O Dia Internacional da Visibilidade Trans, celebrado em 31 de março, foi criado em 2009 nos Estados Unidos pela ativista Rachel Crandall, fundadora e diretora do movimento Transgender Michigan, para reconhecer trajetórias e conquistas de pessoas trans e travestis, historicamente marginalizadas e vítimas de violência.

No Brasil, que pelo 18º ano consecutivo ocupa o primeiro lugar no ranking mundial de assassinatos de pessoas trans, a data aponta o impacto da violência estrutural que ainda atinge a comunidade. 

Segundo o dossiê mais recente da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), 80 pessoas trans foram assassinadas em 2025. O levantamento também mostra que entre 2023 e 2025, os assassinatos registraram uma queda de 34%, a maior redução já registrada na série histórica. 

Apesar disso, a diminuição nos números não reflete uma melhora real na vida desta população. A aparente queda está ligada à subnotificação, à invisibilização da violência e à ausência de dados consistentes por parte do Estado. O levantamento também revela que 70% das vítimas eram negras, somando pretas e pardas.

Para Alicia Moreira de Barros, produtora musical e bióloga, a visibilidade para a comunidade LGBTQIAPN+ só faz sentido quando vem acompanhada de ação coletiva.

“Tão importante quanto a visibilidade é termos força política enquanto coletividade. A visibilidade deve ser associada a um poder político de mudar e transformar as coisas”, destaca.

Uma das formas mais expressivas de resistência do movimento trans se dá por meio da arte, especialmente através da cultura ballroom. Originada nos Estados Unidos nas décadas de 1960 e 1970, surgiu com a organização de bailes voltados para a população LGBTQIAPN+, majoritariamente negra e latina, que encontrava nesses espaços uma forma de se expressar em performances, desfiles e danças, como resposta à exclusão social e artística.

O movimento começou com a drag queen e travesti negra Crystal Labeija, que protestava contra os padrões racistas e transfóbicos dos concursos de beleza que excluíam corpos negros, travestis e trans. Ela fundou a House of Labeija (Casa da Labeija) e deu início às primeiras ballrooms.

Nas comunidades marginalizadas de Nova Iorque, os bailes, conhecidos como balls, passaram a ser organizados por e para essas populações. A cultura ballroom constrói espaços de acolhimento, resistência e apoio afetivo, oferecendo às pessoas participantes um ambiente seguro para expressar suas identidades.

Hoje, a cultura ballroom pode ser vista em produções como a série Pose, de Ryan Murphy, no reality show RuPaul’s Drag Race e no clássico documentário Paris Is Burning, de Jennie Livingston.

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FEITIÇO Mini Ball | Crédito: JRD Na Lente.

“Celebramos nossas vidas através de categorias estéticas e dançantes” 

Como espaço de afirmação, pertencimento e celebração das diversidades, a cultura ballroom impulsiona corpos historicamente marginalizados a ocuparem o centro da cena. 

“É como um colo de mãe, onde celebramos nossas vidas através de categorias estéticas e dançantes. A comunidade se mantém conectada e unida, se tornando uma rede de apoio e afeto”, afirmou a multiartista travesti e fundadora mother da Casa das Duras (Florianópolis/SC) e do coletivo Ballroom Satolep (Pelotas/RS), Re Moraes.

No Brasil, a cena ballroom começou a se estruturar de forma mais consistente a partir da década de 2010, com eventos como o BH Vogue Fever, conhecido como um dos maiores balls da América Latina, e com a criação de casas e coletivos em diversas cidades brasileiras. 

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FEITIÇO Mini Ball | Crédito: JRD Na Lente.

As houses (casas) são coletivos afetivos semelhantes a famílias, liderados por uma mother ou um father, que acolhiam jovens LGBTQIAPN+ rejeitadas/os/es por suas famílias, especialmente nos anos 1980 durante a crise do HIV. As pessoas participantes destes espaços adotam o sobrenome da casa e, ao competir e ganhar nos balls, trazem prestígio e fortalecem o legado do grupo.

Atualmente, Florianópolis conta com uma cena ball em ascensão. Entre elas a Casa de Feiticeiras, primeira casa de vogue do sul do Brasil, fundada há 7 anos; a Casa das Duras; a Casa Índigo; a House of Felines; a Casa de Virgil Abloh; a House of Blyndex; a Pinklady, entre outras. De acordo com Re, um dos papéis das casas é resgatar pessoas da comunidade LGBTQIAPN+ para que se sintam respeitadas, visibilizadas e acolhidas. 

A cultura ball também conta com as pessoas 007 (termo que remete a quem não integra nenhuma casa, mas participa das balls) e coletivos apoiadores. O Floripa Kunt é um dos coletivos que produz treinos, balls e outros eventos para a comunidade.

Onde a vida pode existir sem julgamento

“A cultura ballroom é, para mim, um lugar de reconhecimento, afeto e construção. Para além do caráter performático e artístico, muito importante também, entendo esse espaço como uma comunidade que me ensina e me desafia sempre”, destacou a estudante e artista independente Mai Feiticeiras, natural de Belém do Pará, residente em Florianópolis há sete anos e integrante da Casa de Feiticeiras. 

