Imagine entrar em um retiro de luxo cercado pela natureza, com sessões de ioga, detox, terapias estéticas e a promessa de encontrar a “melhor versão de si mesma”. À primeira vista, parece o lugar perfeito para descansar e se reconectar com o próprio corpo. No filme Virtuosas, dirigido por Cíntia Domit Bittar, esse refúgio VIP, no entanto, logo se revela um espaço de vigilância, confinamento e violência psicológica. 

A reviravolta pode ser lida a partir daquilo que Aristóteles chamou de peripécia, quando uma situação aparentemente favorável muda de sentido e revela seu avesso. O suspense, nesse caso, não serve apenas para provocar medo, ele nos coloca diante de uma questão incômoda: de que maneira os discursos contemporâneos de autoajuda e “empoderamento” individual podem se transformar em cercas invisíveis que aprisionam as mulheres?

Mas por que promessas de aperfeiçoamento nos atraem tão facilmente, a ponto de não percebermos o perigo? A ideia de propter nos, expressão em latim que significa literalmente “por causa de nós” ou “em razão de nós”, da pensadora jamaicana Sylvia Wynter, ajuda a compreender esse mecanismo: um modo de vida particular passa a ser apresentado como medida universal do que significa ser humano. 

No filme, isso aparece no perfil das mulheres que frequentam o retiro. Elas pertencem a uma classe social privilegiada, enquanto a promessa de “autoamor” é apresentada como um modelo universal de emancipação feminina, ficando de fora as desigualdades materiais, corporais e raciais que atravessam concretamente a vida das mulheres.

Isoladas de suas casas e voltadas para um esforço individual de “serem melhores”, elas entram em uma rotina de autoexploração apresentada como liberdade.

Virtuosas expõe as armadilhas por trás da figura da “mulher ideal”
Atriz Bruna Linzmeyer. Crédito: Olhar Filmes / Divulgação

Esse “nós” universal, que determina como uma mulher deve agir, vestir-se e comportar-se, está na própria estrutura que sustenta o retiro. A figura da “Mulher Virtuosa”, tão presente nas estruturas neopentecostais atravessadas pela Teologia do Domínio explicita essa mesma lógica: a produção de um modelo de mulher cuja virtude deixa de ser apenas uma qualidade moral e é medida pela forma como ela administra o corpo, o desejo e o comportamento, performando a figura da “mulher ideal”.

A autoridade de Deus e a liderança espiritual se articulam para fazer desse projeto de poder algo natural, divino e inquestionável.

É nesse ponto que aparece o que Wynter chama de evidência pré-reflexiva, quando a dominação se torna tão naturalizada que deixa de ser reconhecida como tal. Os operadores da Teologia do Domínio e aqueles que defendem a vigilância moral das mulheres conservadoras não se percebem como opressores.

Domesticar o comportamento feminino, reprimir o desejo e policiar o corpo da mulher aparecem, para eles, não como formas de violência, mas como expressões de amor, proteção e responsabilidade sagrada diante de Deus.

A opressão se incorpora de tal maneira que passa a ser vivida pelas próprias mulheres como um dever moral e estético em relação ao seu bem-estar e à sua salvação.

Aos poucos, aquilo que parecia uma escolha começa a revelar suas condições. Uma das personagens percebe que o cuidado oferecido pelo retiro também é uma forma de controle.

É esse o momento que Aristóteles chama de agnição, o reconhecimento. Ela havia entrado ali acreditando que estava escolhendo livremente cuidar de si mesma e buscar a sua “melhor versão”. 

Quando o cativeiro moral e físico se torna evidente, ela se dá conta de que o discurso do “autoamor” funcionava como uma armadilha, fazendo com que aceitasse voluntariamente um espaço de aprisionamento e controle de sua conduta. 

A força desse momento do filme está justamente no encontro entre agnição e peripécia. O terror e a compaixão provocados pela história não vêm apenas da violência que vemos na tela, mas do reconhecimento de que também podemos ser conduzidos por armadilhas sociais apresentadas como boas intenções. 

O que parecia escolha revela-se controle; o que parecia cuidado revela-se vigilância; o que parecia liberdade já continha as condições da própria submissão.

É nesse sentido que Virtuosas funciona como um espelho incômodo. Ao levar ao extremo a experiência de um retiro que se transforma em cárcere, o filme dramatiza algo que pode assumir outras formas na vida cotidiana: a transformação de determinadas normas em desejos individuais, a emancipação e a verdadeira autonomia não são mercadorias disponíveis no mercado, nem resultados de um esforço puramente individual, diante das opressões invisíveis produzidas pelo “nós” hegemônico.

A saída não está no individualismo, mas na solidariedade coletiva, no questionamento das normas que procuram nos classificar e na disposição de recusar as antigas e novas morais silenciosas que nos são impostas.

Como sugere Sylvia Wynter em seu chamado à expansão radical do pensamento humano, é preciso construir uma nova poética do ser, capaz de recusar a ideia de que o sofrimento das pessoas possa ser tratado como um custo aceitável para a preservação de dogmas religiosos, morais e econômicos.

Somente quando formos capazes de reconhecer a dor e a humanidade do outro em sua concretude, sem submetê-lo às categorias que o dividem entre virtuosos e desviantes, poderemos romper as engrenagens invisíveis da dominação. 

APOIE O JORNALISMO INDEPENDENTE


Fazer uma matéria como essa exige muito tempo e dinheiro, por isso precisamos da sua contribuição para continuar oferecendo serviço de informação de acesso aberto e gratuito. Apoie o Catarinas hoje a realizar o que fazemos todos os dias!

CONTRIBUA COM QUALQUER VALOR NO PIX
  • Jeane Rinque

    Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UFRJ - Professora Filosofia - INTEGRAR - Projeto Educação Popular...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Últimas