Neste 10 de junho de 2026, completa-se o centenário da morte de Antoni Gaudí, um dos arquitetos mais renomados da história mundial. Na mesma data, está prevista a inauguração da estrutura principal e das torres centrais da Basílica da Sagrada Família, que está em construção há 144 anos e à qual Gaudí dedicou a maior parte de sua vida. A conclusão integral do conjunto arquitetônico, entretanto, permanece prevista para 2035. Situada em Barcelona, a obra foi iniciada em 1882 e, ao longo de mais de um século de construção, consolidou-se como o principal símbolo da cidade.

A Sagrada Família impressiona não apenas por sua relevância arquitetônica, mas também por suas dimensões. Sua torre central, dedicada a Jesus Cristo, alcança 172,5 metros de altura, tornando-a a igreja mais alta do mundo. Com cerca de 4.500 m² de área e capacidade para receber aproximadamente 9.000 pessoas, o templo atrai visitantes de diferentes partes do mundo, que buscam contemplar sua grandiosidade, singularidade e riqueza de detalhes.

Cem anos após a morte de Gaudí, sua trajetória ainda provoca reflexões que vão além da arquitetura e alcançam questões sobre o contexto urbano. Assim, a pergunta que dá título a este texto é mais atual do que parece: e se Gaudí morresse hoje nas ruas de Florianópolis? É justamente a partir dessa pergunta que este texto se desenvolve. 

Quem foi Antoni Gaudí?

Antoni Gaudí i Cornet nasceu em 25 de junho de 1852, na cidade de Reus, na comarca de Baix Camp, na Catalunha. Formou-se em Arquitetura pela Escola Provincial de Arquitetura de Barcelona, em 1878, e iniciou sua trajetória profissional trabalhando no escritório do arquiteto Josep Fontserè. Nesse período, participou de um dos mais importantes projetos urbanos da Barcelona da época: o Parc de la Ciutadella.

Em 1883, por intermédio do arquiteto Joan Martorell, Gaudí recebeu a tarefa que marcaria sua trajetória: dar continuidade às obras do Templo Expiatório da Sagrada Família. O projeto havia sido inicialmente concebido por Francisco de Paula del Villar, que acabou abandonando a direção da obra. Então, Martorell indicou o jovem arquiteto para assumir a construção.

A partir desse momento, a Sagrada Família deixou de ser apenas mais uma encomenda profissional. Gaudí dedicaria mais de quarenta anos de sua vida ao templo, transformando-o em sua principal obra e em uma síntese de suas concepções arquitetônicas, religiosas e artísticas. Ao longo desse processo, reformulou drasticamente o projeto original, através de uma identidade própria e singular.

A trajetória de Gaudí não pode ser compreendida sem considerar o contexto da Catalunha do final do século 19. Nesse período, a burguesia catalã vivia um momento de forte dinamismo econômico, impulsionado pela expansão industrial e comercial. Ao mesmo tempo, consolidava-se um sentimento de identidade própria, acompanhado do desejo de diferenciação em relação ao restante do Estado espanhol.

Assim, Barcelona, capital da Catalunha, se tornou um importante centro de efervescência artística e cultural. De um lado, desenvolviam-se expressões ligadas aos interesses e valores da nova burguesia urbana, de outro, artistas voltavam seu olhar para as contradições sociais, como Isidre Nonell e Pablo Picasso.

Nesse contexto emerge o Modernismo catalão, movimento que buscava afirmar uma identidade cultural própria por meio da arte, da arquitetura e do design. Embora inicialmente vinculado a esse movimento, Gaudí desenvolveu uma linguagem cada vez mais singular, difícil de enquadrar em qualquer corrente específica. Sua produção arquitetônica foi marcada pela inspiração na natureza, pelo forte simbolismo religioso e pela experimentação formal.

Gaudí procurava referências em diferentes tradições arquitetônicas, reinterpretando-as de maneira criativa e eclética. A Casa Vicens e El Capricho apresentam elementos inspirados na arquitetura islâmica; o Palau Güell aproxima-se de referências medievais; o Palácio Episcopal de Astorga e a Casa Fernández Andrés evidenciam influências góticas; enquanto a Casa Calvet incorpora características associadas ao barroco.

Um exemplo importante da parceria entre arquitetura e paisagem são os Pavilhões da Chácara Güell, construídos entre 1884 e 1887. Encomendados por Eusebi Güell, os edifícios destinados à portaria e às cavalariças evidenciam a confiança depositada pelo empresário no arquiteto. A relação entre ambos foi fundamental para o desenvolvimento de diversos projetos que hoje constituem parte essencial do patrimônio arquitetônico catalão.

