A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou na última quarta-feira, 22, duas Propostas de Emenda à Constituição (PECs) para o fim da escala 6×1 – organização da jornada com seis dias de trabalho e apenas um de descanso. As jornadas acima de 40h semanais empregam hoje cerca de 37,2 milhões de trabalhadores, concentradas entre aqueles com renda mais baixa e em situação de vulnerabilidade econômica. Para as mulheres, especialmente as mulheres negras, o modelo é ainda mais prejudicial, pois se soma à sobrecarga do trabalho de cuidado e à desigualdade salarial. 

O debate sobre o fim da escala 6×1 se intensificou em 2024, impulsionado pelo movimento Vida Além do Trabalho (VAT). Em fevereiro de 2025, a deputada Erika Hilton (PSOL-SP) apresentou a PEC 8/2025, que propõe uma mudança na Constituição para limitar  a jornada a,  no máximo, 36 horas semanais, com adoção da escala 4×3. Além disso, o Governo Federal defende um Projeto de Lei (PL) que reduz a jornada de 44 para 40 horas semanais, com escala 5×2 e sem redução salarial. Com a pauta tramitando em regime de urgência no Congresso Nacional, a previsão é que a aprovação aconteça até em até três meses

A diminuição da jornada também foi uma das principais bandeiras nos atos do Dia Internacional das Mulheres deste ano, em 8 de março. Movimentos feministas e sindicais denunciaram como a divisão sexual do trabalho afeta principalmente mulheres, que além do trabalho remunerado, precisam lidar com responsabilidades domésticas e de cuidados, resultando na dupla ou tripla jornada. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgada em 2022, as mulheres dedicam em média 21,3 horas semanais para cuidar da casa e da família, enquanto os homens dedicam 11,7 horas. 

A secretária da Mulher Trabalhadora da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Amanda Corcino, explica que a discussão sobre a redução da jornada deve buscar entender quais as demandas específicas das trabalhadoras:

“A nossa escala não é 6×1, ela é 7×0. Mesmo quando estamos em casa, estamos trabalhando. É uma consequência do machismo estrutural, da sociedade que pensa que a responsabilidade pelo cuidado é exclusiva das mulheres. Esse debate da redução da jornada tem que vir acompanhado pelo debate do fim da divisão sexual do trabalho, e da corresponsabilização do trabalho de cuidados”. 

As mulheres são maioria nos postos de trabalho que utilizam a escala de 44h, representando 56% do total, de acordo com pesquisa promovida pelo Sindicato dos Comerciários e pelo Observatório do Estado Social Brasileiro (2025). Nos setores onde a escala 6×1 é amplamente utilizada, mulheres participam de forma ainda mais expressiva. No estado de São Paulo, por exemplo, a presença feminina nas admissões era de 50% no comércio e 54% nos serviços em 2025 (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados).

O alto número de mulheres, tanto nos postos de trabalho quanto na luta pela redução da jornada levou à criação do VAT Mulher. O coletivo atua com letramento sobre feminismo e levanta o questionamento: “quem cuida de quem cuida?”. Alana Cavalcante, advogada e coordenadora do movimento, conta que a ideia é colocar o gênero no centro da discussão: “A atuação das mulheres é no sentido de trazer essa questão das jornadas de trabalho, tanto pagas quanto invisíveis, que são bem mais nocivas às mulheres”. 

Crédito: Gibran Mendes/CUT PR.

Essa sobrecarga representa não apenas exaustão física, mas também mental. De acordo com o relatório “Esgotadas”, divulgado pelo Think Olga em 2023, ansiedade e estresse fazem parte do dia a dia de metade das brasileiras. Entre as maiores causas de insatisfação relatadas, estão a situação financeira, com apenas 14% de satisfação, e a capacidade de conciliar diferentes áreas da vida, com 21%. O estudo também aponta para a sobrecarga de trabalho doméstico, responsabilidades com os filhos, falta de parceria do(a) companheiro(a) e falta de rede de apoio como fatores de adoecimento psíquico. 

A alta preocupação com a situação financeira está relacionada à posição que mulheres ocupam no mercado de trabalho. O rendimento recebido por elas equivale a 78,9% dos homens, como mostra a pesquisa do IBGE, com dados coletados em 2022. O  estudo também aponta para a tendência de feminização da pobreza no Brasil. As mulheres vivendo na pobreza somavam 32,3% da população do país, enquanto os homens eram 30,9%. 

Mulheres mais pobres e racializadas são mais afetadas 

Concentradas em profissões precarizadas e com menor valorização, o número de mulheres pretas e pardas que recebem salários de até R$2.120 chega a 80,7%, ainda de acordo com pesquisa do Observatório do Estado Social Brasileiro. Com mais dificuldade de entrar e ascender no mercado de trabalho, elas são empurradas para profissões relacionadas ao serviço doméstico ou de cuidados, onde somam quase 70% da força de trabalho, segundo o Ipea, 2025. Entre as trabalhadoras domésticas, 1,4 milhão têm apenas um dia de descanso na semana. Neste cenário, a ausência de tempo livre e o cansaço contribuem para a falta de possibilidade de qualificação. 

