Em um contexto de aumento da exposição de adolescentes a conteúdos de misoginia na internet, a Associação Portal Catarinas realiza a 3ª edição do Narrar Para Transgredir, projeto de educomunicação. Dedicada ao enfrentamento da violência de gênero mediada pela tecnologia, a edição foi selecionada pelo edital ELAS+ Cidadania Digital e desenvolve oficinas de comunicação e letramento em gênero com estudantes de 16 a 18 anos do Instituto Estadual de Educação de Santa Catarina (IEESC). A partir das discussões, os jovens desenvolveram pautas que serão publicadas no site do projeto.

Atualmente, 92% das crianças e adolescentes brasileiros entre nove e 17 anos são usuários de Internet, conforme a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, lançada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), em outubro deste ano. Entre os adolescentes com idade de 15 a 17 anos, 99% possui perfil em, ao menos, uma plataforma. Em paralelo, nos últimos anos, houve um crescimento de conteúdos misóginos nas redes sociais.

Por exemplo, conteúdos que propagam ódio, aversão, controle e desprezo às mulheres estão presentes em 137 canais no Youtube no Brasil, de acordo com levantamento do Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (NetLab/UFRJ) em parceria com o Ministério das Mulheres. No TikTok, aplicativo usado por 81% dos adolescentes brasileiros entre 15 e 17 anos, o algoritmo da plataforma expõe os meninos a conteúdos misóginos, que reforçam estereótipos de gênero.

Nicole Ballesteros, assistente social e uma das ministrantes das oficinas, descreve esta edição como desafiadora e, ao mesmo tempo, uma oportunidade de contribuir para a ampliação do debate sobre o crescimento da violência de gênero mediada pela tecnologia. “Os discursos de ódio têm incidido na conformação de ideias e pensamentos dos adolescentes, combinadas a uma visão antidemocrática e anti-direitos humanos. Para combater a desinformação e a misoginia, nós do Catarinas utilizamos ferramentas pedagógicas e críticas para a difusão de conhecimentos e estudos nas oficinas”, destaca. 

Durante os encontros, um dos temas que gerou debate foi o dos chamados “incels”, termo que nasce da junção das palavras celibatário e involuntário. Conforme o estudo do NetLab/UFRJ com o Ministério das Mulheres, incels partem da ideia de que são vítimas de um tipo de discriminação baseada na atratividade física e se veem condenados à solidão, o que alimenta sentimentos de frustração e raiva. 

Pesquisas já associaram essa identificação com casos de violência e o tema ganhou destaque na mídia após o lançamento da série Adolescência da Netflix, na qual um garoto de 13 anos é acusado de assassinar uma colega de escola.

“Enfrentar um problema dessa complexidade exige, necessariamente, a educação de adolescentes em letramento de gênero. Nesse sentido, contextos educacionais ganham centralidade para prevenção e combate às violências”, defende Paula Guimarães, diretora-executiva da Associação Portal Catarinas e uma das ministrantes das oficinas.

Educomunicação como motor de conscientização 

Para Letícia Fiera, professora de língua portuguesa e literatura, o projeto possibilita trabalhar temas transversais e colocar em prática a aprendizagem em situação real, por meio das pautas desenvolvidas no ambiente escolar.

“O Narrar Para Transgredir trouxe uma provocação e desafiou as e os estudantes e professores a discutir e enfrentar um tema da atualidade através de troca de ideias e opiniões”, afirma. Para ela, o projeto agrega valores aos estudantes, ao corpo docente e à gestão escolar.

A educomunicação reforça o potencial das mídias como plataformas de aprendizado e promove a conscientização sobre questões sociais, culturais e políticas. No Narrar Para Transgredir, as pautas envolvendo gênero são o ponto de partida para que as e os adolescentes se aprofundem no tema. Nesta edição, serão produzidos conteúdos sobre relações tóxicas, violência psicológica, vivências da população LGBTQIA+ e paternidade ativa.

Para colaborar com o processo de letramento midiático e de gênero dos estudantes, o planejamento das oficinas foca em estratégias pedagógicas para formação em três dimensões: humana, política e técnica. Como nas edições anteriores, as oficinas mesclam a pedagogia feminista de bell hooks e a emancipatória de Paulo Freire. Essas metodologias reconhecem as experiências e conhecimentos das e dos jovens ao criar um espaço que valoriza suas vivências.

A professora Angela Francisca, de língua portuguesa e literatura do Ensino Médio, destaca que promover espaços para debates é papel da educação e que o projeto foi de grande auxílio nesse sentido.

“Sobretudo porque abordava a reflexão a partir da oralidade e da escrita, o que nos auxiliou bastante com as questões de linguagem, e também para a reflexão sobre alguns resíduos de uma sociedade patriarcal ainda machista”, ressalta.

O edital ELAS+ Cidadania Digital é promovido pelo ELAS+ Doar para Transformar, que há 25 anos promove e fortalece o protagonismo, a liderança e os direitos das mulheres cis, trans e pessoas de outras transidentidades, e integra o programa Digital Democracy Initiative, promovido pela Aliança de Fundos de Mulheres da América Latina e Caribe.

Como acessar as pautas produzidas pelas e pelos estudantes?

As pautas produzidas pelos estudantes que participam da 3ª edição do Narrar Para Transgredir, assim como de edições anteriores, são disponibilizadas no site oficial do projeto.

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