Criada na Baixada da Sobral, maior bairro periférico do Acre, Hellen Lirtêz, jornalista socioambiental e co-fundadora da Coalizão de Jornalistas Negras e Indígenas, compreendeu muito cedo que os fenômenos climáticos não afetam todas as pessoas da mesma maneira. O divisor de águas na sua visão sobre o problema aconteceu durante a preparação para o vestibular, quando uma chuva forte destelhou sua casa e destruiu todo o seu material de estudo.

​A perda dos livros na reta final do exame poderia parecer uma fatalidade provocada pelo clima. Mas a experiência de Hellen com as carências de seu próprio território permitiu que ela reconhecesse a dimensão política do episódio:

​“Não era culpa da chuva. Era culpa da falta de adaptação climática e mitigação por parte do Estado, que não preparava os moradores nem a infraestrutura para possíveis desastres. Isso moldou minha visão”, pontua.

​O relato da jornalista está presente no documentário “O Clima tem Cor”, produzido por Júlia Modesto e Andreia Luiza e sintetiza uma lacuna histórica do país. Hoje, a ciência já consegue antecipar crises com alto grau de precisão. O Centro de Previsão Climática da NOAA, por exemplo, aponta uma probabilidade de 75% de o El Niño entre o final de 2026 e início de 2027 figurar entre os mais intensos desde 1950, agravado pelo aquecimento recorde dos oceanos.

​No Brasil, os impactos desse cenário já se desenham em diferentes regiões: o Norte sob alerta de queimadas e vazantes históricas, o Nordeste com reservatórios em queda e o Centro-Sul enfrentando severa seca no solo, segundo dados do ClimaInfo.

Prever não basta: como o Brasil pode se preparar para eventos climáticos extremos
População brasileira afetadas por eventos extremos em 2026. Crédito: ClimaInfo/ Reprodução.

​As ferramentas de monitoramento mostram que prever os eventos extremos é uma meta alcançada. O verdadeiro desafio está no passo seguinte: transformar diagnósticos em planejamento, obras de contenção e proteção social.

​Em um ano decisivo de eleições, a pergunta central que se impõe nos planos de governo vai além do mapa do risco. Se a ciência já avisa o que vai acontecer, quais medidas concretas são necessárias para garantir justiça climática para todas as pessoas?

Justiça climática como ponto de partida

Justiça climática é o conceito que trata o aquecimento global não apenas como um problema ambiental ou físico, mas também como uma questão ética, política e de direitos humanos. Populações periféricas, povos indígenas, comunidades quilombolas e mulheres de baixa renda estão mais vulneráveis a problemas como falta de saneamento, ilhas de calor urbanas e deslizamentos de terra. 

Por exemplo, um relatório elaborado pela Iniciativa Spotlight, parceria global entre a Organização das Nações Unidas (ONU) e a União Europeia, mostra que cada aumento de 1°C na temperatura média global provoca uma elevação de 4,7% nos episódios de violência entre parceiros íntimos. 

As projeções indicam que um aquecimento de 2°C adicionará cerca de 40 milhões de vítimas anuais até 2090. Mulheres com deficiência, idosas ou que fazem parte da comunidade LGBTQIAPN+ também sofrem riscos sobrepostos, com acesso limitado a serviços e abrigos.

Em crises humanitárias, a vulnerabilidade se soma à intensificação do trabalho de cuidado, majoritariamente assumido pelas mulheres. Para Taís Serra Montani, internacionalista e co-diretora de pesquisa da EmpoderaClima, pressionadas a estarem na linha de frente em eventos extremos, as mulheres podem sofrer maiores dificuldades psicológicas vinculadas ao estresse pós-traumático.

“Quando falta água, alimento ou serviços públicos deixam de funcionar, são muitas vezes as mulheres que assumem uma carga ainda maior dentro de casa. Isso reduz o tempo disponível para estudar, trabalhar e gerar renda. Em muitos lugares, meninas também podem acabar deixando a escola para ajudar nas tarefas domésticas ou contribuir com a renda da família”, afirma Taís. 

“Ao mesmo tempo, mulheres que trabalham na informalidade ou em empregos mais precários têm menos proteção quando perdem sua fonte de renda”, completa. 

Essa sobrecarga também revela uma contradição: embora mulheres assumam parte significativa do cuidado e das respostas cotidianas diante das crises, sua participação ainda é limitada nos espaços onde são definidas as políticas para enfrentá-las. Na governança climática, seguem sub-representadas na formulação de estratégias de mitigação, adaptação e financiamento. 