Ágatha Ísis Brum é parte da coordenação do Vida Além do Trabalho em Santa Catarina. Mulher negra e trans, trabalha como vendedora em um supermercado. Cumprindo a escala 6×1, ela conta sobre a rotina apertada:

“É acordar, auxiliar minha mãe, estudar para a faculdade, que é semipresencial, tomar banho e sair para o serviço. Normalmente chego em casa e já vou dormir para acordar cedo no dia seguinte e tentar fazer alguma coisa. Na minha folga eu faço faxina ou freelance. Eu levo vinte minutos a  pé para chegar em casa, mas já levei 1h30 de ônibus”. 

Entre as obrigações da rotina e a necessidade de complementar a renda durante o pouco tempo livre, grupos mais vulnerabilizados  acabam excluídos  da vida pública, o que gera ainda mais marginalização. É o que explica a professora do Departamento de Economia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Angela Welters: “No Brasil, há  desigualdades que têm recorte não  só de gênero, mas  de raça e classe. Como esse trabalhador vai se qualificar para ter um melhor posto de trabalho em uma escala 6×1? Tudo que se coloca como alternativa, pressupõe ter algum tempo livre. Você precisa disso para poder desfrutar de cidadania”. 

Outro argumento a favor da redução da escala é a possibilidade de criação de novas vagas de emprego formal, o que pode beneficiar especialmente mulheres negras. O grupo apresenta uma taxa de desemprego de 10,1%, enquanto a média nacional é de 6,9%, de acordo com a Relação Anual de Informações Sociais, de 2024. Apesar da rejeição entre empresários e parte dos congressistas, um estudo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) aponta para o potencial de criação de até 4,5 milhões de postos de trabalho, em um cenário de redução da jornada para 36h, com escala 4×3. 

Novas contratações também são uma forma de elevar a qualidade de vida dos funcionários já contratados, que relatam esgotamento e acúmulo de tarefas. “Nós estamos sobrecarregadas, as empresas não querem contratar mais pessoas e sobrecarregam as funcionárias com uma demanda muito grande de serviço, e nós ainda temos as demandas dentro de casa. Eu não tenho filhos, mas as minhas colegas que têm, chegam no trabalho sobrecarregadas”, conta  Ágatha. 

Exaustas e medicalizadas 

Vanessa Brasil também é coordenadora do VAT em Santa Catarina. Há nove meses é educadora popular, mas trabalhou na escala 6×1 desde os 16 anos. Ela lembra que o período, em que atuava como lojista principalmente, foi marcado pelo agravamento de sua saúde mental. “Eu tive burnout e depressão. Tentei  suicídio. Sou uma pessoa com transtorno de personalidade borderline e  tive várias crises de ansiedade e pânico. Trabalhei em uma loja de lingerie no Centro de Florianópolis e  sofri muito psicologicamente. Foi um dos maiores ápices do sofrimento mental para mim em relação à escala 6×1”, recorda.

A experiência relatada por Vanessa expõe um padrão mais amplo: a tendência de individualizar o sofrimento psíquico, como se ele fosse resultado exclusivo de falhas pessoais, e não de condições estruturais. A  pressão para  dar conta de tudo, por exemplo, é internalizada, gerando um sentimento de culpa nas mulheres, como explica a Mayhumi Kitagawa, psicóloga e fundadora da Sou Pagu, primeira clínica de psicologia feminista do Brasil. 

“Uma queixa que se traz muito na psicoterapia é ‘será que eu consigo fazer tudo isso?’. Às vezes é como se o erro fosse individual, como se a culpa fosse da mulher. Porque é um sistema que te coloca em um modo de vida que você nem vai perceber que isso é sistêmico”, aponta.

A psicóloga afirma ainda que no mundo moderno, é esperada das mulheres uma “dupla presença” – resultado do mito misógino de que elas devem ser capazes de trabalhar fora de casa sem deixar de lado os afazeres domésticos e familiares. Para abordar o  sofrimento psíquico causado por esse fenêmeno, segundo ela, é necessário uma perspectiva  feminista. “Todo sofrimento é psicossocial. Nós não somos indivíduos isolados, é interessante o quanto o meio e os territórios, experiências, códigos morais, política, tudo isso molda nossa forma de ser, adoece ou produz novas possibilidades”, diz Mayhumi.

Crédito: Fernando Dutra/CUT MG.

Com a crescente de diagnósticos e afastamentos por transtornos mentais – ambos com liderança feminina –  a utilização de remédios psiquiátricos passou a fazer parte da vida. Em uma pesquisa divulgada no ano passado pela Vidalink, que oferece planos de bem-estar para empresas, o uso de medicamentos como antidepressivos e ansiolíticos é mais comum entre profissionais da geração Z (nascidos entre 1997 e 2012) e millennials (1982 a 1996). Entre as mulheres, a dupla jornada, enfrentada por 44% das consultadas, é apontada entre os principais gatilhos para o consumo. 

