Abram alas para o passado recente: a magreza está de volta e em sua versão mais extrema. As tradwives transformam em estética desejável uma domesticidade feminina que o feminismo levou décadas questionando. O “macho alfa” reaparece embalado por podcasts e algoritmos. Agressores de mulheres reivindicam “direito ao contraditório”, num revisionismo que transforma violência em divergência de versões. 

Direitos de pessoas trans são apresentados como ameaça às mulheres. Feminismo, movimento negro e movimento LGBTQIAPN+ são reunidos sob a categoria depreciativa do “identitarismo”. E até em setores da esquerda prospera a ideia de que essas lutas passaram do ponto.

A feminista raivosa, afinal, nunca saiu de moda. O que volta é o desejo de colocá-la novamente no armário: já falou demais, tensionou demais, conquistou direitos demais.

São fenômenos aparentemente desconectados, mas apontam na mesma direção. É a atmosfera, o espírito do tempo. O corpo feminino volta a encolher e a ser domesticado. Exige-se vigilância permanente: dietas, procedimentos, produtos para rugas, inchaços, olheiras. 

Você nem precisa procurá-los: o algoritmo sabe que você tem mais de 40 anos e mostra o que deveria começar a incomodá-la. Tempo, dinheiro e energia novamente mobilizados para a tarefa de corrigir a si mesma. Ou seja, moda, beleza e comportamento voltam a disciplinar intensamente um padrão severo de feminilidade. 

A família tradicional reaparece como fantasia de uma ordem perdida. A masculinidade promete recuperar uma autoridade supostamente roubada. Minorias políticas que conquistaram visibilidade passam a ser descritas como poderosas demais. Alguma coisa foi longe demais e precisa voltar para o lugar.

No Brasil, há uma camada a mais: temos um governo progressista que também governa sob essa atmosfera. Pressionado por uma extrema direita amplificada pelos algoritmos e por um Congresso conservador, ajusta discursos, calcula silêncios e recua ao sabor dessa correlação de forças. 

O aborto é exemplar disso, como mostrou o embate em torno da resolução do Conanda sobre o acesso ao aborto legal por meninas vítimas de violência sexual. A força reacionária também se mede por sua capacidade de determinar os limites do que é possível ou não defender.

Contra-ataque aos avanços das últimas décadas

Foi uma atmosfera semelhante à que a jornalista estadunidense Susan Faludi investigou em “Backlash: O Contra-Ataque na Guerra Não Declarada Contra as Mulheres”, publicado originalmente em 1991 como Backlash: The Undeclared War Against American Women e lançado no Brasil pela Rocco em 2001.

Depois dos avanços feministas nos Estados Unidos, difundia-se a narrativa de que as mulheres estariam sofrendo não porque a igualdade ainda não havia sido alcançada, mas porque o feminismo teria ido longe demais. O movimento que denunciava o problema passava a ser apresentado como o problema.

A escritora mostra que essa reação não aconteceu apenas no terreno explicitamente político. Ela atravessou jornais, pesquisas apresentadas como científicas, cinema, televisão, moda, indústria da beleza e discursos sobre casamento, maternidade e trabalho.

Mulheres independentes voltaram a aparecer como solitárias, frustradas ou ameaçadoras. E o corpo feminino voltou a ser submetido a padrões cada vez mais inalcançáveis.

Backlash é contra-ataque. E só existe contra-ataque porque alguma coisa avançou antes. Nas últimas décadas, movimentos feministas, negros e LGBTQIAPN+ deslocaram fronteiras. Violências naturalizadas ganharam nomes, pessoas antes excluídas conquistaram direitos e passaram a disputar o espaço público. 

Mas o que parece incomodar não são as violências que tornaram essas lutas necessárias. Jovens negros continuam morrendo; a violência contra a população LGBTQIAPN+ persiste; povos indígenas seguem violentados e espoliados. 

O assassinato de mulheres aparece como espetáculo ainda mais brutal e novas tipificações precisam ser criadas para nomear a inventividade da violência, como o vicaricídio.

Tudo isso parece incomodar menos do que o tal “identitarismo”, fantasma criado como se o problema fossem as lutas que tornaram essas violências visíveis, e não as violências que as fizeram necessárias.

Wagner Moura e a esquerda identitária

A conversa entre Wagner Moura e Pedro Bial é reveladora de como falsas equivalências ajudam a sustentar esse fantasma. Wagner reclama da direita que tenta invalidá-lo porque mora nos Estados Unidos, prosperou e defende grupos aos quais não pertence. 

