Vinte anos após seu término, o primeiro programa inteiramente dedicado ao hip-hop em Santa Catarina chega às telas de cinema. O curta-metragem “Nação Hip Hop: Cultura de Rua”, dirigido por Laia Orisa, resgata a trajetória da atração de mesmo nome, exibida entre 2001 e 2006, pelas emissoras TV Cultura SC e TV Bandeirantes SC. A produção teve pré-estreia em Florianópolis, em julho, e acumula seleções para ao menos dez festivais nacionais e internacionais, em países como Itália, Portugal, Estados Unidos e Colômbia.

O curta reúne relatos de sete integrantes do movimento hip-hop catarinense dos anos 2000, além de depoimentos de personalidades como o comunicador Edsoul e o rapper MV Bill, que ajudam a reconstruir o contexto e as bases que sustentaram a iniciativa.

Entre os personagens dessa história está Jupira Dias, única mulher na equipe do programa de TV e produtora executiva do documentário.

Em entrevista ao Catarinas, ela conta que sua relação com os bastidores da cultura começou cedo. Filha de produtor cultural, aos 12 anos já trabalhava na organização de shows e bilheterias. Como os eventos eram voltados para o público adulto, passou a buscar manifestações artísticas que dialogassem diretamente com a sua geração.

Foi nesse contexto que, aos 15, ingressou no hip-hop. Nos anos 2000, manifestações culturais periféricas como o reggae e a própria cultura de rua ganharam força em diferentes regiões do país, embora ainda tivessem pouca visibilidade em Santa Catarina. Atraída pela música e pelo grafite, arte que chegou a praticar por um tempo, Jupira encontrou nesse universo o espaço ideal de identificação e expressão da juventude.

Na entrevista, ela analisa o processo de preservação da memória do programa, debate a inserção de pautas da periferia na grade dos canais abertos, avalia o papel do hip-hop na formação cidadã catarinense e compartilha as perspectivas de ter ocupado um espaço de decisão sendo a única mulher da equipe. Confira.

Como surgiu a ideia de colocar o movimento hip-hop na TV aberta? Quais foram as maiores barreiras que vocês enfrentaram para viabilizar um projeto tão inovador na época?

Quando a gente começou a fazer o programa e os eventos de hip-hop aqui em Santa Catarina ficamos, por volta de um ano ou mais, ensinando para as pessoas o que era hip-hop. ​Todo projeto que a gente apresentava, tanto para as empresas para conseguir patrocínio ou para liberação de espaço, para qualquer coisa, fazíamos uma cartilha explicando o que era o movimento. 

Nessa mesma época, soubemos da existência do o YO! MTV Raps, que era na TV fechada, mas que falava sobre o hip-hop em outro formato. Então, tivemos a ideia de fazer um programa de TV, mas com esse objetivo didático mesmo. Porque ouvíamos muito que esse movimento não existia. Às vezes confundiam somente com rap, somente com grafite. Ficamos muitos anos ensinando e repetindo: “Olha, o hip-hop é isso, o hip-hop é aquilo”. 

​Fizemos um primeiro programa na TV Cultura, ligada à TV UFSC, mas sabíamos dos limites, algumas pessoas não conseguiam acessar. Então fomos atrás de colocá-lo em uma TV aberta, para que mais pessoas tivessem acesso e para que a gente pudesse dialogar mais. Claro, depois desse tempo fomos para outras vertentes, fomos disseminar a cultura em geral, não [necessariamente] para ficar explicando o que era, mas fortalecer essa cultura.

No documentário, você aparece como a única mulher daquele grupo pioneiro retratado. Ao mesmo tempo, era a produtora e apresentadora do programa, responsável por uma parte fundamental de sua realização. Como era exercer esse protagonismo em um ambiente historicamente dominado por homens?

Nos anos 1999, 2000, não tínhamos referências mulheres. A maioria das meninas acabava cantando as letras dos homens, elas não tinham esse posicionamento. Hoje em dia, ainda bem, a gente tem outro posicionamento. 

​Naquela época, fiz parte de um grupo masculino onde era a única mulher, depois montei um grupo feminino, mas vi que não rolava essa questão de ter a mesma agenda, né? Santa Catarina já tem uma dificuldade muito grande com os movimentos culturais, ainda mais falando de rap, ainda mais falando de rap de uma mulher, de uma mulher branca. Enfim, eram possibilidades bem difíceis de serem alcançadas. 

​E aí quando me tornei mãe, que foi muito cedo, com 17 anos, ficar à frente do programa, à frente da produção, da edição, da organização foi muito natural para mim. Porque eu pensei: “Cara, eu preciso sobreviver. Eu preciso criar minha filha.” 