Poderíamos dedicar páginas e mais páginas à descrição das obras, das técnicas construtivas e das inovações desenvolvidas por Gaudí ao longo de sua vida. Seu legado ultrapassa os limites da arquitetura e se confunde com a própria identidade de Barcelona. Entretanto, mais do que discutir a grandiosidade de sua produção, interessa aqui refletir sobre um aspecto menos conhecido de sua trajetória: a forma trágica e inesperada como terminou a vida daquele que se tornou um dos maiores expoentes da arquitetura catalã.

A morte

Nos últimos anos de sua vida, Gaudí adotou uma rotina cada vez mais desprovida de luxos. Vestia-se de maneira simples, utilizava roupas gastas pelo tempo e pouco se preocupava com sua aparência. A figura do arquiteto renomado que frequentava círculos influentes da sociedade catalã foi, aos poucos, dando lugar a um homem de hábitos discretos, quase anônimo em meio à cidade que ajudou a construir.

Foi nesse contexto que ocorreu o episódio que marcaria seus últimos dias de vida. No final da tarde de 7 de junho de 1926, Gaudí caminhava pelas ruas de Barcelona em direção à igreja de Sant Felip Neri. Ao atravessar a Gran Via de les Corts Catalanes, foi atingido por um bonde.

Um homem idoso, vestido com roupas simples e desgastadas, estava ferido no meio da rua. Entretanto, aquilo que deveria despertar solidariedade produziu indiferença. Sem documentos que permitissem sua identificação imediata e com uma aparência associada à pobreza, Gaudí foi confundido com uma pessoa em situação de rua.

A tragédia não se restringe ao acidente em si. O que chama atenção é o tratamento recebido após ele. Diversas pessoas observaram a cena, mas poucas se dispuseram a ajudá-lo. Os primeiros táxis chamados recusaram-se a transportá-lo devido à sua aparência. Apenas após a intervenção de um guarda civil ele foi levado para atendimento médico.

No hospital, continuou sem identificação. Seus pertences resumiam-se a um rosário, um exemplar dos Evangelhos, um lenço e uma chave. Nada indicava que aquele homem era o responsável por algumas das construções mais conhecidas de Barcelona. Nada revelava que ele era o arquiteto que dedicou mais de quarenta anos de sua vida à Sagrada Família.

Reconhecido apenas no dia seguinte, Gaudí permaneceu hospitalizado por três dias. Os ferimentos eram graves demais para permitir sua recuperação. Assim, em 10 de junho de 1926, aos 73 anos, morreu aquele que se tornaria um dos maiores símbolos da arquitetura mundial.

A história de sua morte levanta um questionamento mais amplo. Como alguém responsável por obras monumentais, admiradas internacionalmente ainda em vida, pôde permanecer horas sem atendimento adequado no centro da principal cidade da Catalunha? A questão não está propriamente em quem era Gaudí, mas em quem ele parecia ser naquele momento.

Contradições

Sua trajetória demonstra um paradoxo urbano. Enquanto suas obras ocupavam posições de destaque na paisagem de Barcelona, tornando-se marcos impossíveis de ignorar, seu corpo ferido tornou-se irrelevante. O mesmo homem que projetou edifícios capazes de atrair olhares do mundo inteiro deixou de despertar atenção quando apareceu no espaço público sob a aparência de pobreza.

Outra ironia particular nesse episódio é de que Gaudí dedicou décadas à construção de um templo religioso que se tornaria símbolo da cidade e da fé católica. A própria tradição cristã possui diversas passagens que defendem o acolhimento dos pobres, dos enfermos e dos marginalizados. No entanto, naquele fim de tarde de junho, o arquiteto não foi reconhecido como um cidadão necessitando de ajuda, mas como mais um corpo cuja presença parecia não merecer atenção.

Isso evidencia a força dos estigmas sociais, que — conforme argumenta o sociólogo Erving Goffman — desqualificam determinados indivíduos por não corresponderem às expectativas e normas vigentes na sociedade, produzindo processos de marginalização e desaprovação social.

Esses corpos marginalizados tornam-se corpos abjetos.

Para a antropóloga Taniele Rui, o que causa essa abjeção pelas pessoas em situação de rua não é tanto a sua aparência em si, ou a falta de higiene, mas o que isso representa: são corpos que não se encaixam no sistema.

Talvez a questão central não seja compreender por que Antoni Gaudí morreu daquela forma. Talvez a pergunta mais incômoda seja outra: quantas pessoas anônimas, sem o prestígio de um arquiteto célebre, continuavam sendo ignoradas diariamente nas ruas?

Não se trata propriamente de invisibilidade — essas pessoas são vistas. O próprio episódio envolvendo Gaudí ilustra isso: sua presença ferida na rua atraiu olhares de curiosos que passavam pelo local, mas não despertou a mesma disposição para ajudá-lo. Essas pessoas não são invisíveis; são ignoradas.

