É preciso falar sobre a perimenopausa, conhecida como a fase de transição hormonal que antecede a menopausa e que pode durar anos, marcada pela queda progressiva e irregular dos hormônios ovarianos, sobretudo o estrogênio. Todos conhecemos a famigerada menopausa, que nos termos biológicos, é o marco que se declara depois de doze meses seguidos sem menstruação, quando essa produção hormonal se estabiliza em um novo patamar. 

Na prática, a perimenopausa é a travessia e a menopausa é a chegada, mas quase ninguém me explicou essa diferença de forma simples antes de eu viver na pele os dois processos ao mesmo tempo. 

Durante esse processo, meu corpo começou a falar comigo de um jeito novo. São noites de insônia, que parecem infinitas, a sensação de calor que abraça dos pés a cabeça, a memória que às vezes escorrega, o cansaço que não se resolve com uma noite bem dormida. 

Demorei para nomear o que estava acontecendo, porque tudo ao meu redor me ensinou a desconfiar do meu próprio corpo antes de escutá-lo.

Escrevo este texto porque descobri que nomear é o primeiro gesto político que uma mulher pode fazer diante de um processo que a sociedade insiste em tratar como invisível ou como defeito, e porque, como uma pessoa política, entendo que o que sinto no corpo também é um retrato de um problema estrutural que atravessa toda a nossa sociedade.

Quando uma mulher nessa fase diz que está exausta, a sociedade responde com um repertório já pronto: ela é exagerada, é dramática, está ficando difícil, anda preguiçosa, deve ser estresse, deve ser frescura. 

E a verdade é mais simples do que se espera: existe uma mudança hormonal real, profunda e documentada pela ciência, que afeta o sono, o humor, a energia, a concentração e o corpo inteiro. A oscilação do estrogênio não é uma metáfora nem uma desculpa, mas um processo fisiológico que todas nós vamos experienciar um dia. 

Mas a fisiologia das mulheres de meia-idade nunca interessou muito a uma sociedade que só sabe valorizar nossos corpos enquanto eles são jovens, produtivos e reprodutivos.

Com isso, precisamos nos tornar políticos aqui, porque um corpo que a sociedade descarta assim que deixa de ser lucrativo é também um corpo que o poder público historicamente se recusou a olhar com políticas de saúde, escuta médica e tempo de cuidado.

A antropóloga Melissa Melby, professora da Universidade de Delaware, resume bem o problema quando observa que no Ocidente existe a percepção de que a menopausa será horrível e que a vida só vai ladeira abaixo a partir dela. 

Segundo Melby, damos às mulheres listas de sintomas negativos e nunca perguntamos se houve alguma mudança positiva nesse período, e com isso acabamos produzindo uma relação de rejeição com o próprio corpo. E essa ciência sobre a menopausa, é importante dizer, foi construída majoritariamente a partir de corpos de mulheres brancas. 

Pesquisas recentes mostram que mulheres negras, latinas e indígenas vivem transições mais precoces, mais longas e mais intensas, e ainda assim são as que menos recebem escuta, diagnóstico e tratamento. 

Levantamentos do site norte-americano The Pause Life, indicam que, entre mulheres indígenas, fadiga, névoa mental e distúrbios do sono estão entre os sintomas mais frequentes, enquanto ansiedade e cansaço são relatados em níveis mais severos do que entre mulheres brancas. 

As mulheres que mais sentem são justamente as que menos são acreditadas, e isso é o retrato de um racismo que também se organiza dentro dos consultórios e das políticas de saúde pública.

E aqui é preciso falar do cansaço, porque ele não é só hormonal. A perimenopausa costuma chegar exatamente no momento em que a vida da mulher está mais cheia, na fase das jornadas que se triplicam: o trabalho remunerado, a casa, os filhos, muitas vezes os pais que envelhecem e precisam de cuidado, as preocupações, a comunidade. 

A sociedade construiu a figura da mulher invencível, aquela que dá conta de tudo, e transformou essa figura em cobrança. 

A mulher invencível não pode admitir cansaço, porque isso seria falhar, mas também não pode desistir, porque tudo depende dela. O resultado é uma armadilha perfeita: um corpo em plena transição hormonal, exigindo pausa e cuidado, dentro de uma vida que não permite pausa nenhuma. 

Quando esse corpo finalmente reclama, a resposta social não vem como acolhimento, mas como uma suspeita sobre o nosso comportamento, e para mulheres negras e indígenas essa suspeita costuma vir ainda mais rápido e de maneira mais severa. 

Foi olhando para os saberes dos povos originários que encontrei outra forma de entender o que estou vivendo. Em muitas comunidades indígenas, incluindo culturas nativo-americanas e maias, a menopausa é vista como uma transição para a sabedoria e a liderança, conferindo às mulheres maior respeito e influência.

Entre comunidades indígenas australianas, mulheres que atravessaram essa fase frequentemente se tornam educadoras culturais e guias espirituais. Um estudo com mulheres das Primeiras Nações no Canadá registrou que essa etapa da vida era vista como um tempo de maior liberdade e de mais respeito, o tempo das mulheres sábias que têm conhecimento a compartilhar. 

Percebam o contraste. De um lado, uma sociedade que entende a mulher em transição hormonal como um problema a ser administrado, um corpo em decadência, uma trabalhadora menos eficiente. 

De outro, cosmologias inteiras que entendem essa mesma mulher como alguém que está subindo de posição na vida, acumulando autoridade, tornando-se conselheira, guardiã de memória e liderança. 

Nos nossos territórios, o corpo da mulher não é uma máquina que quebrou, é um corpo que sabe e que se conhece. As anciãs não são descartadas quando param de menstruar, é justamente nesse momento que a palavra delas passa a importar mais. 

O descanso, nessas perspectivas de mundo, não é preguiça nem fraqueza, faz parte do ciclo, e tratado como direito e uma condição para que a sabedoria amadureça.

A sociedade não-indígena subestima suas mulheres na perimenopausa, talvez porque uma sociedade organizada pela produtividade não saiba o que fazer com um corpo que pede pausa, e reconhecer a perimenopausa como processo real exigiria reconhecer também a exaustão estrutural das mulheres, a divisão desigual do cuidado, o preço da jornada tripla e o racismo que decide quais corpos de mulher merecem escuta médica e quais não merecem. 

Para esse sistema se manter de pé, é mais eficaz chamar a mulher de exagerada do que mudar o mundo que a esgota, assim como é mais conveniente ignorar as desigualdades raciais na saúde da mulher do que financiar políticas públicas que as enfrentem.

Escrevo, então, para as mulheres que estão atravessando esse período em silêncio, achando que é uma falha pessoal. Não é. 

O que sentimos tem nome, tem causa e merece ter cuidado, política pública, escuta médica qualificada e, sobretudo, respeito, especialmente para as mulheres negras e indígenas que historicamente menos receberam essa escuta. 

Escrevo também para lembrar que existe outro jeito de olhar para essa travessia. Os povos originários guardam há milênios um conhecimento que o Ocidente precisa reaprender, o de que envelhecer, para uma mulher, pode se tornar mais, e não menos. 

O corpo que muda não está falhando, está ensinando. E uma sociedade que não sabe respeitar suas mulheres em transição é uma sociedade que ainda tem muito a aprender com quem ela sempre se recusou a escutar.

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    Primeira vereadora indígena de Florianópolis (SC). Presidenta da Comissão da Mulher da Câmara. Embaixadora pelo Clima em...

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