O Carnaval em Curitiba tem rosto de mulher – sempre teve. Em 1978, na Rua Marechal Deodoro, Mãe Orminda foi a intérprete pioneira do samba curitibano e a primeira mulher a cantar um samba enredo na avenida. Hoje com 82 anos, a cantora abriu alas para outras mulheres na cena carnavalesca, que trabalham para manter vivas as raízes afro-brasileiras e de classe trabalhadora da maior festa do país. Apesar do caráter popular do Carnaval em todo território brasileiro, a celebração é um espaço de disputa simbólica, e abaixo do céu cinza de Curitiba, a resistência se faz ainda mais necessária.

“Curitibano é brasileiro e sabe que tem muita cultura popular na luta diária de sobrevivência”, defende Renata Dutra, representante da comissão de blocos de rua da capital.

Também integrante da bloca – assim mesmo, no feminino – Ela Pode Ela Vai, Renata conta que essas manifestações culturais só são possíveis através da organização popular e atuação política. 

Historicamente, a capital paranaense passou por um processo de embranquecimento e higienismo, que se reflete nas políticas públicas e no mito da “cidade modelo”. As ruas não são espaço de expressão popular, mas de ordem e silêncio. A comissão de blocos surgiu em 2019, da necessidade de articular com órgãos municipais sobre a falta de infraestrutura e segurança enfrentada pelas associações e, desde então, mulheres têm ocupado um papel central na discussão.

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Bloca Ela Pode Ela Vai | Crédito: Bianca / Fotofolia.

A representante explica que a maior pauta da comissão é a garantia do direito de estar na rua e celebrar. O Centro Histórico, um dos maiores redutos da vida noturna da cidade, ganha holofotes nesta época do ano, e se torna o principal território de disputa entre os foliões e o poder público. Em 2025, foram diversas denúncias de repressão policial na região, com dispersões truculentas e policiamento ostensivo. 

Um caso que ganhou destaque nacional foi a transmissão do Oscar no Cine Passeio, evento promovido pela própria prefeitura e que terminou com a chegada da Polícia Militar e disparo de bombas de efeito moral contra o público. Para este ano, a prefeitura já anunciou que fará uma dispersão na madrugada de domingo às 2h30 e a mobilização de 100 agentes da Guarda Municipal.

Além dos dilemas em relação ao policiamento enfrentados por toda a população, as mulheres encontram ainda outro desafio quando o assunto é curtir em segurança. De acordo com uma pesquisa realizada pelo Instituto Locomotiva e divulgada na última quarta-feira (11), 47% das mulheres brasileiras já sofreram alguma forma de assédio sexual no Carnaval e 79% têm medo de passar por esse tipo de situação. Enfrentando tanto os problemas institucionais quanto o machismo, a solução é a criação de ambientes de protagonismo feminino e empoderamento. 

Renata acredita que não existe lugar seguro para mulheres quando o assunto é Carnaval, mas é importante se manter em movimento:

“Estamos num número considerável de mulheres à frente dos blocos, está lindo de se ver. Acredito com o surgimento de blocos políticos possibilitou que a pauta feminista ampliasse sua voz e que as mulheres ocupassem esse espaço de batuqueira, de coordenação, de regência. Legal demais!”.  

Mulheres de todos os Carnavais

Apesar dos estigmas que perseguem a festa em Curitiba, o pré-Carnaval é destaque no calendário da capital desde o final da década de 1990, com blocos tradicionais como Garibaldis e Sacis. O esquenta acontece entre janeiro e fevereiro, com saídas na região do Largo da Ordem e da Rua São Francisco. Mesmo com a popularização, mulheres e outros grupos sub-representados ainda eram minoria nos blocos há cerca de dez anos, fazendo surgir uma nova necessidade. 

“O aparecimento de blocos mais nichados, que levantam alguma bandeira de representatividade vem de um contexto em que mulheres e pessoas LGBTQIAPN+ estavam cansadas de não terem espaços de protagonismo ou de discussão de desigualdades e violências dentro de outros blocos”, lembra Priscila de Moraes, integrante da Bloca Saí do Armário e Me Dei Bem. 

