Trazendo fé, memória e crítica social, as escolas de samba de Florianópolis vão conduzir os desfiles do Carnaval 2026 nos dias 13 e 14 de fevereiro, na tradicional Passarela Nego Quirido, no Centro da capital catarinense. A programação oficial inclui ainda a apuração dos resultados no dia 16 e o Desfile das Campeãs no dia 17, reforçando, em mais um ano, o samba como uma das expressões culturais mais emblemáticas do território.

A Passarela Nego Quirido é um palco histórico onde as expressões artísticas do samba dão forma à cultura popular e preservam a tradição negra, celebrando ritmos, memórias e narrativas que atravessam gerações. Embora o carnaval de rua e as sociedades carnavalescas sejam mais antigos, os desfiles das escolas de samba na capital já somam 78 anos de história.

Fátima Costa de Lima, professora do departamento de Artes Cênicas da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) e pesquisadora do tema há mais de três décadas, destaca, no carnaval deste ano, a continuidade de uma tradição de enredos focados na negritude e em biografias de personalidades brasileiras historicamente invisibilizadas. 

Segundo ela, as escolas que nasceram no Rio de Janeiro sempre cantaram a negritude, e a expansão desse modelo para outras cidades, como Florianópolis, avançou paralelamente ao fortalecimento do movimento negro no Brasil. Fátima ressalta que as escolas de samba desempenham hoje funções pedagógicas e políticas para as comunidades: 

“Ao contar histórias sobre momentos históricos e personalidades negras que permaneceram desconhecidas por muito tempo pela ausência nos livros didáticos, acaba se criando um enfrentamento à essa imagem de uma Santa Catarina puramente europeia.”

Escolas transformam dor em luta e cultura

Um exemplo concreto desse processo de valorização e resistência é a escola Os Protegidos da Princesa, uma das mais tradicionais e pioneiras de Florianópolis, fundada em 18 de outubro de 1948, no Morro do Mocotó. O território surgiu como espaço de resistência de uma comunidade majoritariamente negra, formada por pessoas que enfrentavam as opressões do período pós-abolição e que encontraram no senso de coletividade um caminho para garantir a própria subsistência.

O nome Mocotó remete à sopa feita a partir do tutano das patas do boi — um caldo forte e nutritivo que saciou a fome de pessoas pobres, escravizadas em fuga e, mais tarde, de marinheiros e trabalhadores da construção da ponte Hercílio Luz, que subiam o morro em busca de alimento.

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Escola de Samba Os Protegidos da Princesa em 1962 | Crédito: Arquivo Público do Estado de Santa Catarina.

O morro carrega marcas ainda vivas de como o período pós-abolição falhou em assegurar condições dignas de vida às pessoas negras libertas e a seus descendentes. Trazendo para o desfile esse fragmento importante de sua construção, a escola retorna à Passarela Nego Quirido com o enredo “14 de maio: o dia que ainda não acabou”, que parte da data da abolição formal da escravidão para provocar uma reflexão sobre as permanências da desigualdade, do racismo estrutural e da exclusão social no Brasil pós-abolição. 

Em suas redes sociais, a escola define o enredo como “um aviso de que muito ainda precisa ser conquistado”. Segundo a agremiação, trata-se de transformar a dor em luta, seguindo pela estrada da vida mesmo quando esse direito foi historicamente negado.

Para Jú Queiroz, intéprete da escola, em um cenário marcado por retrocessos sociais como a tentativa de extinção das cotas raciais e os ataques às comunidades periféricas, ver a agremiação refletir sobre as cicatrizes da escravidão é um ato de resistência simbólica.

“É um tema extremamente atual e necessário. Ver as crianças negras cantando ‘meu sangue é nobre e tem força de rei’ na avenida é de uma emoção indescritível”, conta.

No mundo do samba desde a adolescência, foram os blocos de Carnaval que despertaram sua paixão pelo ritmo, aos 15 anos. Natural do interior de São Paulo, ela estreitou seus laços com o gênero ao se mudar para o Rio Grande do Sul. No entanto, foi em Florianópolis que a engenheira civil decidiu seguir a paixão pela música e logo foi convidada para ser a intérprete da escola Os Protegidos da Princesa.

“Fui me contagiando e me descobrindo dentro da escola. Conheci de perto o amor que as pessoas têm pelo Carnaval e pela agremiação”, revela.

Samba-enredos celebram lideranças, coletividade e fé

Jeruse Romão, pesquisadora, ativista e autora da biografia de Antonieta de Barros, destaca a importância histórica e cultural das escolas de samba no carnaval catarinense. Para ela, as escolas têm apresentado enredos que evidenciam aspectos fundamentais do legado negro em Florianópolis e em todo o estado.

Segundo a pesquisadora, embora os temas afro-religiosos não sejam historicamente associados ao imaginário regional, os desfiles revelam que há, sim, uma fé afrocentrada presente em Santa Catarina. 

Esse compromisso se manifesta nos temas escolhidos, como no caso da escola Dascuia, que celebra a vida de Valdeonira Silva dos Anjos, uma liderança de 90 anos nascida no Morro do Céu cuja história representa um precioso arquivo vivo da experiência da população negra local.

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Ensaio técnico | Crédito: Carnaval de Florianopolis – Canal do Losso/reprodução Instagram.

Jeruse, responsável pela escrita da biografia de Valdeonira, ressalta que a homenagem feita pela escola não desloca o passado, mas dialoga com ele no presente: “Ela tem 90 anos de idade, vez ou outra, em conversa com ela, faço perguntas exatamente sobre o passado. Não o que a história ‘brancocêntrica’ escreveu sobre nós, mas o que de fato vivemos”.