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Mai Feiticeiras | Crédito: arquivo pessoal.

A atriz, ilustradora, professora, doutoranda em Artes Cênicas (Udesc), Marii Blyndex, integra a House Of Blyndex e conta que encontrou as balls em 2023. “Fiquei extasiada com tudo o que via e ouvia: a sonoridade envolvente, as pessoas cantando e dançando de uma forma tão única”, relembra. 

Marii também destaca o senso de comunidade que encontrou: “Eu antes era muito sozinha, e depois que entrei, passei a andar em bonde, em grupo. É um lugar de exaltação de corpos dissidentes e de acolhimento, onde a gente se sente aceita. É também um lugar de resistência, pois estamos performando uma travestilidade que choca e confronta a sociedade”, finaliza . 

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Marii Blyndex de rosa claro à esquerda junto com integrantes da House of Blyndex Florianopolis, RJ e SP | Crédito: arquivo pessoal

Para a agente territorial de Cultura e integrante da Casa de Feiticeiras, Diana Maciel Dias, as conquistas de pessoas LGBTQIAPN+ nunca são individuais. “Cada conquista carrega consigo um esforço coletivo, uma rede de resistência e cuidado, e um investimento constante na construção de um novo mundo baseado em autonomia, dignidade e liberdade”, pontua. 

Perspectivas coletivas e pertencimento

No Dia Internacional da Visibilidade Trans, a comunidade LGBTQIAPN+ compartilha vivências, trajetórias e potencialidades, mostrando desafios, conquistas e formas de resistência no cotidiano. 

Como destacam em seus depoimentos, a coletividade e o pertencimento são fundamentais para criar novos espaços de existência e visibilidade.

“Só visibilidade não é suficiente. A população trans enfrenta altos índices de expulsão escolar e familiar, além da falta de acesso a direitos básicos como moradia, saúde, educação e trabalho formal. Conquistei um marco importante: fui a primeira professora travesti contratada na história da UFSC [Universidade Federal de Santa Catarina], em 2019.

Lecionei por 13 meses, mas depois que acabou meu contrato, precisei tomar uma decisão: passei a trabalhar online para me proteger das violências nos ambientes escolares de educação. Mesmo com essa conquista, o mercado de trabalho se mostrou extremamente agressivo comigo.”

Tiffany Ochoa, professora de inglês, tradutora, intérprete, revisora textual, integrante da Cia Abelhas (@abelhasofc) e 007 da cena Ballroom.

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Tiffany Ochoa | Crédito: arquivo pessoal.

“Muitas pessoas nem sabem o que é um homem trans ou uma pessoa transmasculina. Ainda enfrentamos invisibilização: não estamos protegidos pela Lei Maria da Penha, nosso tempo de serviço para aposentadoria é maior, precisamos prestar serviço militar, e muitas vezes somos completamente deixados de lado.

É sempre importante lembrar que pessoas trans também são lésbicas, gays, assexuais, pan, etc. Fazemos um trabalho duplo dentro dessa categoria. A população em geral precisa perceber que existimos e temos direito a viver nossos sonhos com dignidade.”

Lino Gabriel Nascimento dos Santos, doutor em antropologia (UFSC) e docente do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Santa Catarina (IFSC).

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Lino Gabriel Nascimento dos Santos | Crédito: arquivo pessoal.

“Dar visibilidade para as potencialidades e conquistas trans é importante para que outras narrativas, que não sejam só as de violência e morte, circulem pelo tecido social cis e trans. Para a gente não esquecer/relembrar de sonhar, no sentido simbólico, literal e ancestral, o sonhar como uma ética-afetiva contra-colonial (aqui me inspirando em Tatiana Nascimento, Nego Bispo, Ailton Krenak).”

Ale Mujica Rodriguez, ativista, médico sanitarista, pesquisadore, tradutor e psicanalista.

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Ale Mujica Rodriguez | Crédito: arquivo pessoal.

“Quando uma pessoa trans conquista algo, não estamos apenas diante de uma vitória individual. Cada conquista carrega consigo um esforço coletivo, uma rede de resistência e cuidado, e um investimento constante na construção de um novo mundo baseado em autonomia, dignidade e liberdade.

Assim, cada vitória precisa ganhar visibilidade, para podermos renovar o fôlego por mudanças e impulsionar a criação de futuros melhores, que nos levem para além da barbárie que se impõe hoje.”

Diana Maciel Dias, agente territorial de Cultura e Princesa da Casa de Feiticeiras.

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Diana Maciel | Crédito: arquivo pessoal.

“Fiquei encantada desde quando tive contato a primeira vez com a ballroom, pela liberdade e autenticidade de ver tantas pessoas trans, queers, LGBTQIAPN+ no mesmo espaço.

A cultura ballroom é como um colo de mãe, onde nós celebramos nossas vidas através de categorias estéticas e dançantes. Para além de balls, a comunidade se mantém conectada e unida se tornando uma rede de apoio e afeto.”