A Bloca existe desde 2017 e é a primeira de Curitiba formada apenas por pessoas LGBTQIAPN+. Com músicas que abordam temas como educação sexual, acolhimento de pessoas trans e liberdade sexual feminina, a ideia é politizar e empoderar através da diversão. Na temporada de 2026, a Saí do Armário organizou uma saída dedicada ao Dia da Visibilidade Trans, em 29 de janeiro, além da saída “Saia do Centro Você Também”, em parceria com o Bloco Afro Pretinhosidade, na Vila Torres, comunidade mais antiga da cidade. A partir dessa necessidade de combater qualquer forma de preconceito na cena dos batuqueiros e foliões, blocos feministas, antirracistas e LGBTQIAPN+ foram se tornando, pouco a pouco, a cara do pré-Carnaval de Curitiba. 

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Bloca Ela Pode Ela Vai | Crédito: Bianca / Fotofolia.

A bloca Ela Pode Ela Vai é, além da reunião de mulheres que batucam juntas, um coletivo feminista que luta por liberdade e segurança no Carnaval de rua. Maria Paula Ewald, é cantora e faz parte dos GTs (Grupo de Trabalho) de organização e manifestação da Ela Pode. Maria conta que já participava de movimentos feministas quando conheceu a associação: “Encontrar a prática deste movimento na ocupação das ruas fez todo o sentido pra mim, afinal este é um espaço que historicamente nos é ‘autorizado’ mediante condições como horário, roupa, se estamos sozinhas ou acompanhadas”. 

A existência das blocas não melhora apenas a experiência de seus membros nas saídas, mas também impacta todo o circuito do pré-Carnaval. A partir da representatividade e de ações educativas, a rua se torna, pouco a pouco, um espaço mais seguro.

“Nós estamos sempre gritando e falando sobre assédio, sobre ‘Não é Não’ e sobre cuidados com as mulheres em situação de rua. Construímos um sinal de combate ao assédio (levantar os braços e cruzar em X) que todos utilizam. Alguns blocos criam campanhas informativas internas sobre como agir em caso de assédios, e aí vamos espalhando isso para que os homens mesmo conversem entre si”, explica Renata. 

Além de praticar música e promover debates, participar das blocas permite que as mulheres e pessoas LGBTQIAPN+ encontrem uma comunidade acolhedora, na qual podem compartilhar suas vulnerabilidades. Na Saí do Armário e Me Dei Bem, foram criadas várias estratégias para atender as necessidades das pessoas participantes, como um Grupo de Trabalho especializado em criar comunicados e lembretes, além de manter uma planilha com os dados sobre saúde mental e física, contatos de emergência e orientações para contenção de crises. 

“Muitas pessoas LGBT chegam com o mesmo relato, elas querem se sentir pertencentes, compartilhar espaços com pessoas parecidas. E nas atividades, sejam ensaios, eventos, oficinas ou saídas, essas pessoas se sentem seguras para serem elas mesmas, sem julgamentos”, conta Priscila. 

No último sábado antes do Carnaval (7), a Ela Pode fez a saída “Que a Deusa Me Livre de Não Ser Latina”. Debaixo da chuva fina e insistente, típica da capital paranaense, a batucada seguiu até depois das 19h. Quanto mais escurecia, mais as fantasias, babados e brilhos capturavam o olhar de quem passava pela Rua São Francisco, com as cores da bandeira da bloca, roxo e dourado, se destacando entre os casarões históricos da região. 

“O que fazemos é tentar subverter essa lógica com a liberdade dos nossos corpos e das letras de nossas canções, ocupando as ruas como um ato político. Por sermos e nos apresentarmos como este grupo social sempre sofremos ataques, mas a participação do coletivo e do nosso público nas nossas saídas me mostram que estamos conseguindo plantar a semente da revolução”, destaca Maria Paula.

Protagonismo negro na academia e na avenida  

Na capital mais negra do Sul do Brasil, a cena do samba e do Carnaval está ligada à própria formação da cidade. A primeira escola de samba, Colorado, foi fundada em 1946 por ferroviários na extinta Vila Tassi, atualmente na região da Rodoferroviária de Curitiba. Mesmo com diversas dificuldades relacionadas à segregação racial e falta de recursos, a escola ganhou reconhecimento do público e de grandes artistas da época. A Colorado também foi uma das primeiras a incluir mulheres nas apresentações. 