Bial pergunta se uma esquerda identitária não estaria fazendo o mesmo. Wagner concorda e vai além: “fascismo de esquerda”, “fascisminho de esquerda”, do “não pode”. 

Em poucos segundos, diferenças históricas e de poder desaparecem. O tensionamento de grupos que disputam direitos é colocado no mesmo plano das forças organizadas para restringi-los, e ambos podem, então, caber sob o nome de fascismo. 

A contradição é que o próprio Wagner tinha acabado de localizar sua experiência de classe. Para explicar por que enriquecer não o fez abandonar a esquerda, recorre à pobreza em Rodelas, ao pai sargento, ao trabalho escravo que presenciou e às políticas públicas que possibilitaram sua carreira. 

Sabe, portanto, que ninguém é um indivíduo abstrato. Mas, quando o mesmo raciocínio alcança raça, gênero e sexualidade, aparece o “identitarismo”. 

Aquilo que se chama depreciativamente de política identitária propõe um exercício familiar à esquerda: compreender a própria localização nas relações de poder. O mesmo exercício que, quando se trata de classe, chamamos de consciência de classe.

Basta olhar para a reprodução da força de trabalho. Alguém cozinha, limpa, cuida dos filhos, idosos e doentes para que outros possam trabalhar, e sabemos sobre quem esse trabalho historicamente recai. Gênero e raça, assim como classe, entrecruzam-se na distribuição do trabalho, do poder e das violências. 

O privilégio de se imaginar universal

Em O Segundo Sexo, Simone de Beauvoir expõe essa assimetria: o homem ocupa o lugar do sujeito, do humano universal; a mulher é o Outro. Ele pôde aparecer como indivíduo enquanto ela aparecia marcada pelo gênero. A mulher negra, pelo gênero e pela raça; a lésbica negra, também pela sexualidade. A outra da outra da outra.

Quando quem ocupava o lugar do universal é chamado a perceber também sua localização, isso pode ser experimentado como perda. Mas perder o privilégio de se imaginar universal não é perder o direito de falar.

Aliás, a ideia de que as chamadas políticas identitárias querem decidir quem pode falar é uma caricatura conveniente. Queremos que todos falem e se impliquem. Que homens falem de machismo, brancos de racismo, heterossexuais de LGBTfobia. 

Racismo não é problema dos negros, nem machismo das mulheres. São relações de poder que subordinam uns e privilegiam outros.

Localizar-se não é retirar-se do debate ou ser impedido de participar dele. Pelo contrário, é entrar nele sabendo que você também está na fotografia. É aí que “fascismo de esquerda” revela a desproporção da comparação. Ser chamado a reconhecer sua posição não é ser silenciado. Ser contestado não é ser censurado. 

Todo mundo tem gênero, raça, sexualidade e posição de classe

Essa inversão ganha contornos quase didáticos em Erika Hilton. Mulher trans e negra, ela reúne boa parte daquilo que o espantalho do “identitarismo” aprendeu a apresentar como ameaça, inclusive para uma parcela do feminismo que se reivindica radical. 

Mas parece também perturbar uma esquerda tradicional que, diante da perda do monopólio sobre quem representa “a classe”, volta a acusar essas lutas de fragmentá-la. 

A ironia é que Hilton se tornou uma das principais vozes institucionais pelo fim da escala 6×1, uma pauta elementarmente material da classe trabalhadora que nem mesmo um governo liderado pelo Partido dos Trabalhadores assumiu com a mesma centralidade. 

Foram longe demais. É a estrutura descrita por Faludi: o movimento que denuncia a desigualdade termina apresentado como o problema. Talvez uma das operações mais eficientes do backlash seja convencer uma sociedade de que aqueles que conquistaram algum poder já foram longe demais.

E talvez por isso valha perguntar quem chamamos de “identitário”. “Identitários” são sempre os outros: os marcados pelo gênero, pela raça, pela sexualidade.

Outros puderam durante muito tempo aparecer simplesmente como o indivíduo, o cidadão, o trabalhador, o ser humano — como se não tivessem também identidade e localização social.

Talvez uma das maiores contribuições dessas lutas seja justamente revelar que o suposto sujeito universal também tem gênero, raça, sexualidade e posição de classe. Ele também está localizado. A diferença é que, durante muito tempo, teve o privilégio de não precisar perceber isso.

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  • Paula Guimarães

    Jornalista e co-fundadora do Portal Catarinas. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, pós-graduada...

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