Vivemos tempos em que parar é quase um ato de resistência. Somos empurradas para uma existência hiperconectada, em que estar disponível o tempo todo é sinal de produtividade, e dar conta de tudo simultaneamente virou símbolo de competência. Responder mensagens durante reuniões, cuidar de demandas domésticas no intervalo do trabalho, manter a atenção dividida entre telas, vozes, notificações — tudo isso é naturalizado como parte da vida atual.

A multitarefa, nesse contexto, não é apenas um hábito: é uma imposição disfarçada de virtude. A ilusão de que conseguimos nos multiplicar, dar conta de tudo, estar em todos os lugares — mesmo que em fragmentos — esconde uma sobrecarga emocional e cognitiva que produz efeitos profundos e silenciosos. Mas essa exigência não recai igualmente sobre todos os corpos.

Para milhões de mulheres, a jornada não é dupla — é contínua. O tempo produtivo se esgarça entre ligações, planilhas, reuniões, o lanche da criança, a ligação para o médico, o grupo da escola, a lista do mercado, o cuidado com os pais, o almoço de domingo, a preocupação com o planeta. É um tempo picotado, reativo, atravessado por urgências que não se anunciam como trabalho, mas que exaurem como tal.

Ainda que nem sempre sejam as executoras diretas, há, muitas vezes, o esforço invisível de organizar, planejar, prever, lembrar e cuidar. É o peso de estar sempre à frente das necessidades, de manter o mundo girando mesmo quando nada parece estar em movimento. A carga mental desgasta, ocupa espaço no pensamento, impede o descanso mesmo no silêncio. E recai, de forma massiva, sobre as mulheres; sobretudo as mães, sobretudo as que não podem terceirizar.

Essa sobrecarga tem nome: trabalho do cuidado. Invisível, não remunerado, desigualmente distribuído. É o que permite que o mundo funcione — mas ainda é visto como escolha individual, vocação natural ou pior: detalhe irrelevante.

O cuidado segue sendo tratado como esfera privada, como algo que se organiza a partir das nossas “escolhas” “na esfera privada”. Só que o que se chama de esfera privada, muitas vezes, é um arranjo familiar sustentado por uma mulher.

E o que se chama de escolha, muitas vezes, é ausência de alternativa. Na prática, são elas que ajustam seus horários, flexibilizam o trabalho, deixam de estudar, adoecem.

Falar em direito ao cuidado é reconhecer que cuidar é essencial à vida e que, por isso, deve ser amparado por políticas públicas. É garantir creche, licença parental para todos os gêneros, horário de trabalho compatível com a vida, investimento em saúde mental. É distribuir o cuidado entre Estado, comunidade, empresas e famílias. É deixar de romantizar a supermulher para construir uma sociedade sustentável para todos.

Essa reflexão, no entanto, não é neutra. Pressupõe condições materiais, suporte, margem de escolha; reconhecimento de privilégios. Falar em pausa é falar também de quem pode se dar ao direito de parar — e de quem nunca pôde. Para muitas mulheres — em especial as mais vulneráveis, negras, pobres e periféricas — não se trata de reorganizar o tempo, mas de simplesmente sobreviver. São elas que cuidam dos filhos e dos filhos dos outros, das casas e das casas dos outros — sem que seu próprio cansaço importe. A elas raramente é dada a chance de parar, muito menos de refletir sobre o que significa parar.

É necessário, portanto, construir uma política de cuidado que reconheça todas essas complexidades. Ninguém deveria viver tudo ao mesmo tempo, o tempo todo, sozinha. E ninguém deveria ser deixada para trás na construção de um tempo mais justo.

Cinco minutos importam. Importam quando se tem tempo para respirar, para estar, para não fazer nada. Importam quando se tem direito à pausa, ao afeto, ao descanso. Importam quando o cuidado deixa de ser fardo solitário para se tornar um compromisso coletivo.

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  • Melina-Fachin

    Advogada, pós-doutora em democracia e direitos humanos no Centro para os Direitos Humanos e a Democracia da Universidad...

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