Para resgatar e preservar memórias como essa, são diversas iniciativas na cidade, desde blocos de rua como o Afro Pretinhosidade, rodas e escolas de samba, além de grupos de pesquisa sobre música e cultura negra, que atuam com resgate e divulgação de memórias dentro e fora das universidades. 

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Bloco Afro Pretinhosidade | Crédito: Melito / Fotofolia.

Jay de Oyá é cantora e pesquisadora de samba e cantos afro-brasileiros, licenciada em Música pela Faculdade de Artes do Paraná (FAP), e uma das organizadoras do Congresso Interdisciplinar da Cultura do Samba e do Carnaval (COICCA). O evento acontece pela primeira vez em abril na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e irá contar tanto com rodas de conversa quanto de samba. “A partir desse congresso vamos estreitar os laços com outras companheiras negras que fazem pesquisa relacionadas ao samba e ao Carnaval”, comenta a pesquisadora. 

Assim como Mãe Orminda, Jay se conecta com sua ancestralidade através da fé, e com o público através da voz. A artista promove mensalmente o projeto de axé music Pipoca da Jay, com o lema “Carnaval o ano todo”. Além disso, também faz parte do coletivo Mulheres na Roda de Samba, que luta pelo reconhecimento da história de mulheres na cena e realiza diversas ações na periferia da cidade, incentivando a participação de mais pessoas: 

“Através disso conhecemos muitas histórias e mulheres que desejam integrar o movimento do samba em Curitiba. Essa é uma forma de trazer figuras que foram apagadas e abriram o caminho que estamos trilhando agora. É a forma que nós mulheres buscamos estar cada vez mais atuantes e trazendo essas referências como inspiração”, conta a cantora. 

Chica da Silva, integrante do Afro Pretinhosidade, explica que ações realizadas pelo bloco em regiões descentralizadas da cidade, como encontros e atividades culturais também são um espaço de aprendizagem e resgate, especialmente para mulheres negras: “A participação das mulheres é muito ativa dentro do bloco. Trazemos assim nossa representatividade para nossas meninas, como nos deixaram Mãe Orminda, Vera Paixão, Iyagunã Dalzira e muitas outras daqui e de fora de Curitiba”. 

Neste ano, o circuito oficial das escolas de samba acontece no sábado e no domingo (14 e 15), com um destaque na programação: a estreia na avenida da Escola de Samba Rosa do Povo. Com formação comunitária e foco no resgate da cultura negra e popular, a agremiação conta com alas compostas majoritariamente por mulheres. O enredo “Nasce uma Rosa na Curitiba de Todos os Povos” celebra a diversidade étnica e cultural da cidade. “Nossa escola é, definitivamente, feminina. Contamos com a presença efetiva de mulheres em todos os setores, inclusive nos cargos de diretoria, onde participam ativamente das decisões da Escola”, conta Mariana Felizardo, vice-presidente e rainha de bateria. 

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Bloco Afro Pretinhosidade | Crédito: Melito / Fotofolia.

A sambista relata que um dos maiores desafios que mulheres negras enfrentam no Carnaval é o questionamento constante de suas capacidades e inteligência. A experiência reforça a importância da construção de um espaço democrático para que todas possam ser respeitadas. 

“Mulheres negras representam a origem e a essência do samba, que nasce da cultura, da resistência e da criatividade do povo negro no Brasil. Em uma escola de samba, mulheres negras não apenas participam – elas constroem a história, sustentam tradições e lideram movimentos culturais. Na Rosa do Povo, elas encontram espaço, acolhimento e o suporte necessário, assim como eu encontrei, para exercer todo e qualquer tipo de função”, diz Mariana. 

Combatendo o conservadorismo e enfrentando estigmas estruturais e culturais, as mulheres de Curitiba seguem unindo arte e política para ocupar, organizar e celebrar o Carnaval. “Como boa filha de Iansã, a gente se movimenta, fala alto, mostra presença. A partir do momento que estamos ali fazendo o nosso trabalho com qualidade e respeito, nós resistimos. Como mulheres ainda temos que lidar com pessoas que carregam muito machismo, mas cantando e trazendo essa questão com muita excelência, não somos apagadas, mas sim protagonistas daquilo que nos pertence também”, finaliza Jay de Oyá. 

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