Um grupo de meninos adolescentes no Whatsapp organiza a disputa de “quem beija mais meninas”. Loiras, morenas ou cacheadas somam mais pontos. Magras, gordas e “feias” subtraem pontos na disputa. A auditoria das pontuações é feita com base em vídeos e fotos que comprovem as características.

Enquanto os meninos competem por um pódio baseado no domínio e subjugamento dos corpos femininos, essas meninas, por sua vez, perdem cada vez mais “pontos” e passam a sofrer uma série de violências em espaços sociais, um deles a escola.

“Ficar sabendo que você está sendo chamada de vagabunda na sua própria sala… dói. Eu não falei com a direção, é perda de tempo, eu sempre levei para a direção e nunca aconteceu nada. Vai gastar tempo, mente, vai me corroer, prefiro guardar isso para mim.” (Estudante, 1º E.M., menina, região Sudeste)

Esses são alguns dos relatos trazidos pela pesquisa “Livres para sonhar? Percepções da comunidade escolar sobre violência contra meninas”, realizada pela Serenas, organização que atua para prevenir violências baseadas em gênero no Brasil. Lançado em 2025, o levantamento teve como objetivo analisar como a violência baseada em gênero se expressa dentro e fora do contexto escolar, o papel da escola em sua prevenção e os desafios na busca por soluções.

A pesquisa foi estruturada em duas partes complementares. A etapa qualitativa, que contou com 98 participantes, combinou 15 entrevistas em profundidade com gestores escolares e de Secretarias de Educação a 25 minigrupos focais segmentados por gênero, sendo 14 compostos por professores e 13 por estudantes, todos do Ensino Fundamental II e Médio da rede pública. Esta fase teve abrangência nacional, com atividades em todas as regiões do país. Paralelamente, a fase quantitativa foi realizada por um questionário digital, que alcançou 1.383 professores.

Embora a escola seja idealizada como um ambiente de proteção e formação plena, a realidade mostra que os muros escolares não impedem a entrada das estruturas de violência e desigualdade presentes na sociedade, o que impacta diretamente nas experiências de meninas e jovens. Dados da pesquisa mostram que intervir na violência de gênero nesse ambiente exige superar barreiras críticas, como o déficit de suporte aos profissionais da educação e as barreiras culturais impostas pela comunidade escolar e pelas famílias.

As várias faces da insegurança feminina

Relatos dos entrevistados indicam que o bullying e o assédio atingem as meninas de formas distintas. Metade dos professores ouvidos reconhecem que meninas negras sofrem racismo e exclusão em atividades pedagógicas, e sete em cada dez afirmam ter presenciado ataques verbais sobre a aparência das alunas, feitos por outros alunos ou até por parte dos docentes.

Já as meninas vistas como mais “desinibidas” ou “pra frente” sofrem assédios verbais e físicos motivados pelo uso de determinadas roupas ou pelo seu comportamento social.

Gráfico elaborado pela pesquisa “Livres para sonhar?: Percepções da comunidade escolar sobre violência contra meninas”

Apesar dos meninos serem apontados como os principais agentes identificados nas situações de violência de gênero, esses padrões de violência também são reproduzidos entre as próprias meninas.

Não se trata apenas de um conflito pessoal, a rivalidade entre meninas reflete uma cultura de competição e controle sobre o corpo feminino. As pesquisadoras indicam que essa disputa, muitas vezes motivada por ciúme ou inveja, é alimentada por discursos machistas que elas aprendem desde cedo.

“Meninas ficam odiadas – as mais feias, as mais rodadas, se acham a última bolacha do pacote, nem os meninos querem, só pra comer e ir embora.” (Estudante, 3º E.M., menina, região Centro-Oeste)

A reprodução de discursos machistas por meninas é vista como um sintoma da socialização de gênero. Para se sentirem integradas ou protegidas, muitas estudantes acabam adotando e reforçando comportamentos de exclusão contra suas iguais.

Amanda Sadalla, diretora executiva da Serenas, relata que anos de experiência conduzindo rodas de conversa em escolas a fez perceber que muitas meninas eram sobreviventes de violência, mas não se reconheciam como tal e carregavam um peso de culpa que não lhes pertencia. Foi somente nesses espaços de escuta, ao aprenderem a distinguir amor de violência e cuidado de abuso, que elas puderam se reconhecer como sobreviventes.

