Por trás das coroas, dos vestidos e dos castelos encantados, os contos de fadas guardam mensagens que vão além do mito do amor romântico. No livro Para Além dos Contos de Fadas: Princesas e Gênero sob o Olhar de Adolescentes, da Editora Appris, a psicóloga Carla Mikulski investiga como as princesas da Disney, referências nesse universo, ainda impactam a forma como papéis de gênero são percebidos. 

Para desenvolver a pesquisa, Carla elaborou um experimento inspirado nos reacts, formato de vídeo popular nas redes sociais. As adolescentes, de 14 a 17 anos, foram convidadas a assistir a diferentes filmes das princesas da Disney e a comentar livremente suas impressões durante a exibição. 

As sessões combinaram momentos de reação espontânea e outros conduzidos pela pesquisadora, que propunha reflexões a partir das cenas assistidas. A diversidade de perfis entre as participantes — em idade, contexto social e relação com o universo das princesas — possibilitou análises mais amplas sobre como essas narrativas ainda influenciam a construção de gênero na adolescência.

Nos encontros, a psicóloga observou que, mesmo aquelas que são críticas e conscientes das questões de gênero, podem absorver mensagens mais tradicionais das princesas. 

Um exemplo foi o da participante mais velha, que refletiu sobre os contos originais e trouxe discussões sobre consentimento e a submissão feminina nas histórias, mas ainda relativizou situações problemáticas, como o relacionamento entre Bela e a Fera. 

“Ela disse que o amor entre os dois cresceu, e reproduziu a narrativa de “ele vai mudar”, “ela o transformou”. Isso mostra como essas mensagens são sorrateiras, mesmo uma menina crítica pode naturalizar certas ideias. Todas nós estamos sujeitas a deixar algo passar no filtro, por mais críticas que sejamos. E essa é a força do patriarcado, que se infiltra de forma sutil nas produções infantis ”, aponta a psicóloga

Carla Mikulski é mestra em Psicologia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental, Terapia do Esquema e Psicologia Positiva. Sua trajetória une clínica e pesquisa, com foco em cultura, gênero e desenvolvimento humano. Além disso, ela integra o Grupo de Trabalho Relações de Gênero e Psicologia do Conselho Regional de Psicologia da Bahia (CRP-03). O livro Para Além dos Contos de Fadas é fruto de sua dissertação de mestrado. Confira a entrevista:

Mesmo com personagens mais diversas e independentes, as princesas ainda fazem parte de uma grande engrenagem de consumo. Como você enxerga o papel do mercado na produção dessas narrativas? É possível pensar em uma transformação real dentro de uma lógica capitalista?

É claro que as primeiras animações recebem críticas mais evidentes, é fácil concordar com elas. Mas mesmo as produções mais recentes não estão livres de reproduzir papéis e estereótipos. Elas continuam sendo tecnologias a favor da manutenção dessas ideias.

Às vezes, a gente olha para uma animação e pensa: “Ah, essa é mais progressista, mais independente”. Mas, quando analisamos com cuidado, seja em relação à autonomia das personagens, à representatividade ou à pluralidade das princesas, percebemos que não é bem assim. Um exemplo é a Tiana, primeira princesa negra [da Disney]. À primeira vista, parece um avanço. Mas, quando olhamos de perto e vimos as pesquisas, há muitas questões problemáticas.

Algo que me impressionou foi perceber que ela passa a maior parte do tempo de tela como um sapo. É simbólico. E o tipo de trabalho atribuído a ela — cozinheira em um restaurante — também traz um peso. Claro, trabalhar tem valor, mas a escolha desse tipo de trabalho para a primeira princesa negra não é neutra. Além disso, há críticas à representação de Nova Orleans [Estados Unidos] e da religião local, pois o olhar retratado não é o da própria comunidade.

Algo semelhante acontece com Moana. À primeira vista, parece super diferente: Oceania, aventura, sem príncipe. Mas há uma crítica forte e que me fez pensar muito, até porque sou de Salvador (BA). É como quando a gente, do nordeste, assiste a novelas do sudeste e percebe que não há atores nordestinos, apenas pessoas forçando sotaques.

Essas mudanças nas princesas, na verdade, acompanham as transformações do próprio mercado. Quando traço um paralelo com o movimento feminista, percebo que essa “evolução” não foi espontânea, mas uma resposta comercial — uma adequação àquilo que o público já não aceitava mais. O estúdio percebeu que precisava se atualizar para continuar sendo consumido.

Então, sim, houve mudança, mas não necessariamente por um desejo genuíno de empoderar meninas ou promover diversidade. Foi uma resposta às pressões sociais e de mercado.

Hoje observamos o crescimento de discursos antifeministas e conservadores, como o movimento das tradwifes nas redes sociais. Como você avalia esse cenário e o que ele revela sobre as transformações (ou retrocessos) nas percepções de gênero entre as jovens?

