você consegue mensurar a contribuição do seu trabalho para a memória de pessoas queer em Santa Catarina? Como tem sido a resposta das pessoas à sua produção? 

Em relação ao livro, especificamente, foi um movimento que eu não esperava. Os exemplares esgotaram no próprio lançamento, e houve uma presença enorme de público, algo que jamais imaginei. ​Ver um grande número de pessoas trans lá me alegrou muito, porque acredito que é, em grande medida, para nós que tenho escrito.

​Mas vejo que o trabalho para além do livro, o projeto do Faísca – Arquivo da Memória Trans de Santa Catarina, tem chegado ainda mais longe e recebido muito apoio. Acredito que estamos vivendo um momento da história LGBTQIA+ em que a preocupação com a memória tornou-se central.

​Para quem é LGBT em Santa Catarina, saber que temos memória, história e resistência tem funcionado quase como um refúgio.

Poder entender, a partir desse arquivo e da divulgação que venho fazendo dele, que há muita luta e resistência protagonizadas por pessoas trans neste estado, desde as décadas de 1980 e 1990, é extremamente importante.

​Tem sido um movimento muito bonito. Fico muito feliz e emocionada ao ver o alcance que o arquivo está conquistando. Sempre digo que o nome do nosso projeto é “Faísca” e espero que tanto o livro quanto a minha pesquisa e este arquivo sejam justamente isso: uma faísca, apenas o começo. O que conseguimos alcançar enquanto arquivo até agora ainda é pouco diante de tudo o que pode ser feito.

​Espero que, coletivamente, as pessoas que se sentirem tocadas pelo livro ou pelo arquivo possam dar continuidade a esse processo. Desejo que tudo o que venho construindo sirva como pontapé inicial para que outras pessoas se sintam encorajadas a pesquisar sobre suas próprias memórias e sobre a história de resistência do nosso estado ou de onde quer que vivam.

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  • ariele-lima

    Natural de Juazeiro, sertão baiano. Estudante de Jornalismo em Multimeios pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), c...

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