Para Luísa Buogo, Internacionalista e Diretora de Relações Institucionais na EmpoderaClima, não existe uma agenda climática mais justa sem ampliar a presença de mulheres nos processos de decisão. 

“Também é fundamental valorizar as tecnologias sociais, os conhecimentos locais e as soluções que já vêm sendo construídas por essas mulheres em seus territórios”, enfatiza. 

Candidatas feministas defendem prevenção, proteção social e justiça climática

A justiça climática também atravessa as propostas das candidatas feministas que responderam ao formulário publicado pelo Catarinas dentro da cobertura especial Imaginar juntas o Bem Vive. 

As respostas partem do reconhecimento de que os impactos da crise climática são desiguais e articulam prevenção de desastres a políticas de moradia, saúde, segurança alimentar e hídrica, proteção social e renda. 

Parte das candidaturas incorpora gênero, raça e território diretamente às medidas. Lídia Moura (PSB-PB), candidata a deputada federal, defende que mulheres tenham prioridade nos planos de adaptação e transição ecológica, com alertas, abrigos seguros e Defesa Civil estruturada. 

Kerexu Yxapyry (PT-SC), também candidata à Câmara, propõe políticas voltadas a mulheres indígenas, negras, quilombolas, ribeirinhas, pescadoras e agricultoras, combinando proteção dos territórios, segurança hídrica e alimentar, saúde, moradia e renda com o fortalecimento de soluções produzidas pelas próprias comunidades.

Cida Pedrosa (PCdoB-PE), candidata a deputada estadual, defende que gênero seja um princípio transversal das políticas ambientais e que os planos para enchentes, abrigos e outras emergências incluam medidas específicas para mulheres e meninas. 

Já Gleice Jane (PT-MS), candidata à Assembleia Legislativa, defende uma política estadual voltada a mulheres e meninas em emergências climáticas, com ações de prevenção, acolhimento e enfrentamento às violências. A proposta também prioriza mulheres, povos indígenas, comunidades tradicionais e populações periféricas nas políticas de segurança hídrica e alimentar, saúde, moradia e resposta a eventos extremos.

Ao articular prevenção e adaptação com moradia, renda, cuidado, saúde e proteção social, as propostas recebidas apontam para diferentes respostas que levam em consideração os territórios mais suscetíveis a desastres, as populações mais expostas e as condições necessárias para que possam se proteger e reconstruir suas vidas.

Perigo, exposição e vulnerabilidade

O estudo Climate change and El Niño behind extreme precipitation leading to major floods in southern Brazil in 2024, publicado na revista científica Nature, discute que o risco geral de uma catástrofe como a que ocorreu no Rio Grande do Sul depende de três fatores cruciais: perigo, exposição e vulnerabilidade. 

De acordo com a pesquisa, “embora existam leis de proteção ambiental no Brasil para resguardar os cursos d’água contra construções e limitar mudanças no uso do solo, elas não são aplicadas ou fiscalizadas de forma consistente, levando à ocupação desordenada de áreas suscetíveis a alagamentos e, consequentemente, elevando a exposição de pessoas e da infraestrutura aos riscos de inundação”. 

Autores como Nilson Cesar Fraga denunciam a chamada “indústria da enchente”, conceito que questiona a forma como desastres recorrentes são tratados pelo poder público como fatalidades naturais e imprevisíveis, em vez de problemas que exigem prevenção. Romper com essa lógica passa por incorporar fenômenos como o El Niño ao planejamento de longo prazo. 

Propostas dos presidenciáveis

Em meio ao período eleitoral, cabe observar o que os candidatos à Presidência apresentam para preparar o país para eventos climáticos extremos e reduzir a exposição e a vulnerabilidade da população. Confira, em ordem alfabética, as propostas dos 12 presidenciáveis relacionadas à prevenção de desastres, adaptação e crise climática: 