Muitas vezes, fazia a pauta, a direção, a edição, a própria gravação. Às vezes, quando o Edsoul não podia apresentar, eu apresentava. O importante era ser feito. Porque para mim, naquele momento, era a minha sobrevivência, né? Então, tinha que ser feito. 

Trabalhei bastante tempo com homens ao meu redor nessa época. Você acaba se enrijecendo um pouco mais. Tendo um olhar mais resolutivo. Acho que [esse tipo de experiência] traz isso para algumas mulheres e foi o que aconteceu comigo.

Como você avalia a presença e o protagonismo das mulheres no hip-hop hoje em dia? O que mudou desde que você começou?

​Hoje em dia eu vejo que tem ambientes para todas essas mulheres. Para a que é mais resolutiva, para a que quer expressar mais a arte. Ainda precisamos de mais, claro.

O que acho muito importante falar em relação ao hip-hop catarinense é que, depois de eu ter trampado no programa, tive contato com várias meninas que fazem rap, que são produtoras, organizadoras e que fazem, mais ou menos, o que eu fazia naquela época. E é muito importante essa valorização da mulher dentro do hip-hop catarinense, sabe? 

No Brasil todo, mas no catarinense principalmente. O nosso estado é super difícil de trabalhar cultura. Quando se trata de uma cultura periférica, negra, é mais complicado ainda. Hoje trabalho com mulheres negras, mas em outra vertente, e vejo a dificuldade que elas têm. 

​Depois de 25 anos, as mesmas dificuldades, de formas diferentes, ainda se apresentam.

Em uma época sem redes sociais e plataformas digitais, como o programa Nação Hip Hop ajudava a articular a cena local e dar visibilidade a artistas?

Nos anos 2000, já tínhamos internet, mas era muito limitada. Basicamente para e-mails, então tudo era pelo telefone. E, se tratando de hip-hop, às vezes nem por telefone, porque muitas pessoas não tinham celular.

Era tudo presencial. Por exemplo: “Se a gente fosse fazer uma gravação no morro tal, tínhamos que falar com tal pessoa, depois tinha que ir novamente para confirmar se estava tudo OK com aquela gravação”. Então, ficávamos muito na rua, fazendo essa organização.

Naquela época o hip-hop era isso. Ele era literalmente na rua. Era onde a gente se encontrava, gravava o programa, organizava pautas e agendas. E as próprias pautas iam mudando, sabe?

Ele também foi o programa que mais recebia cartas na Band na época. Do estado todo, de pessoas que estavam presas, pessoas que estavam em liberdade reduzida ou liberdade assistida. Temos até hoje muitas cartas dando recados e fazendo pedidos.

E a gente atendia. Ele [o programa] realmente se moldava por demandas externas. ​Era muita loucura, porque o programa era uma vez por semana e, se determinada pauta não desse certo, não tinha o programa. 

A comunicação era muito mais difícil. O esforço era gigantesco para manter essa organização semanal. A gente tinha que ter sempre uma carta na manga. 

O documentário resgata uma história que, durante muito tempo, ficou registrada apenas em fitas e na memória de quem viveu aquele momento. Como foi reencontrar esse material e ver essa trajetória finalmente chegar ao cinema?

Quando as fitas chegaram e a gente começou a ver esse material, falamos: “Cara, que loucura, a gente trabalhou para caramba”. 

Porque, para algumas pessoas que não sabem, em meio ao programa aconteciam outros projetos paralelos. Quando você via: “Ah, vai ter cobertura do show dos Racionais”, era porque a gente tinha realizado o show dos Racionais. Tinha a produção do show, além da produção do programa. “Ah, [vai ter] lançamento do filme Carandiru”, era porque a gente tinha feito um evento com a exibição do filme, trazendo convidados de fora, para depois passar esse evento no programa.

Nunca foi só uma coisa. Tinha o programa, festival de basquete de rua, show de rap, o próprio projeto Cinema na Favela, projetos de grafite, etc. Eram vários projetos acontecendo paralelamente ao programa.

No documentário, tem uma parte que eu falo que a gente tinha várias funções. E era de fato isso. Eu nunca fui somente produtora do programa.

​E aí, quando a gente viu isso documentado nas fitas, o registro físico, visual, lembro que falei: “A gente trampou muito. A gente trabalhou muito. Fez muita cultura, muito projeto, insanamente”. Não sei se hoje conseguiríamos fazer novamente.

Deu uma nostalgia muito legal. Quando o programa acabou, ficou aquela dúvida: “Será que foi tudo isso? Será que a gente conseguiu passar tudo o que a gente gostaria?”. Mas aí, quando chegaram as fitas para fazer o documentário, a gente falou: “Cara, a gente fez tudo o que a gente pôde. E é isso!”.

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  • ariele-lima

    Natural de Juazeiro, sertão baiano. Estudante de Jornalismo em Multimeios pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), c...

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