O Governo Federal anunciou o investimento de R$ 25 bilhões até 2027 para viabilizar o novo Plano Nacional de Cuidados, pilar central da iniciativa Brasil que Cuida. O programa visa estruturar uma rede pública nacional que reconhece o cuidado como um direito social e uma responsabilidade compartilhada entre o Estado, as famílias e a sociedade civil.

Apresentada em dezembro de 2025 pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, a estratégia reúne 79 ações intersetoriais. O público-alvo abrange desde a primeira infância até idosos e pessoas com deficiência, além de oferecer suporte direto aos trabalhadores do cuidado, remunerados ou não.

Alguns dos principais serviços e programas que compõem a nova rede:

  • Lavanderias Comunitárias: projetadas para reduzir a sobrecarga de tarefas domésticas, essas unidades contam com áreas de lavagem e secagem, salas multiuso e brinquedotecas. A unidade pioneira foi inaugurada em maio de 2025, em Caruaru (PE), e outras 17 estão em implementação em estados como Rio de Janeiro, Piauí, Ceará e Bahia. O acesso é destinado a inscritos no CadÚnico, mediante agendamento, e o serviço é aberto a todos os gêneros.
  • Cuidotecas: espaços de acolhimento noturno voltados a crianças de 3 a 12 anos, permitindo que os responsáveis deem continuidade aos estudos. Após a experiência inicial na Universidade Federal Fluminense (UFF), nove novas unidades foram aprovadas para capitais como Belém, Recife, Belo Horizonte e Fortaleza.
  • Expansão da educação infantil: o plano prevê a criação de 100 mil novas vagas em creches e o fortalecimento do ensino em tempo integral, garantindo suporte à primeira infância e facilitando a inserção dos responsáveis no mercado de trabalho.
  • Programa Mulheres Mil + Cuidados: originalmente criado em 2007, o programa foi revitalizado como eixo da Política Nacional de Cuidados. O foco atual é a qualificação profissional de trabalhadoras domésticas para o cuidado especializado de idosos, promovendo autonomia e inclusão produtiva.
  • Apoio especializado e domiciliar: o investimento contempla a expansão dos Centros-Dia, que oferecem atendimento assistido a idosos e pessoas com deficiência durante o período diurno, e o fortalecimento das redes de atendimento domiciliar, levando a assistência diretamente às residências.

O que é o trabalho do cuidado?

O trabalho do cuidado compreende um conjunto amplo de atividades essenciais à vida cotidiana. Envolve desde a preparação de alimentos e a manutenção do ambiente doméstico até o acompanhamento contínuo de pessoas que necessitam de apoio para viver com dignidade e autonomia.

Esse cuidado é direcionado, principalmente, a bebês, crianças, pessoas idosas, pessoas com deficiência e indivíduos em situação de vulnerabilidade, especialmente quando enfrentam dificuldades para realizar ações básicas como se alimentar, se locomover, utilizar serviços públicos, manter a higiene pessoal ou organizar a própria rotina.

A relevância social dessa pauta tema ganhou ainda mais visibilidade nacional quando ela foi tema da redação do Enem em 2023, ampliando o debate público sobre a distribuição desigual dessas responsabilidades. Em um dos textos de apoio, o Exame Nacional expõe:

“Em todo o mundo, o trabalho de cuidado não remunerado e mal pago é desproporcionalmente assumido por mulheres e meninas em situação de pobreza, especialmente por aquelas que pertencem a grupos que, além da discriminação de gênero, sofrem preconceito em decorrência de sua raça, etnia, nacionalidade e sexualidade.”

Economia do cuidado e pobreza de tempo

A economia do cuidado desempenha um papel estrutural no desenvolvimento do país. De acordo com o estudo “Quanto vale o amor materno? Apenas abraços e beijos?”, realizado em 2023 pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas, se o trabalho reprodutivo fosse formalmente contabilizado, ele representaria um acréscimo de 13% ao PIB brasileiro. Para estimar o valor econômico dessas atividades, a pesquisa utilizou uma metodologia de valoração baseada na média salarial de profissionais domésticos. 

