Isso não é um manual. Mas, caso precise…

Em 1851, Sojourner Truth fez uma pergunta que atravessaria gerações: “E eu não sou uma mulher?”. Em meio a um debate sobre os direitos das mulheres, sua pergunta expunha uma contradição que ainda nos interessa: falar de “mulheres”, como se essa fosse uma experiência única que pudesse esconder desigualdades profundas entre elas. 

Quase dois séculos depois, diante de uma urna, talvez seja preciso fazer outra pergunta: qual mulher estamos escolhendo?

Os dados eleitorais ajudam a entender por que essa pergunta importa. Em 2026, o número de candidaturas femininas à Câmara dos Deputados caiu 24% em relação a 2022, passando de 3.717 para 2.820.

Nas disputas para os governos estaduais e o Distrito Federal, também houve redução: são 34 candidatas entre 198 concorrentes, ante  38 em 2022. Nas eleições gerais daquele ano, as mulheres representaram 34% das candidaturas, mas apenas 18% das pessoas eleitas, totalizando apenas 311 mulheres entre os eleitos.

Mas contar mulheres não basta. Quando a raça entra na análise, a fotografia da representação muda. Em 2022, entre as candidatas, as mulheres brancas eram maioria, seguidas por pardas, pretas, amarelas e indígenas.

Portanto, não se trata apenas de perguntar quantas mulheres estão na disputa, mas quais mulheres chegam a ela, em que condições e quais conseguem transformar candidatura em poder institucional.

Essa desigualdade também aparece nas condições de permanência na política. A violência política de gênero é reconhecida legalmente desde 2021 pela Lei nº 14.192, que estabelece normas para prevenir, reprimir e combater a violência política contra as mulheres. 

A experiência da Plataforma VIVA, desenvolvida pela Elas no Poder, evidencia que o enfrentamento não pode depender apenas da responsabilização posterior: partidos também precisam construir mecanismos internos de prevenção, denúncia e resposta.

O protocolo elaborado pela iniciativa incorpora, inclusive, uma matriz de risco que considera raça e gênero.

A violência não é a única barreira para as mulheres

Os dados e experiências reunidos pela Plataforma VIVA apontam para mecanismos institucionais que podem limitar a participação e a permanência das mulheres, enquanto diferenças no acesso a recursos também afetam as condições de competição eleitoral. Em outras palavras, chegar à urna como candidata já é resultado de uma trajetória construída em um campo político desigual.

É nesse ponto que a pergunta sobre como escolher uma candidata ganha outra dimensão. A resposta não pode ser simplesmente “vote em mulheres”. Uma democracia representativa não se constrói apenas pela quantidade de mulheres eleitas, mas também pelo que elas fazem com os espaços que ocupam.

Uma candidata pode representar uma categoria profissional, um território, uma população específica ou uma determinada agenda; depois de eleita, porém, participará de votações, comissões, proposições e decisões que ultrapassam sua pauta principal.

O monitoramento de proposições legislativas da Elas no Poder ajuda a observar essa dimensão. A produção legislativa relacionada a gênero não está restrita a um único tema: envolve diferentes questões e inclui, entre outras, proposições sobre violência doméstica. 

E há uma questão fundamental: nem toda proposta que mobiliza a ideia de gênero representa necessariamente avanço de direitos. O termo pode aparecer tanto na construção de políticas de equidade quanto em discursos que reivindicam uma suposta igualdade para contestar medidas destinadas a enfrentar desigualdades históricas.

Por isso, escolher uma candidata exige mais do que reconhecer uma identidade.

É preciso perguntar: qual é a sua trajetória? O que ela defendeu antes da campanha? Quais são suas propostas? Com quem construiu sua atuação política? Quem financia e sustenta sua candidatura? Como raça, gênero e território aparecem ou não aparecem em seu programa? E, principalmente, o que pretende fazer com o poder que está disputando?

Isso vale para todas as candidaturas, mas não significa ignorar que mulheres diferentes chegam à política em condições diferentes. Uma mulher negra não atravessa necessariamente os mesmos caminhos de uma mulher branca para chegar ao mesmo espaço de poder. 

Por isso, incorporar raça à análise não significa escolher automaticamente uma candidata pela sua identidade. Significa reconhecer que representação também é uma disputa sobre quem pode falar, ocupar espaços de decisão e produzir políticas a partir de experiências historicamente sub-representadas.

Não existe uma fórmula capaz de transformar uma escolha eleitoral em uma decisão perfeita. Isso não é um manual. E talvez nem devesse ser. Mas, caso precise de um ponto de partida, vale começar fazendo perguntas.

Sojourner Truth perguntou: “E eu não sou uma mulher?”. Hoje, talvez seja necessário perguntar também: qual mulher estamos escolhendo e o que esperamos que ela faça com o poder que receber?

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  • Pesquisadora na área de projetos da Elas no Poder. Mestra em Estudos Comparados sobre as Américas e pesquisa as relações...

  • Pesquisadora na área de projetos da Elas no Poder. Mestre em Sociologia e Antropologia com foco em relações raciais e hi...

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