“Falando em sintomas, isso chega também como burnout, transtorno de ansiedade e apatia. Esses sintomas são normais para uma sociedade anormal. O que acontece muito é que as mulheres se medicalizam para dar conta de seguir a rotina. Isso é um fator interessante, a medicalização da vida. Se medicalizar para viver em um sistema que é fracassado”, conclui a psicóloga. 

Ágatha Brum conta que já recorreu  à medicação para ansiedade e depressão, mas interrompeu o tratamento por não ter  tempo para ir ao médico e renovar as receitas.  Sem conseguir realizar consultas de rotina nem praticar  exercícios, ela descreve  a frustração: “No meu dia de folga eu sento e choro. Tô brincando. A escala 6×1 me impacta muito, eu não tenho ânimo. Às vezes eu me pergunto se vale a pena viver para trabalhar, pagar contas e dormir. Isso afeta minha saúde mental, porque eu não tenho tempo de estar com meus amigos e minha família. Eu prezo muito pela minha vida social, mas ela está praticamente extinta”. 

Políticas públicas para além da redução da jornada 

Com objetivo de reduzir as desigualdades de gênero e corresponsabilizar os setores público e privado pelo trabalho do cuidado , a Política Nacional de Cuidados no Brasil foi sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em 2024. Entre as ações prioritárias, o programa prevê o aumento do número de creches e escolas, promoção da igualdade salarial e empregabilidade de mulheres, além de ampliar direitos para trabalhadores do cuidado e atendimentos para idosos e pessoas com deficiência. 

Para especialistas, no entanto, a eficácia dessas políticas, assim como da redução da jornada de trabalho, está diretamente ligada à consolidação de uma rede pública de apoio. “Efetivamente, para que em uma escala 5×2 as mulheres possam desfrutar de algum lazer e descanso, é preciso um suporte com uma rede de cuidados pública, porque a maior parte da população brasileira não consegue arcar com cuidados privados”, contextualiza  a professora de economia Angela Welters, que também destaca a importância do aumento da licença-paternidade nesse cenário. 

Neste ano, o Governo Federal aprovou a Lei nº 15.371/2026, que amplia o benefício dos atuais cinco dias para até 20 dias, com implementação gradual até 2029, a partir de 2027. Ainda que distante do ideal, a medida também cria o chamado salário-paternidade, incorpora o benefício às regras da Previdência Social e amplia o acesso de trabalhadores ao afastamento remunerado. 

Outras  políticas como a construção de lavanderias e cozinhas comunitárias também recebem apoio federal. Marcadas por preconceitos, essas tarefas são invisibilizadas por ocorrerem  longe do espaço público e não serem reconhecidas pelo  mercado. Para combater esse estigma, Angela aponta para a necessidade de educação sobre equidade: “Temos que desnaturalizar essas atividades como atividades femininas e entender que o cuidado com o lar e os filhos deve ser algo compartilhado, não um favor que os homens estão fazendo pelas suas companheiras”.

Para Amanda Corcino, secretária da Mulher Trabalhadora da CUT, é importante que as mulheres ocupem espaços dentro de sindicatos e movimentos que discutem a diminuição da jornada de trabalho, para repensar a distribuição de tarefas e promover a valorização da vida da mulher. “Se não trouxermos essas questões, a redução não vai ter efeitos práticos para a nossa vida”, afirma. 

“Enquanto não se chega ao cenário ideal, o fim da escala 6×1 é um dos instrumentos para a sociedade proporcionar à mulher ter igualdade, justiça e qualidade de vida”, acrescenta. 

Enquanto a redução da jornada não chega, Ágatha segue apoiando as ações do VAT na rua e nas redes sociais com altas expectativas do que pode fazer quando tiver mais tempo livre.  “Trabalhar na escala 5×2 é um sonho. O dia que isso acontecer, vou conseguir descansar. No sexto dia da semana, vou trabalhar no meu segundo emprego, estudar e organizar a casa, e no sétimo dia, eu vou poder acordar um pouco mais tarde, ter um momento com a minha família e me dedicar a fazer esportes. Sempre tive o sonho de aprender a tocar piano e violino, e eu quero ter o prazer de fazer isso”, compartilha.

Próximos passos para aprovação 

Após o aval da CCJ, a proposta de emenda à Constituição segue para uma comissão especial, que deve discutir o mérito. Como definido pelo presidente da Câmara Hugo Motta (Republicanos-PB), as propostas de Erika Hilton e do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG) – que pede a redução gradual da jornada semanal ao longo de dez anos – devem avançar juntas. 

Em seguida, a pauta avança para a discussão no plenário, onde são necessários 308 votos em dois turnos para avançar ao Senado. Lá, deve repetir o mesmo processo, e se não houverem alterações na proposta, ela então é encaminhada para a sanção do presidente Lula (PT). 

Nesta sexta-feira, 1º de maio, centrais sindicais, movimentos sociais e Vida Além do Trabalho convocam atos por todo o país para marcar o Dia de Luta das Trabalhadoras e Trabalhadores . As manifestações devem ampliar a pressão popular pela aprovação do fim da escala 6×1. Em fevereiro deste ano, 73% dos brasileiros eram a favor da diminuição da jornada sem redução salarial, de acordo com a Nexus – Pesquisa e Inteligência de Dados

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