A desigualdade no exercício do cuidado impacta diretamente a vida das mulheres, sobretudo daquelas em situação de pobreza. A sobrecarga limita a inserção no mercado de trabalho, dificulta o acesso a melhores cargos e rendimentos, reduz a autonomia financeira e aprofunda a chamada “pobreza de tempo” — a escassez de tempo livre que ocorre principalmente devido à sobrecarga de tarefas não remuneradas.

Para Nana Lima, cofundadora e diretora executiva da Think Olga, o Plano reconhece um tema que a organização discute há anos: a baixa — ou falta de — remuneração é agravada pela pobreza de tempo. Esse fenômeno cria uma barreira que impede mulheres, especialmente as cuidadoras e mães solo, de permanecerem no mercado de trabalho ou de investir em  sua formação.

Essa sobrecarga evidencia que a ausência de uma rede de apoio sólida, que inclua desde creches em tempo integral até políticas de cuidados para idosos, perpetua um ciclo de desigualdade de gênero. 

Nana destaca que é preciso celebrar as novas políticas de cuidado como um marco importante para enfrentar, de forma coletiva e articulada, desigualdades históricas, mas lembra que ainda existem desafios a serem superados.

“Além do orçamento e do planejamento, entendemos que será necessário engajar estados e municípios na adesão da política e na relevância do tema. Ferramentas de monitoramento e transparência são essenciais para que as populações acompanhem o que está sendo feito em suas cidades, bairros e comunidades”, ressalta.

Ela afirma ainda  que um dos medidores de sucesso da política seria a redução da carga horária de trabalho do cuidado dessas mulheres. 

No relatório “Esgotadas”, a Think Olga revela que a saúde mental das mulheres brasileiras é um reflexo direto da precariedade socioeconômica. Segundo o estudo, a falha financeira, a sobrecarga de tarefas e a insatisfação profissional são os principais motores de estresse. O levantamento destaca que 25% das mulheres que exercem funções de cuidado declaram estar insatisfeitas ou extremamente insatisfeitas com seu equilíbrio emocional.

Quem cuida de quem cuida? 

Sem apoio, a sobrecarga do trabalho do cuidado pode resultar em adoecimento. A psicóloga Irys Batista destaca que esse risco aumenta quando a responsabilidade não é compartilhada com familiares, pessoas próximas ou com a sociedade em geral, intensificando a solidão e o desgaste de quem cuida.

“O que se observa, com frequência, é que o trabalho do cuidado é associado apenas ao ‘amor’ ou à dedicação pessoal de quem cuida. No entanto, é necessário reconhecer que essas práticas constituem, sobretudo, atividades laborais, que exigem tempo, responsabilidade, competências e produzem impactos concretos na vida de quem as exerce”, afirma.

Esse cenário é explícito em outros estudos recentes, como o “Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça”, realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada em 2024. Ele aponta que, no Brasil, ser mulher significa dedicar, em média, 10 horas semanais a mais ao trabalho doméstico e de cuidado não remunerado em comparação aos homens.

Dados da Pesquisa Nacional sobre Trabalho Doméstico e de Cuidados Remunerados, realizada em 2025 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Ministério da Igualdade Racial, mostram que 94% das pessoas que exercem o trabalho de cuidado remunerado no Brasil são mulheres, sendo 69,9% mulheres negras, evidenciando a desigualdade estrutural que atravessa gênero e raça.

Atuando como psicóloga social no Sistema Único de Assistência Social (Suas), no Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), Irys constata que não é possível compreender o sofrimento psíquico sem considerar as intersecções de classe, raça, gênero e sexualidade. 

Nos grupos informativos sobre cuidado realizados no âmbito do CRAS de Campo Formoso (BA), onde a psicóloga atua, a demanda do público majoritariamente feminino evidencia quem está na linha de frente desse trabalho.

O diagnóstico de Irys é direto: “A invisibilização do trabalho do cuidado agrava o sofrimento psíquico dos cuidadores justamente porque aquilo que não é visto, reconhecido ou compartilhado tende a se tornar inexistente.”

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  • ariele-lima

    Natural de Juazeiro, sertão baiano. Estudante de Jornalismo em Multimeios pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), c...

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