Uma característica importante da pesquisa é que, por ser qualitativa e de profundidade, o número de participantes não foi muito grande. Essa é uma das limitações que reconheço no trabalho. Eu gostaria de ter conversado com mais meninas, justamente para alcançar uma diversidade maior de perfis e vivências. Por exemplo, eu gostaria de ter incluído uma participante que tivesse estudado em uma das chamadas “escolas de princesas”, que oferecem aulas de maquiagem, etiqueta e comportamento voltadas para meninas. 

Quando penso nesse tipo de instituição e também em fenômenos atuais como o das tradwifes, vejo discursos muito diferentes entre si. Algumas realmente reforçam esses papéis tradicionais, com vídeos de mulheres acordando às quatro da manhã para fazer o próprio pão e preparar o café da manhã da família. Outras, no entanto, parecem confundir as coisas. Quando dizem “não quero trabalhar, quero cuidar da casa, quero ser feminina”, acabam criticando o feminismo, quando na verdade estão falando do capitalismo. Creio que para elas falte clareza sobre o que o movimento feminista de fato propõe.

O que me chama a atenção é que muitas dessas mulheres têm a possibilidade de ocupar um espaço público, de se expressar, e nem percebem que esse espaço foi conquistado justamente pelas lutas feministas. É um paradoxo.

Isso me remete muito a O Conto da Aia, especialmente à personagem Serena. Ela ajudou a instaurar um regime extremamente machista e, ao mesmo tempo, sofria por não ter o espaço que desejava dentro dele. É mais ou menos isso que acontece quando mulheres defendem um modelo que restringe seus próprios direitos, sem perceber o quanto estão abrindo mão de conquistas históricas.

Vejo esse movimento com preocupação. O contexto de polarização faz com que muitas pessoas reajam de forma automática a certas palavras — “feminismo”, por exemplo — sem se interessar em entender o que realmente significam. Essa falta de compreensão leva à reprodução de equívocos e reforça preconceitos. Além disso, muitas dessas influenciadoras vivem em condições socioeconômicas privilegiadas, o que distorce ainda mais a percepção de realidade. As redes sociais mostram só o recorte que se quer mostrar, a vida idealizada, e não os bastidores.

Que estratégias práticas você recomenda para lidar com essas narrativas no cotidiano de casa e da escola? 

As discussões que apresento no livro envolvem um público infantojuvenil e, nessa faixa etária, o consumo de conteúdos midiáticos é inevitável. O que faz diferença é o tipo de mediação que se estabelece em casa e na escola.

Uma das participantes mais novas, por exemplo, adora princesas, mas vive em um ambiente familiar que acolhe o diálogo e questiona os estereótipos presentes nessas narrativas. Então, em vez de proibir, o mais importante é assistir junto, conversar, problematizar. Dizer “não assista” nunca funcionou. Quem já foi adolescente sabe que a proibição só desperta mais curiosidade. O ideal é construir uma relação de parceria, de confiança, para que as crianças e adolescentes se sintam à vontade para falar sobre o que veem e ouvem.

Por isso, sempre que posso, incentivo pais, mães e responsáveis a assistirem aos conteúdos com os filhos e discutirem o que está sendo mostrado. O acesso à internet é inevitável, mas ele precisa ser acompanhado. Criar um ambiente familiar saudável, em que os jovens possam trazer dúvidas e reflexões, é essencial,  especialmente diante de tudo que circula nas redes, muitas vezes sem qualquer filtro.

E o que você espera que os leitores levem do livro Para Além dos Contos de Fadas?

Embora o livro tenha como ponto de partida o universo das princesas, ele não é voltado apenas para as  crianças. Meu público principal são os adultos, pais, educadores, psicólogos, profissionais que trabalham com infância e adolescência. A proposta é justamente provocar uma reflexão sobre o papel que cada um de nós tem na reprodução de estereótipos de gênero.

Uma professora que leu o livro me contou que precisou fazer uma pausa na leitura porque se sentiu culpada. Ela percebeu que, em sua prática, havia reforçado certos padrões sem se dar conta. Eu disse a ela que a intenção  não é gerar culpa, mas consciência.

A ideia é mostrar que essas questões são estruturais, não no sentido de isentar a responsabilidade individual, mas de compreender que todos fazemos parte de uma engrenagem social que reforça certas desigualdades. O importante é perceber isso e agir de outro modo.

As princesas foram o ponto de partida da pesquisa, o pretexto para as conversas com as participantes. Mas o livro, como o próprio título diz, vai  além dos contos de fadas. Ele convida a refletir sobre o desenvolvimento das meninas, as mensagens presentes nas produções culturais e as transformações, ou a falta delas na forma como representamos o feminino. 

Mais do que analisar os filmes, o foco está nas próprias adolescentes: nas suas vozes, nas suas experiências e no modo como elas percebem o mundo em que estão crescendo. Se esse trabalho conseguir contribuir, ainda que um pouquinho, para ampliar esse olhar crítico, já cumpri o meu papel.

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  • ariele-lima

    Natural de Juazeiro, sertão baiano. Estudante de Jornalismo em Multimeios pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), c...

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