A comédia fantástica Espectro dos desejos (e outras histórias) realizou suas filmagens em junho, em Florianópolis (SC), tendo a capital catarinense como cenário e inspiração para a narrativa. A trama aborda o encontro entre uma jovem lésbica que busca ser escritora, mas enfrenta bloqueios criativos e sexuais, e o fantasma de uma outra escritora lésbica que retorna ao mundo dos vivos com o objetivo de se divertir.

O longa-metragem é o primeiro das diretoras Lara Koer e Viviane Mayumi e está sendo realizado por uma equipe majoritariamente composta por mulheres e pessoas LGBTQIAPN+, que ocupam todos os cargos de chefia nas áreas criativas.

Lara, que também assina o roteiro, conta que a ideia para o filme partiu do desejo de produzir uma comédia que ela própria gostasse de assistir. Fã do gênero, a diretora afirma que sentia falta de narrativas LGBTQIAPN+ abordadas numa perspectiva lúdica:

“Nós queríamos abordar isso de um jeito que fosse besta e divertido também. É claro, quando a gente está falando de grupos que são postos à margem da sociedade, sempre temos que falar sobre coisas sérias. Mas a nossa existência é múltipla, também é de muita diversão, é de amizade, é das famílias que a gente constrói e dos amores que a gente vive”, destaca.

Espectro dos desejos: Comédia fantástica lésbica tem Florianópolis como cenário
Da esquerda para a direita: Viviane Mayumi e Lara Koer. Crédito: Matheus Trindade

A codiretora explica que o erotismo é inserido no filme como força motriz da narrativa e também das próprias vidas das realizadoras, funcionando como um caminho de criação. Em um contexto em que a apatia seria estimulada, Lara afirma que a energia erótica representa o “fogo necessário” para romper, inventar, criar e agir de forma diferente.

A escolha de Florianópolis como cenário veio por vínculos pessoais e profissionais com a cidade. Lara e Viviane cursaram a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e construíram sua trajetória audiovisual na cidade. Ao Catarinas, Lara destaca que a capital catarinense é palco de múltiplas histórias, e a realização de mais produções audiovisuais no local amplia a diversidade de vivências retratadas na tela, indo além das figurações habituais do cinema.

Ela conta que a equipe aprendeu, com outras referências, que é possível fazer cinema de uma forma diferente, mais respeitosa com aspectos de gênero, sexualidade, raça e classe, e que esse modelo pode se tornar um movimento contínuo.

“Isso também forma as pessoas que passam por esse set para que elas lutem por sets assim em outros espaços”, acrescenta. 

Para Lara, a transformação se dá por meio de redes e comunidades de apoio. Ela reconhece que a violência não desaparece, mas avalia que a criação de uma comunidade solidária fortalece os profissionais diante de situações adversas. 

Gravações externas em Florianópolis. Crédito: Matheus Trindade.

Lara destaca ainda que o longa aborda uma disputa territorial diretamente relacionada a Florianópolis, em especial à memória do Centro Leste como espaço de ocupação e sociabilidade LGBTQIAPN+. A codiretora observa que, com o avanço da gentrificação, um mesmo movimento tende a se repetir: espaços de festa da comunidade, inicialmente criminalizados ou marginalizados, se tornam eventos “hypados” e, aos poucos, são ocupados por públicos heterossexuais, descaracterizando o ambiente original que era de pertencimento.

Produção reúne elenco local e amplia narrativas no audiovisual

Além da conexão das diretoras com a cidade, o elenco também é repleto de atrizes locais. Gaia Colzani, atriz e produtora cultural que integra a trama, classifica o filme como “revolucionário”:

“Ele é um filme inédito, e eu não diria que somente dentro da cena de Florianópolis, eu ousaria dizer mais: dentro da cena cultural nacional. A gente vem falando sobre mulheres que se relacionam com mulheres dentro de uma outra perspectiva”, afirma.

Para ela, a obra carrega um “desejo muito puro” e provoca reflexões profundas que outros filmes não haviam despertado.

