A filósofa, escritora e uma das intelectuais feministas mais reconhecidas do país, Marcia Tiburi volta-se, em seu novo livro Ninfa Morta: uma história de ódio às mulheres (Editora Planeta), para uma imagem que atravessa séculos da cultura ocidental: a da mulher morta transformada em objeto de contemplação, desejo e idealização. A partir de uma figura mágica, associada à juventude, à beleza e à erotização do corpo feminino, e inspirada por personagens emblemáticas como Branca de Neve e Ofélia, a autora investiga como a romantização da morte feminina se tornou um dos pilares simbólicos da misoginia

Resultado de mais de duas décadas de pesquisa em filosofia, arte e crítica feminista, a obra propõe uma reflexão sobre aquilo que Marcia identifica como um “culto da mulher morta” presente na literatura, nas artes visuais e no imaginário social. Para a autora, essa fascinação estética está longe de ser inofensiva. Trata-se de um mecanismo sofisticado que contribui para naturalizar a violência contra as mulheres e obscurecer suas raízes políticas.

Ela conecta essa fascinação ao avanço de grupos masculinistas, ao crescimento de discursos antifeministas nas redes sociais e à persistência de estruturas patriarcais que associam o ideal feminino à passividade, ao silêncio e à submissão. Com isso, o livro dialoga com debates sobre feminicídio, violência de gênero e os limites da cidadania das mulheres em sociedades marcadas pela desigualdade.

Ao revisitar figuras clássicas e fenômenos atuais da cultura digital, Marcia argumenta que a imagem da “ninfa morta” continua sendo atualizada e reproduzida, seja em narrativas literárias, produções audiovisuais ou tendências estéticas disseminadas online. Em contraponto, defende a construção de uma filosofia política feminista capaz de enfrentar a naturalização da violência e transformar a condição de vulnerabilidade das mulheres em resistência coletiva.

No dia 11 de junho, a autora esteve em Florianópolis (SC) para o lançamento do livro na Associação Cultural Baiacu de Alguém, no bairro histórico de São Antônio de Lisboa. A programação incluiu uma roda de conversa com as vereadoras Carla Ayres (PT) e Ingrid Sateré Mawé (PSOL) e a filósofa Janyne Sattler, com mediação de Alline Goulart, presidente do Instituto Cória. 

Da esquerda para a direita: Carla Ayres, Marcia Tiburi e Ingrid Sateré Mawé | Crédito: @guilherme_santos.

Em entrevista ao Catarinas, ela fala sobre as origens da obra, as conexões entre misoginia e fascismo, o fenômeno das tradwives e os desafios de pensar o feminismo como uma proposta de sobrevivência diante do avanço da violência de gênero. Confira. 

Você define “Ninfa Morta” como fruto de duas décadas de reflexão sobre a misoginia. Como surgiu a ideia do livro e o que a levou a escolher a figura da ninfa como fio condutor dessa história?

Como todas as meninas da minha geração, eu lia contos de fadas. De todos eles, o que mais me intrigava era a imagem da Branca de Neve morta dentro de um caixão de vidro sendo observada pelos anões e salva por um príncipe que teve a coragem de beijar uma morta.

Sempre me perguntei por que aquela jovem precisava ser velada dentro de um caixão de vidro. Percebi ali que os anões se dedicavam a contemplá-la e que a sua morte não devia ser considerada terrível, mas bela. Eu também achava injusto aquela menina ter que fugir da madrasta e do caçador e acabar tendo que limpar a casa de uns anões que viviam em bando para sobreviver. Ela estava sempre sendo perseguida, lançada em armadilhas e privada de liberdade. 

Nos anos 2000, eu havia organizado um congresso chamado “As Mulheres e a Filosofia” quando não se falava em feminismo no Brasil, muito menos na filosofia que era o meu campo. Meu trabalho envolveu analisar a misoginia dos textos da tradição ocidental, mas na sequência fui a um congresso sobre Filosofia do Direito na Espanha para apresentar uma leitura biopolítica da Branca de Neve, depois fiz um pós-doutorado em Artes, com a historiadora Cláudia Mattos da Unicamp [Universidade Estadual de Campinas], pelo qual analisei figuras tais como Ofélia, Diadorim e a Gradiva de Jensen. São personagens muito conhecidas, escolhidas tanto por motivos teóricos quanto por sua recepção no cenário contemporâneo. 