“E quando a gente transforma essa culpa em compreensão, vem a sensação de liberdade. Por isso o slogan da Serenas é “Livres para Sonhar”, para que as meninas realmente tenham o direito de sonhar numa sociedade em que nós não tenhamos medo de sofrer violência por ser quem somos”, afirma.

O impacto da violência baseada em gênero nos meninos

O desejo de se integrar a um grupo e encontrar seus pares também afeta a maneira como os meninos interagem uns com os outros. Essa pressão para não ser excluído ou violentado resulta, muitas vezes, na internalização e reprodução do machismo em forma de “brincadeiras”.

Nessa socialização, os estudantes passam a estar predominantemente em grupos só de meninos, participar e aceitar comportamentos machistas como piada, naturalizar a violência como intrínseca ao convívio masculino e tratar as meninas como posse.

Sob essa lógica, meninos que divergem da heteronormatividade tornam-se alvos frequentes de bullying e outras violências. Como consequência, eles tendem a buscar refúgio em outros círculos sociais — muitas vezes majoritariamente femininos — ou acabam segregados das atividades escolares e sociais.

Ao serem questionados se meninos podem chorar ou expressar insegurança, os meninos concentraram suas respostas na negação dessa possibilidade. Predominou a ideia de que a esfera afetiva masculina deve ser tratada como um segredo, restringindo qualquer manifestação de vulnerabilidade aos momentos de solitude.

“Nunca! Não mesmo! Se for chorar tem que ser na calada da noite, no seu quarto, na sua casa! Se a menina chora, chega trinta para abraçar. Se o menino chora, tiram foto, coloca no Insta, vão zoar você por trinta anos.” (Estudante, 9º ano, menino, região Sudeste)

Cenário de impunidade e de vulnerabilidade 

A pesquisa identificou que a violência também pode partir de educadores e gestores. Professores são apontados como autores de abusos que escalam de olhares invasivos e comentários constrangedores em redes sociais a contatos físicos indesejados. Para os alunos e alunas, a frequência desses episódios é alimentada pela falta de punição. Essa normalização dentro das escolas cria um cenário de impunidade que causa uma constante sensação de vulnerabilidade para os estudantes.

“O professor sempre vai ter a palavra superior ao aluno, se a gente não conseguir provar, a gente nem vai levar pra frente o que a gente falou.” (Estudante, 9º ano, menino, região Sudeste)

O assédio sexual contra alunas é uma realidade reconhecida pelo próprio corpo docente: 15% dos professores admitem ter conhecimento de casos ocorridos no último semestre letivo. Os relatos incluem olhares invasivos e cantadas, até propostas inapropriadas feitas por colegas de profissão contra estudantes.

Além dos assédios, as estudantes apontaram o tratamento diferenciado por parte dos gestores escolares, evidenciado nas regras de vestimentas e acesso a práticas esportivas. Por exemplo, meninos têm a prática constante do futebol nas quadras escolares, enquanto meninas se sentem desencorajadas ou têm a necessidade de buscar locais alternativos para praticar esportes. 

Essa dinâmica ecoa em outras pesquisas, como o estudo The Schoolyards (Barcelona, 2023), de Honorata Grzesikowska e Ewelina Jaskulska, que mostra como os meninos tendem a ocupar o centro dos espaços de lazer, enquanto as meninas permanecem nas bordas, em grupos, priorizando a segurança.

Meninas são responsabilizadas pelo comportamento dos meninos

O modo como as meninas se vestem é outro ponto de tensão entre estudantes e gestores. Alunas denunciam que a gestão institucional frequentemente as responsabiliza pelo comportamento dos meninos, sob o argumento de que roupas curtas ou justas seriam ‘provocações’ capazes de desviar a atenção masculina.

“Aqui acaba preparando a gente pra vida, aqui não tem punição e lá fora também não vai ter.” (Estudante, 9º ano, menina, região Sudeste)

Questionados de forma direta sobre situações de assédio e violência contra meninas na escola, professores, gestores escolares e gestores de Secretarias de Educação afirmam que os casos são pouco frequentes. Os profissionais tendem a focar apenas em crimes chocantes e pontuais, ignorando as violências sutis que compõem a rotina das alunas. Para a Serenas, esse foco no ‘caso extremo’ impede que a escola reconheça e combata a violência de gênero estrutural que ocorre dentro de suas próprias salas de aula.