Valdeonira é uma das militantes mais longevas do movimento negro catarinense e, apesar da idade, quebra os estereótipos etaristas junto a outras mulheres ainda articuladas nas discussões sociais e celebrações culturais.

“Eu fico observando: elas são ativas, animadas, articuladas. E cada uma é uma biblioteca. Eu sinto muito medo de perder tudo quando elas se forem”, conta Jeruse.

Conheça os enredos das escolas 

Jardim das Palmeiras

Com o enredo “Fé nas águas – Caminhos de devoção, celebração e religiosidade”, a escola leva para a avenida as expressões de fé que se manifestam nos rios e mares. Em suas redes, destaca que o desfile mergulha nas procissões aquáticas, onde o sagrado e o profano se encontram e a devoção ganha forma em dança, poesia, oferendas e celebração.

Império Vermelho e Branco

Xangô é a figura que rege o enredo do Império Vermelho e Branco em 2026. O orixá da justiça, do fogo e dos trovões, representa o equilíbrio, a retidão e a força da palavra. Cultuado nas religiões de matriz africana, ele simboliza a luta contra as injustiças e a busca por verdade, ordem e respeito, valores que atravessam o tema escolhido pela escola.

Acadêmicos do Sul da Ilha

Celebrando os 100 anos do Lira Tênis Clube — tradicional clube social e esportivo localizado no centro de Florianópolis — a escola promove um baile comemorativo com o tema “Baile dos 100 Carnavais: o Lira é o rei da folia”. A proposta atravessa diferentes épocas da festa: “Corsos, blocos, mascarados e foliões de todas as eras cruzam um portal encantado e desembarcam em um salão de sonhos, onde a história se mistura à fantasia e a magia do carnaval nunca tem fim”, explica a escola.

Nação Guarani

Ao completar 15 anos de existência, a Nação Guarani vai para a passarela sob o enredo “A batida do tempo que faz o coração sonhar”. É uma celebração que reverencia os carnavais que já passaram, os sambas que marcaram a escola e as conquistas que pavimentaram o caminho até aqui. 

União da Ilha

Com o enredo “O Poder da Criação”, a União da Ilha propõe uma viagem pelas invenções humanas, da revolução da primeira roda às máquinas visionárias de Leonardo da Vinci. Tudo isso é narrado sob o olhar da Gaivota Real, símbolo da escola e moradora ilustre da Lagoa da Conceição, culminando na celebração da magia do Carnaval e a força de uma Escola de Samba.

Os Protegidos da Princesa

“14 de maio, o dia que ainda não acabou” é o tema da Protegidos da Princesa para o Carnaval de 2026. O enredo parte da data que marca a abolição formal da escravidão no Brasil para refletir sobre as continuidades da desigualdade e da exclusão no pós-abolição. Em suas redes, a escola explica que o tema é “um aviso de que muito ainda precisa ser conquistado”. “É sobre transformar dor em luta e ausência em força. É sobre seguir pela estrada da vida, mesmo quando ela foi negada”, afirma a agremiação.

Dascuia

O enredo da Dascuia é inspirado na trajetória de uma figura viva e fundamental para a história da escola: “Valdeonira: 90 anos da matriarca em Verde e Rosa”. A narrativa celebra a vida de Valdeonira, nascida em 1935 no Morro da Caixa, reconhecida como símbolo de força feminina e popular. “Exaltamos sua história como a de uma mulher que fez da religiosidade, da arte e da educação instrumentos de transformação social e de construção familiar, em experiências que se entrelaçam”, destaca a escola.

Consulado

As tradições ciganas inspiram o enredo do Consulado neste ano. Com o tema “Optchá! No caminho para o Eldorado, nosso destino é pandeirar!”, a escola celebra a espiritualidade, a ancestralidade e a força simbólica dos povos ciganos, cuja história é marcada pela mobilidade, pela liberdade e pela preservação de saberes transmitidos de geração em geração.

Unidos da Coloninha

Com o tema “Joga Rede, Pescador nas Águas Santas de Catarina”, a Unidos da Coloninha celebra a cultura açoriana e a tradição pesqueira que moldam a história e a identidade de Santa Catarina. O enredo homenageia os saberes do mar, o cotidiano dos pescadores e a relação de fé, trabalho e pertencimento construída nas comunidades litorâneas, onde as águas são sustento, memória e devoção.

Embaixada Copa Lord

A Embaixada Copa Lord levará à passarela um desfile inspirado no famoso personagem criado no século 19 pelo escritor francês Pierre Alexis Ponson du Terrail. Com o tema “As doces aventuras de Rocambole”, a escola unirá literatura e fantasia “rocambolesca”, termo surgido em referência ao personagem e utilizado até hoje para descrever histórias extraordinárias e cheias de irreverência.

Ordem dos desfiles:

Sexta-feira – 13 de fevereiro

21h10 – Unidos da Coloninha
22h15 – Dascuia
23h50 – Nação Guarani
01h10 – Império Vermelho e Branco
02h30 – Acadêmicos do Sul da Ilha

Sábado – 14 de fevereiro

21h10 – Os Protegidos da Princesa
22h15 – Jardim das Palmeiras
23h50 – Consulado
01h10 – União da Ilha da Magia
02h30 – Embaixada Copa Lord

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  • ariele-lima

    Natural de Juazeiro, sertão baiano. Estudante de Jornalismo em Multimeios pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), c...

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