Os recentes movimentos contrários às cotas raciais em Santa Catarina colocaram novamente as desigualdades de acesso ao ensino superior e o papel das políticas de ação afirmativa no centro do debate nacional. Em meio a esse cenário, a produção acadêmica segue buscando compreender tanto os avanços promovidos por essas políticas quanto os obstáculos que ainda limitam a presença da população negra nos espaços universitários.

Um dos exemplos é a tese “A universidade tem cor: o racismo na pós-graduação stricto sensu em Administração das universidades públicas catarinenses”, da pesquisadora Karina Francine Marcelino. Premiada pelo Concurso de Monografias Prêmio Sebastião Nogueira de Lima em 2025, ela investigou de que maneira o racismo atravessa a presença e a experiência da população negra nos programas de pós-graduação em Administração das universidades públicas de Santa Catarina.

Natural do estado, Karina é doutora em Administração pela Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) e desenvolve pesquisas sobre relações raciais, diversidade e desigualdades no campo da educação e das organizações. Ela conta que a escolha do tema dialoga com sua própria trajetória acadêmica, marcada pela ausência de diversidade: 

“Eu sempre fui a única ou a primeira negra. A única negra em sala de aula, a primeira a fazer mestrado, a primeira a fazer doutorado. Se não me engano, sou a primeira doutora negra da Udesc no meu centro em Administração. Então, isso me gerava um incômodo.”

Esse incômodo se transformou em tema de pesquisa durante o doutorado. Em diálogo com seu orientador, ela decidiu investigar um assunto que considerava fundamental para compreender as desigualdades raciais também no campo da Administração. “Quantos administradores negros a gente vê? Líderes negros de empresas grandes são pouquíssimos. Por que isso acontece nessa área? Essa foi essa minha motivação”, explica.

Outro fator que também a instigou foi o próprio modelo de ingresso no programa. Diferentemente de outros cursos da instituição que adotam reserva de vagas, o Programa de Pós-Graduação em Administração da Escola Superior de Administração e Gestão (Esag) realiza seu processo seletivo exclusivamente pela ampla concorrência.

Entre os principais achados da pesquisa estão a escassez de estudos sobre relações raciais na área, a ausência de grupos de pesquisa dedicados ao tema e o desinteresse ou a falta de urgência em tratar dessas questões dentro dos programas. As instituições de ensino superior, segundo Karina, reproduzem e mantêm desigualdades raciais presentes na sociedade. Suas normas, políticas e práticas carregam marcas do colonialismo, da escravidão e da hegemonia de determinados grupos sociais, o que influencia diretamente as oportunidades e experiências da população negra nesses espaços.

Em entrevista ao Catarinas, a pesquisadora fala sobre os caminhos da tese, os desafios enfrentados pela população negra na pós-graduação e a importância das políticas de ação afirmativa. Confira.

Para você, quais são as maiores dificuldades de ingresso da população negra na pós-graduação? E por que decidiu olhar especificamente para o campo da Administração?

A Udesc, principalmente a Esag, foi criada por pessoas que eram muito influentes na área de gestão. Donas de empresas aqui em Florianópolis precisaram criar um espaço para que seus filhos fizessem uma formação para assumir essas empresas. Se pensarmos nessa criação, é um curso extremamente elitista, geralmente quem o procura já tem alguma empresa.

Não alcançamos ainda aquele ideal de proporcionalidade que se espera de acordo com os dados demográficos brasileiros. Temos um bom ingresso na graduação, mas na pós-graduação isso diminui drasticamente. Não temos políticas de ações afirmativas para ingresso na pós-graduação em Administração Pública e mal temos na graduação. 

E quais os critérios para entrar hoje na pós-graduação? Você tem que ter um projeto de pesquisa que dialogue com a linha de pesquisa de um programa, ter fluência em dois idiomas, disponibilidade de tempo. Se você trabalha 8 horas por dia e a aula ocorre à tarde, já não consegue cursar. São vários requisitos que impõem uma barreira para pessoas negras e pobres. 