Mesmo diante de exemplos explícitos, parte dos educadores falha em identificar o viés de gênero nas agressões. Cerca de 15% dos professores não consideram que fazer piadas de conotação sexual ou comentários sobre o corpo de uma aluna configure violência baseada em gênero.

Gráfico elaborado pela pesquisa “Livres para sonhar?: Percepções da comunidade escolar sobre violência contra meninas”

Embora a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional estabeleça que a educação deve garantir o pleno desenvolvimento do indivíduo e o exercício da cidadania, a realidade das salas de aula caminha na contramão. Os impactos da violência de gênero são muitos, entre eles a evasão escolar, o desenvolvimento de quadros de ansiedade e depressão, as violências sexuais e as gravidezes precoces, e, consequentemente, a diminuição da autoestima e das aspirações para o futuro.

A percepção de que a violência baseada em gênero sabota o futuro das estudantes é quase unânime: 86% dos professores entrevistados acreditam que ela afeta negativamente a trajetória escolar das meninas; destes, 71% afirmam já ter testemunhado os danos causados por essas violências na vida de suas alunas.

Prevenção esbarra na falta de preparo dos professores

A vontade de mudar o cenário esbarra na falta de preparo, pois embora 99% dos professores defendam que a escola deve atuar na prevenção da violência de gênero, 77% deles admitem precisar de mais informações sobre o tema, mas não recebem o suporte necessário.

Entre os temas frequentes nas salas de aula estão a prevenção ao bullying e a promoção da ‘cultura da paz’, no entanto, o debate perde força quando o assunto é equidade e diversidade, refletindo as lacunas da prática pedagógica. Além disso, apenas 35% dos professores relatam ações específicas voltadas para o combate às violências de gênero.

Em sua análise, a Serenas aponta que há esforços para combater a violência, mas não para preveni-la. Embora a intenção seja resolver o conflito, frequentemente casos de violência são lidos como questões de disciplina escolar, deixando de fora o suporte das autoridades especializadas. Os números refletem esse isolamento: 56% dos casos de divulgação não consentida de imagens íntimas e 51% de toques indesejados permanecem restritos ao ambiente escolar, sem que o sistema de proteção externa seja acionado, apesar da gravidade jurídica dessas situações.

Para Amanda, prevenir a violência de gênero exige mais do que remediar danos, é necessário mudar a mentalidade dos meninos. 

“A gente precisa que as escolas ensinem sobre consentimento, sobre relações saudáveis. Sobre respeito, sobre o que é ser um menino saudável, sobre como expressar os seus sentimentos de uma forma saudável e não violenta”, acrescenta.

Entretanto, iniciativas ligadas à educação sexual e diversidade de gênero encontram barreiras que vão da gestão escolar ao ambiente familiar. Professores apontam que o receio de represálias dificulta o debate em sala. Ao mesmo tempo, a rejeição de algumas famílias, baseada em preceitos morais e religiosos, reforça a ideia de que a escola não deve intervir nessas temáticas.

Em 2022, o Catarinas pautou essas dificuldades ao lançar o especial Gênero na Escola. A iniciativa reuniu três reportagens, um vídeo educativo e uma cartilha informativa com estratégias e amparo jurídico para a abordagem de gênero no ambiente escolar, com o objetivo de qualificar o debate público e fornecer ferramentas práticas para que profissionais da educação compreendam suas defesas legais diante desse cenário.

Já na visão dos alunos e alunas, as ações realizadas pelas escolas são pouco produtivas e interessantes. A forma com que os conteúdos são apresentados é considerada repetitiva e desconectada dos problemas reais vivenciados. 

Para transformar essa realidade, a pesquisa aponta caminhos que passam, necessariamente, pelo apoio aos profissionais da educação. O estudo reforça que a formação continuada de docentes e gestores é fundamental para criar ambientes onde os estudantes se sintam seguros e ouvidos. Além disso, a revisão dos currículos e o uso de dados concretos sobre o cotidiano escolar surgem como ferramentas essenciais para que políticas públicas sejam desenhadas com base na realidade de cada escola.

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  • ariele-lima

    Natural de Juazeiro, sertão baiano. Estudante de Jornalismo em Multimeios pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), c...

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