Sempre estive interessada no culto histórico da mulher morta, no fascínio explícito que há por ela na literatura e nas artes visuais, desde as tragédias gregas até o cinema contemporâneo, justamente por que não se via o mesmo culto à morte em relação aos homens. Na pesquisa, fui encontrando coisas perturbadoras, como a fórmula de garantia de sucesso estético apresentada por Edgar Allan Poe: “A morte de uma mulher bela é, sem sombra de dúvida, o tema mais poético do mundo.” Busquei entender a repetição desse motivo e suas consequências práticas. 

A meu ver, o culto da mulher morta justifica a morte simbólica, mas também física das mulheres.

A idealização é dialética: uma ideia, uma imagem, orienta a produção da realidade, mas, sobretudo, acoberta o terror. Em termos simples, com a fetichização da mulher morta, a matança de mulheres e a crueldade deixam de ser percebidas como um problema. Fica mais fácil naturalizar – e normalizar – depois que algo é idealizado.

É bem difícil explicar para as pessoas que a imagem da mulher morta é parte de um culto, que o sistema patriarcal é uma espécie de religião sacrificial, tanto no seu patamar simbólico quanto no seu plano concreto. É uma tese que assusta. Também é difícil explicar que há um elo entre a produção simbólica — isto é, a cultura e a linguagem — e as práticas de extermínio de mulheres que sempre existiram e se intensificam de tempos em tempos como reação das castas privilegiadas à sublevação dos corpos subalternizados. Essa complexidade da explicação é necessária e, ao mesmo tempo, apavorante. É um desafio tanto epistemológico quanto moral. 

Em um resumo, a gente teria que dizer apenas que todas estamos condenadas à morte e que para escapar dela temos que lutar muito para que os direitos das mulheres sejam reconhecidos como humanos, considerando que historicamente as mulheres foram tratadas como animais. Daí que ser feminista (ou seja, promover consciência sobre a condição feminina) implique ser antiespecista e muito mais. 

No entanto, construir todos esses nexos tornou-se mais difícil na era do brain rot, o “cérebro apodrecido”. Por isso, muitas pessoas deixam de perceber os marcadores de opressão sobre os próprios corpos. Há mulheres que defendem seus opressores e algozes, assim como há pessoas pobres que defendem bilionários, em um cenário atravessado pela dificuldade crescente de reflexão crítica. 

Vivemos sob véus ideológicos e a própria ignorância não é apenas uma condição, mas uma ideologia, ou até mesmo uma tecnologia política fomentada pelos grupos que têm interesse no poder.

Por fim, o que procurei mostrar no livro é que essa adoração das mortas, esse fetiche, encobre o que os homens realmente desejam das mulheres: sua servidão e sua anulação em nome dessa servidão. Isso requer a ignorância das mulheres.

A romantização da mulher morta reflete uma dinâmica profunda de dominação patriarcal, na qual o corpo feminino atinge seu ideal estético e moral apenas quando desprovido de agência, voz e resistência. Na literatura e nas artes, a figura dessa mulher sem vida é frequentemente erotizada e idealizada, revelando que o desejo masculino, em um viés misógino, vincula-se ao controle absoluto: um corpo inerte não impõe limites, não recusa, não diz não. Ele se torna a tela perfeita para projeções e fantasias masculinas. 

A autonomia das mulheres vivas é vista pelos homens como uma ameaça à sua virilidade e poder, analisei Antígona para falar sobre isso. Essa fascinação histórica legitima a opressão ao associar a passividade extrema à beleza e à pureza, mascarando a violência letal de gênero sob o manto do sublime e revelando que, na estrutura patriarcal, o controle definitivo sobre os corpos femininos culmina em seu silenciamento absoluto.

Quais referências da cultura pop contemporânea ajudaram a construir sua reflexão sobre a ninfa morta e os estereótipos femininos? Há personagens, filmes, séries ou fenômenos culturais que dialogam diretamente com o livro?

As referências que conectam Branca de Neve, Lady Gaga e a estética da Ofélia morta nas águas que vemos por todo lado na internet articulam, a meu ver, a evolução do mito da “ninfa morta”. [O álbum] The Life of a Showgirl, da Taylor Swift, foi lançado na mesma época que o meu livro. O filme Melancolia, de Lars von Trier, também traz uma cena em que Kirsten Dunst está vestida de noiva dentro das águas, rodeada de uma vegetação alusiva à peça de Shakespeare. A estética da mulher morta como fórmula de sucesso continua reativando a tese de Poe.