Muitas críticas às cotas raciais se baseiam na ideia de meritocracia. Por que, na sua análise, esse argumento não se sustenta quando olhamos para a realidade das desigualdades raciais no Brasil?

A meritocracia é um dos operadores do racismo. Ele se sustenta e perdura por causa desse discurso que traz a lógica do “quanto mais esforço e mais talento, mais sucesso”. Seria lindo se vivessemos em uma sociedade igualitária. A partir do momento em que reconhecemos que a sociedade brasileira é estruturalmente desigual e racista, começamos a entender que não podemos fazer uma soma que dê igual.

Esse discurso é uma falácia porque o argumento cai por terra quando eles, que não precisam de cotas, não acessam esses lugares e ousam dizer que foi porque pessoas como nós [negras] tiramos a ‘vaga delas’. Eles falam como se fossem proprietários da vaga. 

O mérito é um discurso utilizado ao longo de toda a vida, desde o momento em que nascemos até o momento em que morremos. Vemos os índices de mulheres negras que sofrem racismo obstétrico, do encarceramento em massa e o genocídio da população negra. Tudo isso para dizer que, até para nascer, parece que tem gente que merece mais, né? 

Eu gosto de fazer sempre um resgate histórico. As primeiras cotas implementadas no Brasil foram a Lei do Boi, em 1968, que reservava vagas para filhos de fazendeiros agricultores para que eles estudassem. E ninguém reclamou. Não reclamaram porque quando a cota os beneficia está tudo bem. Se não têm nenhum benefício, aí são contrários.

No Brasil, entende-se que o problema do país não é o racismo e sim a pobreza. Dizem que aqui não tem nenhum problema racial, que isso é coisa dos Estados Unidos, onde negros e brancos tinham que usar banheiros separados.

Mas se o problema do Brasil é social e não racial, como Seu Jorge, cantor famoso e com bastante dinheiro, sofreu racismo ao contar num clube de pessoas ricas no Rio Grande do Sul? Por que os filhos de Giovanna Ewbank e Bruno Gagliasso sofrem racismo? Porque o racista não olha a conta bancária.

E existe um pacto para a manutenção desse privilégio. É como se fosse uma manutenção do controle racial: ‘Eu mantenho isso afastando a possibilidade do outro alcançar o meu lugar’. 

Temos visto o avanço de políticas conservadoras na educação, como a proibição de livros considerados de ‘cunho político ou ideológico’ na educação básica em Santa Catarina e a expansão das escolas cívico-militares. De que forma esse movimento pode impactar o debate sobre racismo e desigualdades raciais na formação educacional e, mais adiante, no acesso à universidade e à pós-graduação?

Não é à toa que vemos nas redes sociais pessoas discutindo assuntos extremamente complexos, como violência sexual e feminicídio, de forma superficial e banalizada. O Estado, por meio da sua política educacional, está impedindo que as pessoas tenham acesso à educação das relações étnicas raciais, educação sexual, educação humana, cidadã, cultural e política.

Se formam assim sujeitos extremamente acríticos e alienados, que para políticos como o governador [Jorginho Mello] são sujeitos importantes, pois viram massa de manobra. São essas pessoas que vão querer ocupar cargos políticos dentro do governo.

Na vivência em educação básica nos deparamos com jovens que não sabem reconhecer quando são vítimas de violência sexual, adolescentes que acham normal chamar o outro de “macaco”, de “preto fedido”, que são preconceituosos com religiões de matriz africana ou debocham dos rituais.

Há como educar esses jovens que passam por esse processo de formação defasado? Quando? Na graduação? Na pós-graduação já se espera que venham com uma formação crítica. Vejo esses pacotes legislativos com muita tristeza, como retrocesso sem tamanho.

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  • ariele-lima

    Natural de Juazeiro, sertão baiano. Estudante de Jornalismo em Multimeios pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), c...

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