O capitalismo não se sustenta apenas em máquinas, fábricas e mercados; ele também depende de ideologias sobre os corpos. Entre elas, a ideia de que os homens são naturalmente viris, fortes e infalíveis ocupa um papel central. Essa construção simbólica legitima trabalhos pesados e degradantes, transformando exploração em “prova de masculinidade”. 

Há alguns meses, passeava num dos bairros populares de Recife, a Várzea, quando passei na frente de uma construção e o que ouvi, chamou-me a atenção. Um dos trabalhadores, carregando um saco de cimento, titubeou. O outro, virou-se em sua direção e disse: “Você não é homem, não?” 

Pierre Bourdieu, em A Dominação Masculina, mostra como a virilidade é uma forma de capital simbólico: ela confere status e poder, mas também aprisiona os homens em uma lógica de desempenho constante. No capitalismo, essa lógica se traduz em jornadas exaustivas na mineração, na construção civil ou em frigoríficos, onde o corpo masculino é tratado como máquina de força. A masculinidade, nesse contexto, é ferramenta de exploração. 

Como feminista negra, ao apontar a necessidade de destruição do Capitalismo, ainda encontro resistência no feminismo liberal. Isso porque, em um sistema que se serve da virilidade das classes subalternas, seu fim pode significar uma mudança radical também na ideia de feminilidade. Afinal, a parcela de mulheres que pode pagar não teria à disposição este contingente de homens carregando e entregando água, comida, materiais de construção e tantos outros bens e serviços.

Silvia Federici, ao analisar a formação do Capitalismo, destaca como os corpos foram disciplinados para servir à acumulação. Se as mulheres foram relegadas ao trabalho reprodutivo e invisível, os homens foram moldados para encarnar a força produtiva. A virilidade, portanto, não é natural: é uma construção histórica que garante que certos trabalhos brutais sejam aceitos como “destino masculino”.

Judith Butler acrescenta que o gênero é uma performance: não existe essência masculina, e sim repetição de atos que produzem a aparência de virilidade. O Capitalismo exige essa performance: homens que carregam toneladas de minério, soldados que marcham em guerras, trabalhadores braçais em trabalhos precários e de alto risco para a saúde. Sem essa narrativa, ficaria evidente que ninguém deveria ser submetido a condições tão desumanas.

Assim, a virilidade funciona, para a classe trabalhadora, como ideologia legitimadora: ela naturaliza a exploração, divide os papéis de gênero e mantém a engrenagem produtiva em movimento. O homem é visto como dominador, mas na prática é dominado por um sistema que transforma sua força em lucro. O capitalismo precisa que ele acredite ser invencível, quando na verdade é descartável.

O capitalismo não apenas explorou o trabalho, como também reconfigurou o gênero para garantir sua expansão. Rita Segato amplia essa crítica ao mostrar que o capitalismo opera como uma máquina de colonização. Para ela, o feminino é associado à natureza, ou seja, àquilo que deve ser explorado, violentado, dominado. 

O masculino, por sua vez, é identificado com o desenvolvimento: colonizar, derrubar, expandir. Essa lógica transforma mulheres e territórios em objetos de conquista. A violência contra o corpo feminino e contra a terra não são acidentes, mas expressões da mesma racionalidade patriarcal e capitalista.

Assim, a virilidade funciona como ideologia legitimadora que naturaliza a exploração dos homens em trabalhos brutais, quando se trata dos exploradores, e da dominação pelo capital, quando se trata dos exploradores, colocando as mulheres como recurso a ser consumido. O capitalismo precisa dessa ficção: homens invencíveis e mulheres/natureza disponíveis para justificar tanto a extração incessante de força de trabalho quanto a devastação ambiental.

O resultado é um sistema que transforma corpos e territórios em mercadorias, sustentado pela crença de que o masculino deve dominar e o feminino deve ser dominado. O Capitalismo, nesse contexto, precisa da ficção da virilidade para justificar tarefas que, na prática, são desumanas. Não dá para combater o Patriarcado, sem combater o Capitalismo. E, este grande contingente de homens em trabalhos que desgastam o corpo, é também preocupação do feminismo. Pelo menos do feminismo de classe. 

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  • Fabiane-Albuquerque

    Feminista negra, escritora e doutora em sociologia. Autora dos livros Cartas a um homem negro que amei (Editora Malê) e...

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