A partir de relatos de vida e experiência, o documentário “Memórias de Pescador: histórias de tradição e resistência na Costeira do Pirajubaé” mostra os impactos da expansão urbana de Florianópolis (SC), mas também celebra os conhecimentos da comunidade tradicional de pescadores. A estreia ocorre nesta sexta-feira (18), no Museu de Florianópolis, às 18h, com entrada grátis. A classificação é livre.

A Reserva Extrativista da Costeira do Pirajubaé (Resex) é a primeira reserva extrativista marinha do Brasil, criada em 1992. Protagonistas e guardiões dos saberes, fazeres, práticas de pesca, culinária e tradições locais que compõem a identidade cultural da comunidade tradicional e da própria ilha de Florianópolis, os pescadores falam de herança familiar e registram a resistência para manter seus modos de vida diante das transformações em seu território e das ameaças ainda presentes. 

“Eu nasci ali e já começo a pescar desde a idade de uns oito anos, junto com o falecido meu pai, que a gente fazia pegada pra camarão. E depois eu comecei a tirar berbigão, a descascar, a vender, né? Esse era o nosso meio de sobrevivência. E nós sobrevivemos até dois mil e doze. (…) Antigamente os pais da gente diziam que isso aí era um patrimônio, um patrimônio de pai para filho. Hoje não dá mais para contar”, relata Frutuoso Genesio Lopes, pescador artesanal, durante o documentário. 

Produção

Desenvolvido por uma equipe de quatro mulheres, sendo três jornalistas e uma articuladora com a comunidade, filha de pescador, o projeto foi viabilizado pela Lei nº 15.503, de 29 de junho de 2011.

Para entender os processos que atingiram a população tradicional de pescadores, também foram entrevistados o geólogo e professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Luiz Fernando Scheibe; o filho de pescador e ex-conselheiro da Resex do Pirajubaé Celso Botelho; o engenheiro agrônomo e ativista Marcos José de Abreu; a analista ambiental do Instituto Chico Mendes – ICMBio Dayani Guero; e a oceanógrafa e professora da UFSC Alessandra Fonseca. 

Cartaz de lançamento. Crédito: Memórias de pescador/ Divulgação

Segundo Inara Fonseca, que assina a produção e o roteiro do documentário junto com Morgani Guzzo, a ideia inicial do projeto surgiu ainda em plena pandemia, a partir da necessidade de dar visibilidade à história dos pescadores tradicionais da Resex do Pirajubaé, que há décadas enfrentam um processo de apagamento de seus modos de vida e sucessivas injustiças. 

“Assim que cheguei em Florianópolis, entrei em contato com a realidade dos pescadores da Resex do Pirajubaé. Em 2020, convidei a Morgani para pensarmos um projeto de pesquisa que pudesse colaborar para visibilizar os saberes e fazeres da comunidade”, narra.

Cinco anos de registro de memórias e tradição

Morgani Guzzo destaca que o registro das memórias dos pescadores vem ocorrendo desde 2021, por meio de pesquisa científica e um podcast.

“Apesar de nosso trabalho, em 2021, envolver a produção de artigo científico e de comunicação por meio de blog e rede social, com textos e fotos, algumas das entrevistas já tinham sido gravadas em vídeo”, recorda. O material de acervo foi utilizado durante a produção do documentário. 

“Isso foi fundamental para desenvolvermos o documentário agora em 2026, já que tínhamos em mãos entrevistas com pescadores tradicionais, reconhecidos por sua história e contribuição para a comunidade, que faleceram daquela época para cá. Para nós, é uma enorme responsabilidade e, também, uma realização possibilitar que as histórias desses pescadores sejam conhecidas por um público mais amplo”, conta.

Para Morgani, o projeto foi tão mobilizador em 2021 que o desejo de desenvolver novas abordagens e apresentar de outras formas essa história se manteve latente. 

“Naquela época, eu já entendia que precisávamos, de alguma forma, documentar os modos de vida de uma população que há anos tem sofrido com o descaso das instituições. Os pescadores são testemunhas das transformações provocadas pelo avanço da urbanização nessa região a partir dos anos 1970. E o que eu queria desde o início, e que agora se materializa no documentário, era ajudar a visibilizar que a pesca artesanal permanece e que os pescadores seguem resistindo diante dos impactos da expansão urbana sobre a paisagem cultural e natural de Florianópolis”, relata Inara.

Ilha Invisível

Em 2021, a reportagem “Ecocídio atinge população tradicional de pescadores, em Florianópolis”, publicada no Catarinas, mostrou que grandes obras como a construção da Via Expressa Sul, como é conhecida a Rodovia Governador Aderbal Ramos da Silva, trecho da SC-401, e a instalação da Estação de Tratamento de Esgoto no Rio Tavares ameaçam a Resex do Pirajubaé e o meio ambiente.

Dois anos depois, o Catarinas lançou o podcast “Ilha Invisível”, que trata da injustiça ambiental e climática envolvendo a comunidade tradicional de pescadores artesanais da Baía Sul de Florianópolis. A produção narra em três episódios os impactos da construção da Via Expressa Sul. A proximidade da obra com a Resex do Pirajubaé provocou danos ambientais e alterou a dinâmica marinha, provocando a diminuição de muitas espécies de peixes e mariscos comuns na região.

Serviço:

Lançamento do documentário

Data: 18 de setembro de 2026

Hora: 18h 

Local: Museu de Florianópolis

Cine Clube Pátria Grande

Data: 19 de setembro de 2026

Hora: 18h 

Local: Pista de Skate da Costeira do Pirajubaé

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