“Toma posse a primeira presidenta negra do Brasil 2027”. Eleições batendo na porta e a afirmação do artista Randolpho Lamonier parece distante da nossa realidade.

A frase em destaque soa como o título de uma notícia. Para parte da sociedade, seria uma boa notícia; para outra, seria impensável ou até indesejável. Descendo o olhar um pouco mais para baixo, vemos a menção a uma data: 2027.

E somos lançados para a realidade presente. 2027 está logo ali. É ano que vem. E, mesmo sendo minoria, há uma mulher negra disputando espaço em um cenário presidencial predominantemente masculino e branco. 

Samara Martins é o seu nome. Mulher negra, candidata pelo partido Unidade Popular (UP). Faz campanha pautando assuntos de extrema pertinência para a vida da população, como o aumento de 100% do salário mínimo, o fim da escala 6×1, ações afirmativas para pessoas negras e estratégias de inteligência para melhorar os serviços de segurança pública. 

Ainda assim, possuía apenas 1% de intenção de votos, segundo pesquisa BTG/Nexus, divulgada em 24 de agosto, e permanece à margem do debate público, com baixa visibilidade na mídia. 

No primeiro debate dessas eleições, transmitido pela TV Bandeirantes um dia antes da divulgação da pesquisa, a única candidata negra à presidência não foi convidada. 

Se a intenção de votos fosse a justificativa, Augusto Cury, homem branco, candidato pelo Avante, então com 2% de intenção de votos, segundo o mesmo levantamento, não teria sido convidado. Porém, não só foi como esteve no debate. Decisões como essas moldam a opinião pública e constroem o nosso imaginário acerca de quem é ou não “presidenciável”. 

Mulheres negras na corrida presidencial

Mulheres negras já desafiaram as estruturas racistas e o apagamento histórico ao disputar a Presidência da República. Entre elas estão Marina Silva, candidata em 2010, 2014 e 2018; Vera Lúcia, que concorreu pelo PSTU em 2018 e 2022; e, agora, Samara Martins. Em 2022, Samara foi candidata à vice-presidência na chapa encabeçada por Léo Péricles (UP), a única daquele pleito  formada exclusivamente por pessoas negras. 

Essas trajetórias evidenciam que mulheres negras vêm reivindicando espaço na disputa pelo mais alto cargo do país, ainda que suas candidaturas permaneçam pouco reconhecidas na memória dos brasileiros. 

A questão, portanto, não é a ausência absoluta de mulheres negras na corrida presidencial, mas a dificuldade histórica de que suas candidaturas sejam reconhecidas como alternativas efetivamente competitivas ou imaginadas como um projeto de poder para o país.

Avanços em meio a barreiras 

Embora as mulheres tenham conquistado o direito de votar e ser votadas em 1932, esse avanço esteve longe de beneficiar todas de maneira igual.

Em um país marcado pelo racismo e por profundas desigualdades sociais, foram sobretudo as mulheres brancas, alfabetizadas e pertencentes às classes mais favorecidas, que conseguiram exercer esse direito. As mulheres negras continuaram enfrentando barreiras que limitavam sua participação política institucional.

Apesar disso, impulsionadas pela necessidade de transformar a própria realidade e de colocar suas vozes e demandas no centro das decisões políticas, elas vêm conquistando espaços historicamente negados. 

Ao longo das décadas seguintes, construíram trajetórias de organização e resistência em movimentos sociais, associações e partidos, abrindo caminhos para as novas gerações. Nesse percurso, a eleição de Benedita da Silva para o Congresso Nacional, em 1986, tornou-se um marco na representação política de mulheres negras no âmbito federal. 

Para as mulheres negras trans, esse marco na representação política federal é ainda mais recente. Somente  em 2022, Erika Hilton (PSOL-SP) tornou-se a primeira delas a ser eleita para a Câmara dos Deputados.

Vale lembrar que, no Poder Judiciário, ainda que tenhamos mulheres negras juízas em instâncias estaduais e federais, o Brasil jamais teve uma mulher negra ocupando uma cadeira no Supremo Tribunal Federal (STF). Em 2023 e, mais recentemente, em 2026, movimentos negros e feministas, além de diversos setores da sociedade, defenderam que o  presidente da República indicasse uma mulher negra para o STF, mas a decisão seguiu outro rumo — diga-se, menos inclusivo.

Falar em “primeiras” mulheres negras ocupando lugares de poder tão recentemente e na persistente ausência de representatividade em diversos espaços não deveria soar como algo natural. 

A democracia que queremos (ainda) é uma profecia

Ao transformar um acontecimento que deveria ser ordinário em uma profecia, Randolpho evidencia a distância entre a democracia que imaginamos e aquela que efetivamente vivemos.

Na série Profecias, o artista constrói, por meio de bordados, costuras e grandes painéis têxteis coloridos, frases que projetam futuros muitas vezes percebidos como utópicos. 

Na obra “Toma posse primeira presidenta negra do Brasil 2027”, a frase ocupa o centro da composição, cercada por espadas-de-são-jorge, planta frequentemente associada à proteção e à resistência. As raízes aparentes evocam memória e pertencimento. 

Os retalhos e as costuras visíveis sugerem um país tecido por múltiplas histórias, diferentes origens e pelas marcas das desigualdades que atravessam sua formação.

A mensagem de Randolpho é revolucionária porque declara esperança em tempos de desesperança. 

Mora uma possível frustração na profecia que falha, mas também mantém uma porta aberta. 

Para nós, que decidimos acreditar nela, cabe perceber que, talvez, seu principal objetivo nunca tenha sido acertar o futuro, mas provocar a possibilidade de concebê-lo e, assim, construí-lo. Não se trata de prever o amanhã, e sim  afirmar desejos coletivos e testar nossa capacidade de imaginá-los. Nesse sentido, profecias funcionam  menos como previsão e mais como ferramenta política, convocando nossa imaginação para a disputa de poderes e interesses que vivemos. 

Um povo que deixa de vislumbrar dias  melhores perde também a esperança — essa força que nos coloca em movimento — e abre espaço para o medo, que paralisa.

A profecia de Randolpho provavelmente não vai se cumprir nestas eleições. Ainda não. Mas seguimos acreditando que ela poderá, um dia, deixar de ser profecia para se tornar notícia.

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