Re Moraes, multiartista e Fundadora Mãe da Casa das Duras e do coletivo Ballroom Satolep.

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Re Moraes | Crédito: Ana Costa (Kamiquaze).

“Quanto mais a nossa presença for constante na vida das pessoas, se sempre tiver um evento de ballroom nos espaços da cisgeneridade, talvez a gente morra menos, seja menos assassinada. Nossa presença seria mais comum e não nos veriam como anormais. Infelizmente ainda estamos numa bolha de pessoas dissidentes.

Apesar de ser esse lugar de exaltação, a gente também tá muito ‘nós com nós mesmas’. A importância de visibilizar e ocupar outros lugares é justamente ser vista. A gente consegue mudar o mundo ao ponto das pessoas entenderem que existimos, resistimos e merecemos viver como qualquer outra pessoa.”

Marii Blyndex, atriz, ilustradora, professora, pesquisadora, doutoranda em Artes Ciências e integrante da House of Blyndex.

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Marii Blyndex | Crédito: arquivo pessoal.

“Atuo na promoção da educação inclusiva, com foco na comunidade surda e na defesa da Libras como direito linguístico, cultural e político. Minha trajetória está comprometida com a acessibilidade, a valorização da cultura surda e o enfrentamento das desigualdades estruturais.

Nesse contexto, a visibilidade de pessoas LGBTQIAPN+, especialmente de pessoas trans, é fundamental para romper com o silenciamento histórico e afirmar suas existências com dignidade. Dar visibilidade às suas conquistas e potências é promover direitos, ampliar representatividade e transformar a sociedade.”

Bru Henrique da Silva, intérprete de Libras.

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Bru Henrique da Silva | Crédito: arquivo pessoal.

“Conheci a cultura ballroom no meu processo de transição e foi muito importante. Há cinco anos não era comum encontrar uma pessoa transmasculina em evento público. Quando eu vi várias pessoas trans juntas foi muito acolhedor. É um espaço de acolhimento e segurança para nós.

A cultura ballroom mudou totalmente a minha vida. Hoje eu consigo me expor mais, falo em coletivo, comunidade. Tenho menos disforia, convivo muito mais com pessoas trans, consigo ouvir meu lado artístico, meu lado style, de autocuidado. A comunidade me proporcionou esse outro lugar, com um olhar com mais carinho comigo.” 

Rhaysson Barros da Silva, estudante de História, motoboy e integrante da Casa de Feiticeiras.

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Rhaysson Barros da Silva | Crédito: arquivo pessoal.

“Até recentemente, a gente tinha que viver às sombras. O único espaço que nos era permitido circular era à noite, espaços de riscos e geralmente sexualizados. Nas décadas de 80 e 90, teve a epidemia terrível de AIDS, e que, embora afetasse todas as pessoas, foi criado um pânico moral em volta da comunidade LGBT, como se fosse um castigo divino por sermos quem somos. Isso só fez com que a gente ficasse mais às sombras, porque o preconceito foi realmente forte.

Então, é importante falarmos da visibilidade trans no sentido de que estamos saindo durante o dia, ocupando espaços e trabalhando. Tão importante quanto a visibilidade é termos força política enquanto coletividade. A visibilidade deve ser associada a um poder político de mudar e transformar as coisas.”

Alicia Moreira de Barros, produtora musical e bióloga.

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Alicia Moreira de Barros | Crédito: arquivo pessoal.

“Ser uma mulher negra trans no Brasil, com trajetória na cultura, arte e educação, me faz perceber a importância da valorização das pessoas trans e da ocupação de todos os espaços da sociedade. Quando ganhamos visibilidade, transformamos o imaginário que insiste em nos colocar à margem, mostrando que podemos viver, trabalhar, criar e conquistar oportunidades com excelência.

É fundamental que o Brasil reconheça nossa presença em todos os espaços, especialmente nos de destaque e poder, para mudar percepções, combater estigmas e afirmar nossa dignidade, talento e contribuição à sociedade.”

Núbia Thalita, multiartista, atriz, cantora, compositora, DJ, produtora cultural, professora, arte-educadora e mestra em Educação.

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Nubia Thalita | Crédito: arquivo pessoal.

“Tornar visíveis nossas vivências implica afirmar direitos e demandar a construção de políticas públicas que garantam proteção, acesso e permanência em espaços como a escola, a saúde e a assistência social, respeitando suas especificidades.

Dar visibilidade às potencialidades e conquistas de pessoas trans, incluindo as infâncias, não se limita a um gesto simbólico, mas constitui uma ação estruturante na promoção de equidade, reconhecimento e justiça social desde os primeiros anos de vida”.

Ariel Souza, pedagoga, professora de Educação Infantil e estudante de Antropologia.

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Ariel Souza | Crédito: arquivo pessoal.

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  • Ediane Oliveira

    Jornalista e produtora cultural, é mestre em Antropologia pela UFPel e doutoranda em Jornalismo na UFSC. Pesquisa mídia...

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