Depois de 45 dias fora do ar, o perfil do Tapajós de Fato no Instagram foi reativado pela Meta, empresa proprietária da plataforma. A conta havia sido suspensa em 28 de maio, e os conteúdos vinculados a ela corriam o risco de ser excluídos permanentemente. 

Fundado em 2020 no oeste do Pará, o veículo de comunicação popular, alternativo e independente reúne uma comunidade de mais de 90 mil pessoas no Instagram e atua para amplificar perspectivas de populações historicamente invisibilizadas da Amazônia. Por isso, a recuperação da conta representa uma vitória para o veículo, mas também para o direito à informação, a pluralidade de perspectivas e o fortalecimento do jornalismo independente. 

No dia em que o perfil foi suspenso, a equipe do Tapajós de Fato recebeu uma notificação informando a possibilidade de recorrer da decisão. Todos os procedimentos solicitados pela plataforma foram cumpridos. Apesar disso, dias depois, a equipe foi informada de que a conta havia sido desabilitada.

Durante a suspensão, o trabalho do Tapajós de Fato não parou, mas foi fortemente impactado pela perda de acesso à plataforma em que o veículo concentrava sua maior audiência. Com uma cobertura voltada aos direitos humanos, aos povos indígenas, às comunidades tradicionais, ao meio ambiente, à cultura e à política, o veículo produz informações a partir dos territórios e das populações diretamente afetadas pelas decisões políticas e econômicas que moldam a região.

Retirar essa produção de circulação significa limitar o acesso da sociedade a perspectivas fundamentais para compreender a Amazônia. 

A reativação ocorreu após uma ampla mobilização em defesa do veículo, que reuniu organizações, iniciativas jornalísticas e pessoas comprometidas com a liberdade de expressão e o direito à informação. Embora deva ser celebrada, a recuperação da conta não apaga os impactos provocados pela suspensão nem elimina a necessidade de respostas sobre os critérios adotados pela plataforma.

O caso não é isolado. O perfil da Cajueira no Instagram, primeira curadoria de conteúdos do jornalismo independente dos estados do Nordeste, também sofreu suspensão recentemente, sem explicação adequada, justificativa transparente ou possibilidade efetiva de contestação.

Levantamento da organização CTRL+Z aponta aumento expressivo nos registros de contas banidas em plataformas digitais. Somente em 2026, foram registrados 51.856 casos de banimento, o equivalente a 37% de todos os registros acumulados desde 2014. Apenas no último mês, foram contabilizados 23.070 casos, representando 17% do total histórico.

Quando veículos ficam sujeitos a decisões tomadas por plataformas digitais sem transparência adequada, não é apenas o exercício do jornalismo que está em risco. Também se restringe o direito da sociedade de acessar informações de interesse público e de diferentes perspectivas.

As empresas de tecnologia passaram a desempenhar um papel central na distribuição de informações, mas suas decisões muitas vezes são tomadas sem transparência suficiente, sem mecanismos adequados de contestação e sem considerar os impactos sobre o interesse público. Quando um veículo jornalístico perde o acesso às suas audiências por decisão unilateral de uma plataforma, todo o ecossistema informativo e democrático é afetado. 

A suspensão do perfil do Tapajós de Fato evidencia a necessidade de mecanismos mais transparentes, acessíveis e justos para analisar e revisar decisões que afetam veículos de comunicação. Também demonstra a importância da mobilização coletiva para impedir que conteúdos jornalísticos de interesse público sejam apagados ou tenham sua circulação restringida. 

Celebramos a reativação da conta do Tapajós de Fato e reafirmamos nossa solidariedade ao veículo. Seguiremos cobrando da Meta explicações sobre a suspensão e medidas que garantam a preservação do conteúdo produzido ao longo de sua trajetória. Garantir a presença de iniciativas jornalísticas independentes nos espaços digitais é condição fundamental para a diversidade informativa, a liberdade de expressão e a democracia. 

Defender o jornalismo independente é defender o direito à informação. 

Este editorial é assinado por:

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