A morte de Gaudí torna-se emblemática justamente porque revela uma contradição social que permanece atual. Foi preciso que aquele homem fosse reconhecido como um arquiteto famoso para que sua vida parecesse importar. Antes disso, sua aparência o colocava na mesma condição experimentada por milhares de pessoas em situação de vulnerabilidade social.

O autor Michel Foucault demonstra que, ao mesmo tempo em que o Estado busca “fazer viver” determinados segmentos da população — garantindo condições para sua reprodução e produtividade — em nome da utilidade econômica, outros grupos podem ser relegados à negligência e ao abandono, justamente por não serem percebidos como úteis ao capitalismo. Essa lógica se manifesta nas dificuldades de acesso à saúde enfrentadas pela população em situação de rua e o caso de Gaudí, com a falta de atendimento adequado antes de ser identificado, simboliza essa dinâmica. 

As consequências desse processo são concretas. Determinados grupos são frequentemente tratados como descartáveis, relegados a uma condição de menor valor social. São pessoas cuja existência não é plenamente reconhecida como legítima e cuja morte, muitas vezes, não provoca indignação suficiente para mobilizar ações de cuidado ou proteção.

Paralelo com o contexto de Florianópolis

Embora o episódio tenha ocorrido em 1926, em Barcelona, ele poderia ter acontecido nos dias atuais, pois essa negligência se perpetua, inclusive em Florianópolis, em 2026. 

Em Santa Catarina, auditorias realizadas pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE-SC) identificaram uma série de falhas na implementação de políticas públicas voltadas à população em situação de rua, especialmente nas áreas da assistência social e da saúde. 

Entre os municípios notificados, Florianópolis chama atenção porque, além das insuficiências na oferta de serviços, vem adotando medidas que suscitam preocupações quanto à garantia dos direitos dessa população.

Em 2024, foi sancionada a Lei Municipal nº 11.134, que prevê a internação psiquiátrica involuntária de pessoas em situação de rua. Os discursos dos parlamentares durante a discussão da proposta revelam que o foco principal da medida não é a promoção de saúde, mas a remoção da população em situação de rua do espaço público.

Outro episódio marcante ocorreu em fevereiro de 2025, com o fechamento do único restaurante popular da cidade. A medida impactou diretamente a segurança alimentar da população em situação de rua, uma vez que os demais equipamentos públicos não oferecem refeições em quantidade suficiente para atender à demanda existente.

Também são recorrentes as abordagens realizadas por agentes da Guarda Municipal, acompanhadas do recolhimento de pertences pessoais pela Companhia Melhoramentos da Capital (COMCAP). Em novembro de 2025, foi sancionada a Lei Municipal nº 11.498, que dispõe sobre a prestação de serviço voluntário em apoio à Secretaria Municipal de Segurança e Ordem Pública (SMSOP). Poucos meses depois, em fevereiro de 2026, um grupo desses voluntários — denominados Agentes de Segurança e Ordem Pública Comunitários — foi flagrado hostilizando e ameaçando uma pessoa em situação de rua, episódio que levantou questionamentos sobre os limites e a legalidade de sua atuação.

Diante desse cenário, observa-se que, em vez de priorizar políticas públicas integradas de moradia, trabalho, saúde e assistência social, a gestão municipal tem recorrido a estratégias centradas no controle e na contenção da população em situação de rua. Medidas como a internação involuntária e a ampliação de ações de segurança pública oferecem respostas rápidas e de forte apelo político, mas não enfrentam as múltiplas determinações que produzem e perpetuam essa realidade.

Nas ruas, encontram-se pessoas com trajetórias mais diversas. Há indivíduos que vieram de diferentes contextos sociais, inclusive pessoas que já ocuparam posições de prestígio profissional e jamais imaginaram viver nessa condição. Isso revela que, independentemente da história de vida, a experiência da situação de rua tende a apagar singularidades e reduzir sujeitos a uma categoria homogênea, marcada pelo estigma e pela exclusão, como se pertencessem a uma massa anônima de pessoas.

A história de Gaudí nos lembra justamente disso. Quando foi confundido com uma pessoa em situação de rua, seu reconhecimento social pareceu desaparecer instantaneamente. O arquiteto prestigiado tornou-se, aos olhos dos que o cercavam, apenas mais um corpo abandonado. Assim, mesmo cem anos depois, alguns desafios permanecem: suspender preconceitos, reconhecer a dignidade de cada vida e construir políticas públicas capazes de oferecer respostas efetivas, em vez de apenas ocultar os problemas que insistimos em não enfrentar.

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