Da esquerda para a direita: Letícia Letrux, Ademara e Gaia Colzani. Crédito: Matheus Trindade

Geruza Bandeira, também atriz do longa, participa de seu primeiro filme e descreveu a experiência como marcante. “Esse filme participa desse movimento de ampliação das narrativas, dos espaços de criação”, avalia. Ela ressalta que a escolha das histórias e das pessoas reunidas no projeto traz à produção um simbolismo ainda maior.

“O set de filmagem tem sido marcado pelo cuidado, escuta e troca constantes. Isso impacta diretamente no nosso processo criativo, porque a gente vai se sentindo segura para experimentar, para arriscar, para propor”, conta. Segundo Geruza, a composição majoritariamente feminina e LGBTQIAPN+ é um elemento muito importante na construção desse espaço de acolhimento.

Geruza Bandeira. Crédito: Matheus Trindade

“Ver um set com tantas mulheres e pessoas LGBT+ também é muito simbólico, porque amplia as referências sobre quem pode ocupar esses espaços no audiovisual”, conclui a atriz.

Atrizes principais celebram acolhida em Florianópolis e exaltam roteiro e equipe diversa

Espectro dos Desejos tem como protagonistas as atrizes Letícia Letrux e Ademara, que não residem em Florianópolis, mas têm estreitado laços com a cidade durante as filmagens. Ambas destacam como a recepção da equipe, a qualidade do roteiro e a composição majoritariamente feminina e diversa do set contribuíram para tornar a experiência singular.

Letrux, que interpreta o fantasma da escritora proibida, afirma que o papel chegou em um momento de curiosidade pessoal. “Esse papel ter chegado agora me deu uma saculejada boa assim pra vida, pra morte, pra todos os assuntos que essa personagem permeia”, diz. A atriz conta que a afeição por Florianópolis foi imediata: “Não foi uma cidade que demorei a ser conquistada, eu cheguei aqui e falei: ‘Wow, o que é que é isso, o que tá acontecendo?'”

O período de gravações, que foi finalizado no dia 29 de junho, foi para a atriz uma confirmação dessa conexão com a cidade e a natureza local: “Me sinto em casa, me sinto pronta para receber a chave da cidade”, brinca.

A atriz e cantora conta que cada dia de filmagem tem sido uma celebração: “É trabalho também, mas um trabalho feito de uma forma astral, respeitosa”, afirma. Animada com o resultado, ela aposta: “Acho que o filme vai ficar muito especial. Vai causar um bafafá.”

A experiência também tem sido significativa para Ademara, que interpreta a jovem Alê. A atriz afirma que o trabalho tem lhe permitido conhecer diferentes regiões do país, o que considera uma das maiores satisfações de sua carreira. “Eu amo a oportunidade que meu trabalho me dá de conhecer lugares diferentes do Brasil e espero que, futuramente, do mundo também”, diz. 

Equipe gravando no centro de Florianópolis. Crédito: Matheus Trindade

Ela também comenta sobre o que o público pode esperar da comédia fantástica lésbica.

“Para o público queer, muita identificação. Esse roteiro tem uma capacidade de captar experiências coletivas de quem é LGBTQIAPN+ de uma forma muito concreta”, garante.

E elogia o humor “no ponto” e as piadas internas do universo queer, ressaltando que o roteiro não subestima a audiência: “O roteiro é realmente interessante porque as pessoas vão acessar essa comédia de um jeito peculiar”, acrescenta.

Por fim, a atriz menciona o aspecto fantástico e a bruxaria presentes na trama como elementos que a atraíram para o projeto. “A Ilha da Magia não leva esse nome por acaso”, conclui, ressaltando que a aura mágica de Florianópolis também está incorporada à narrativa.

O filme conta com produção executiva de Beatriz Silva, direção de fotografia de Ananda Torres, direção de arte de Cleo Rosa e direção de som de Ingrid Gonçalves.

A obra foi contemplada com recursos do Prêmio Catarinense de Cinema, na Edição Especial da Lei Paulo Gustavo, promovida no ano de 2023. Com lançamento marcado para a temporada de festivais de 2027, o longa tem como produtora principal a catarinense Lilás Filmes, que firma coprodução com a Futurível Filmes e a VM Filmes.

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  • ariele-lima

    Natural de Juazeiro, sertão baiano. Estudante de Jornalismo em Multimeios pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), c...

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