  • Augusto Cury (Avante): a agenda climática inclui prevenção e adaptação a eventos extremos, com infraestrutura resiliente, ampliação do seguro rural e uso de tecnologia para monitorar riscos;
  • Clariana Barão (DC): o plano de governo aborda infraestrutura e energia, mas não apresenta medidas específicas de adaptação às mudanças climáticas ou prevenção de eventos extremos;
  • Edmilson Costa (PCB): propõe sistemas de alerta para tempestades e temperaturas elevadas, oferta de água potável e refrigeração em transportes, escolas e unidades de saúde, além de combate ao desmatamento, reflorestamento e recuperação de nascentes e outros ecossistemas;
  • Flávio Bolsonaro (PL): prevê reservatórios para controle de cheias, diques, canais, obras de drenagem e macrodrenagem, além do fortalecimento do monitoramento, dos sistemas de alerta e da resposta da Defesa Civil. O programa não apresenta uma política estruturada de adaptação às mudanças climáticas;
  • Hertz Dias (PSTU): propõe planos de prevenção de enchentes e deslizamentos, recuperação de áreas desmatadas e rejeição à exploração de petróleo na Margem Equatorial;
  • Luiz Inácio Lula da Silva (PT): prevê investimentos em prevenção e redução de riscos de desastres, sistemas de alerta, adaptação dos territórios e infraestrutura urbana;
  • Renan Santos (Missão): prevê ampliar o monitoramento por satélite e investir em energia limpa e hidrogênio verde. O programa não detalha medidas de prevenção e resposta a eventos climáticos extremos;
  • Ronaldo Caiado (PSD): concentra as propostas relacionadas ao clima na implementação do Código Florestal, combate ao desmatamento e à grilagem, mercado de carbono e pagamento por serviços ambientais;
  • Romeu Zema (Novo): propõe investimentos em infraestrutura de contenção, monitoramento e resposta a desastres, recuperação de reservatórios e barragens e drenagem urbana para reduzir riscos de enchentes e deslizamentos. 
  • Rui Costa Pimenta (PCO): não apresenta propostas específicas para enfrentar a crise climática, reduzir emissões ou prevenir e mitigar os impactos de eventos extremos;
  • Samara Martins (UP): propõe obras de drenagem, contenção de encostas, parques lineares, recuperação de rios e reassentamento de famílias que vivem em áreas de risco;
  • Wilson Grassi (Democrata): propõe adaptação climática com foco na Defesa Civil e na proteção de animais em desastres, além do combate ao desmatamento ilegal.

Vote pelo clima 

A iniciativa “Vote pelo Clima” é promovida pelo Instituto Clima de Política em parceria com dezenas de organizações da sociedade civil. A plataforma suprapartidária busca aproximar o eleitorado de candidaturas que assumem compromissos reais com a agenda climática e de prevenção a desastres. 

É possível aplicar filtros para, por exemplo, descobrir quais candidaturas trabalham o clima em intersecção com gênero e raça. Dentro desse recorte, são 110 candidaturas mapeadas até 1º de outubro.

Acesse a plataforma.

O impacto não é igual para todas

Uma resposta climática efetiva precisa considerar a diversidade de corpos e realidades. Essa perspectiva aparece na HQ “Nem na enchente, nem no esquecimento”, do Coletivo Feminista Helen Keller. 

Em quadrinhos, a publicação ilustra as barreiras enfrentadas por pessoas com deficiência e mulheres vulneráveis durante as cheias no Sul e mostra que o problema não é só a tempestade, mas também a falta de abrigos adequados e de suporte público no pós-desastre.

​Mesmo sendo as mais afetadas, são as mulheres que lideram a recuperação nos territórios. Elas garantem o alimento, o acolhimento e a organização das famílias quando tudo colapsa. Esse peso, que se intensifica diante de uma emergência, precisa ser considerado nas respostas aos desastres climáticos. 

Prever não basta: como o Brasil pode se preparar para eventos climáticos extremos
HQ “Nem na enchente, nem no esquecimento”. Crédito: Coletivo Feminista Helen Keller/ Reprodução

Guia da Esperança 

Diante dos desafios evidenciados pelas enchentes no Rio Grande do Sul, o Catarinas lançou, em 2025, o “Guia da Esperança: práticas para garantir justiça reprodutiva e climática”. 

A publicação estabelece uma série de diretrizes feministas para redução de danos e garantia de direitos reprodutivos, que vão desde mapear vulnerabilidades específicas em regiões de risco, com atenção especial para pessoas com deficiência ou acamadas, mulheres chefes de família e mães solo, a priorizar o uso de recursos públicos para estruturar respostas de emergência com foco em gênero, garantindo que as mulheres sejam contempladas nas políticas de assistência.

O documento conclui que “garantir os direitos sexuais e reprodutivos em contextos de desastres climáticos é uma forma de mitigar as desigualdades sociais e proteger as populações mais vulneráveis. Desenvolver respostas a situações de emergência levando em conta uma perspectiva de gênero, raça, classe e território contribui para a construção de um futuro mais digno e igualitário, no qual as populações vulneráveis e marginalizadas não sejam deixadas para trás”. 

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  • ariele-lima

    Natural de Juazeiro, sertão baiano. Estudante de Jornalismo em Multimeios pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), c...

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