No caso do livro, preciso voltar à figura da Branca de Neve porque ela introduz o estereótipo clássico da passividade feminina, em que o ápice da beleza e da pureza da princesa é alcançado justamente quando ela está em um sono semelhante à morte, exposta em um caixão de vidro sob o olhar masculino. Esse ideal de fragilidade mórbida é reproduzido contemporaneamente nas redes sociais por meio de fotografias de jovens que imitam a morte de Ofélia, flutuando na água. O fenômeno transforma o sofrimento e a melancolia feminina em um produto estético e altamente “instagramável”. 

Por outro lado, o pop disruptivo de Lady Gaga — especialmente na era The Fame Monster e em clipes como Paparazzi — subverte essa lógica de maneira ácida. Gaga encena a própria morte, a violência e o corpo vulnerável não para gerar compaixão pacífica, mas como uma crítica agressiva ao voyeurismo da mídia e à espetacularização do sacrifício feminino. No livro, essas referências dialogam diretamente ao expor como a cultura ora romantiza a letargia das mulheres, ora as transforma em performance de denúncia e resistência.

Movimentos que exaltam a mulher como dona de casa obediente e defensora de valores antifeministas sempre existiram, mas tem ganhado visibilidade nas redes sociais, especialmente entre o público jovem. Como você interpreta esse fenômeno à luz das reflexões apresentadas no seu livro?

O fenômeno das tradwives (esposas tradicionais) nas redes sociais reflete uma atualização estética do mito da submissão feminina. À luz de Ninfa Morta, essa exaltação da dona de casa obediente funciona como uma romantização da passividade, na qual o apagamento da agência política da mulher é vendido como um ideal de pureza, segurança e ordem. Para o público jovem, o algoritmo transforma o antifeminismo em um produto visualmente impecável, nostálgico e palatável, mascarando estruturas profundas de dominação patriarcal sob o véu de uma escolha de estilo de vida. 

Essa performance de docilidade e letargia social dialoga diretamente com o conceito do livro: o patriarcado continua fascinado pela imagem da mulher que abre mão de sua própria voz.

No fundo, o extremismo contemporâneo capta o desejo por estabilidade em tempos de crise e o canaliza para a reiteração de estereótipos rígidos, demonstrando que a domesticação da subjetividade feminina ainda é uma peça-chave para a manutenção do poder conservador.

Lançamento da obra “Ninfa Morta” em Florianópolis (SC) | Crédito: @guilherme_santos.

Li uma fala sua em que você afirma que o livro busca contribuir para uma ontologia e uma filosofia política feminista capazes de enfrentar o avanço do extremismo e do feminicídio. De que maneira Ninfa Morta contribui para compreender esse cenário?

O conceito da “Ninfa Morta” visa mostrar que a violência letal contra as mulheres não é um fato isolado, mas o ápice de uma construção estética e política que historicamente desumaniza o corpo feminino através de sua coisificação. Busquei propor uma ontologia feminista contra uma “misontologia” patriarcal. Queria mostrar como o patriarcado produz o ser-mulher em uma sociedade que incita a sua destruição, mostrando que o avanço do extremismo político masculinista se alimenta da manutenção de papéis rígidos e submissos. 

Busquei discutir com algumas grandes teses da filosofia política tradicional, tal como o clássico contratualista de que os “homens” abdicam de sua liberdade em troca de proteção contra a morte violenta, de tal modo que eles perdem o medo na vida civil. A minha tese é que isso nunca valeu para as mulheres que nunca foram incluídas no universal “Homem” senão como suas próteses. O medo acaba por ser uma condição constitutiva da vida das mulheres mesmo enquanto próteses masculinas. Vivendo sob um regime de “ameaçabilidade” eterna, as mulheres buscam sobreviver cuidando, enquanto os homens praticam todo tipo de violência e destruição para a qual estão autorizados.

Assim, busquei desmascarar os mecanismos culturais que transformam o feminicídio em algo naturalizado ou espetacularizado pelo olhar patriarcal. A imagem da “ninfa morta” permite decodificar o funcionamento ideológico do extremismo masculinista contemporâneo, que reitera o controle sobre os corpos, através de um olhar sobre os corpos, como exercício de poder. 

Minha esperança é que o livro ofereça subsídios teóricos para desarmar essa engrenagem violenta, transformando a melancolia das vítimas em agência e resistência política organizada, saindo da vitimização e da revitimização através da luta e da liberdade pessoal.

Depois de anos refletindo sobre fascismo, misoginia e violência simbólica, o que a literatura lhe permitiu elaborar ou compreender de maneira diferente?

Eu tenho escrito artigos sobre a relação entre machismo e fascismo já faz um tempo. Num livro de 2020 chamado “Como derrotar o Turbotecnomachonazifascismo” (Editora Record), busquei mostrar que o “macho limítrofe” que costuma ostentar a violência numa estética miliciana representa a forma atual da estética fascista. Alguns personagens do MBL, o Arthur do Val falando das Ucranianas, aquele deputado cassado e preso [Daniel Silveira] que quebrou a placa com o nome de Marielle Franco, o próprio Bolsonaro ameaçando Maria do Rosario ou falando como um pedófilo sobre meninas de 13 anos, são exemplos.  

Esse elo entre violência machista e fascismo precisa ser evidenciado. Estamos falando de uma violência decorativa que é usada como tecnologia política para causar efeitos de poder — aliás, venho escrevendo sobre o “ridículo político” desde 2017. Algo que me importa hoje é justamente compreender o machismo como uma tecnologia política. Os homens vivem da violência para se manter no lugar do privilégio. 

Recentemente, escrevi para um livro coletivo que será publicado na França sobre o grotesco na política, no qual tratei justamente do uso dessa retórica sexual para provocar pavor, além das práticas violentas do terrorismo masculinista. Na contramão, o nexo entre machismo e fascismo se opõe ao nexo entre esquerda e feminismo. 

Tenho escrito e falado constantemente sobre a transformação da esquerda em luta por democracia radical (a articulação da luta feminista, do movimento negro e do movimento LGBTQIAPN+ com a luta de classes que fica cada vez mais evidente em pessoas como Jean Wyllys, Rick Azevedo e Erika Hilton, para dar alguns exemplos mais em voga). Essa evolução da esquerda é um assunto complexo, mas é um fato que a perseguição aos “comunistas” obedece à lógica da caça às bruxas e, mais uma vez, as “bruxas” são esses grupos chamados de identitários, como se o “homem branco” que os ataca não fosse uma identidade altamente identitária, para usar um pleonasmo de efeito retórico.

Lançamento da obra “Ninfa Morta” em Florianópolis (SC) | Crédito: @guilherme_santos.

E, ao fechar o livro, qual é a principal inquietação que você espera deixar para as leitoras?  Ou se a intenção for despertar outro sentimento, fique à vontade para discorrer sobre. 

Ninfa Morta é a teoria que está por trás de um romance que publiquei em 2023 chamado “Com os Sapatos Aniquilados Helena Avança na Neve” (Editora Nós). É sobre a saga de uma garota que vê seu pai matar sua mãe. Minha heroína cresce e se torna uma assassina. Seu destino é matar. Eu queria provocar uma reflexão com aquele livro, a saber, como seria o mundo se as mulheres fossem violentas com os homens? 

Evidentemente, parto do princípio de que mulheres praticam uma quantidade ínfima de violência perto das estatísticas da violência masculina. Mas se o jogo se invertesse? Se os homens tivessem que viver sob o domínio do medo? Não tenho resposta para isso. Contudo, achei válido colocar a questão de uma maneira menos idealista e mais provocativa na intenção de promover consciência. Para mim, tudo sempre passa por falar abertamente sobre temas difíceis e, assim, promover diálogos que só podem acontecer se falamos a verdade. 

APOIE O JORNALISMO INDEPENDENTE


Fazer uma matéria como essa exige muito tempo e dinheiro, por isso precisamos da sua contribuição para continuar oferecendo serviço de informação de acesso aberto e gratuito. Apoie o Catarinas hoje a realizar o que fazemos todos os dias!

CONTRIBUA COM QUALQUER VALOR NO PIX
  • Kelly Ribeiro

    Jornalista e assistente de roteiro, com experiência em cobertura de temas relacionados a cultura, gênero e raça. Pós-gra...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Últimas