O caso Banco Master reacendeu o debate sobre as relações entre poder econômico, influência política e captura das instituições públicas. Para a antropóloga argentina Rita Segato, esse tipo de articulação faz parte de um processo que ela chama de mafialização da política: um sistema em que interesses privados, agentes políticos, setores econômicos, grupos religiosos e organizações criminosas passam a atuar de forma integrada.

Na perspectiva da pesquisadora, compreender a mafialização da política também ajuda a explicar por que a violência contra mulheres, os feminicídios, os estupros coletivos e as disputas em torno dos direitos reprodutivos ocupam um lugar central nas relações de poder contemporâneas.

O que é mafialização da política?

A mafialização da política é um conceito desenvolvido por Rita para explicar o processo pelo qual interesses privados capturam o Estado e influenciam decisões públicas em benefício próprio.

Nesse modelo, as fronteiras entre o legal e o ilegal tornam-se cada vez mais difusas. Empresas, agentes políticos, setores religiosos, organizações criminosas e instituições públicas passam a operar em redes de interesses compartilhados.

O caso Banco Master evidenciou justamente relações entre dinheiro, influência política e estruturas institucionais. Mais do que um escândalo financeiro, o episódio reacendeu o debate sobre novas formas de exercício do poder e sobre como essas redes atravessam diferentes esferas da sociedade.

Como Rita Segato relaciona política, economia e violência contra mulheres?

Segundo Rita, o mundo vive um período marcado por novas guerras, diferentes dos conflitos tradicionais entre Estados.

Hoje, as disputas por poder envolvem empresas, agentes políticos, organizações criminosas e setores econômicos que competem por recursos, influência e controle territorial.

Nesse cenário, o corpo das mulheres deixa de ser apenas alvo de violência individual e passa a ocupar um lugar estratégico na demonstração de poder.

Para a antropóloga, controlar os corpos femininos significa reafirmar autoridade, disciplinar comportamentos e enviar mensagens de dominação para toda a sociedade.

Por que o corpo das mulheres se torna um território de disputa?

Na interpretação de Rita, a violência de gênero não é apenas consequência do machismo ou de conflitos domésticos.

Ela funciona como uma linguagem política.

O corpo das mulheres transforma-se em um território simbólico onde grupos demonstram força, reafirmam hierarquias e consolidam relações de poder.

Por isso, agressões sexuais, feminicídios e ataques aos direitos reprodutivos devem ser analisados para além da esfera privada, como parte de disputas estruturais.

Estupro coletivo funciona como demonstração de poder

Dados do Ministério da Saúde mostram que, entre 2022 e 2025, o Brasil registrou 22,8 mil casos de estupro coletivo, média superior a 15 ocorrências por dia. Do total, cerca de 14,4 mil vítimas eram crianças e adolescentes e 8,4 mil eram mulheres adultas.

Segundo Rita, o estupro coletivo funciona como um ritual de afirmação masculina.

A violência não é praticada apenas contra a vítima. Ela também busca demonstrar poder diante de outros homens, reforçando vínculos de pertencimento e relações de dominação.

“Embora a agressão seja executada por meios sexuais, sua finalidade não pertence à ordem sexual, mas à ordem do poder”, explica a antropóloga no livro “A guerra contra as mulheres” (2017).

Nessa perspectiva, o estupro coletivo revela uma estrutura em que o controle sobre o corpo das mulheres é utilizado como prova de autoridade e masculinidade.

Feminicídio também expressa relações de poder

O Brasil registrou 1.568 vítimas de feminicídio em 2025, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, aumento de 4,7% em relação ao ano anterior. Em média, quatro mulheres foram assassinadas por serem mulheres todos os dias. A maior parte dos crimes foi cometida por parceiros ou ex-parceiros.

Na análise de Rita, esses assassinatos frequentemente funcionam como punição contra mulheres que romperam relações de controle, encerraram relacionamentos ou exerceram autonomia.

O feminicídio, portanto, não pode ser compreendido apenas como resultado de conflitos individuais. Ele expressa mecanismos sociais que procuram preservar estruturas de poder baseadas na desigualdade de gênero.

“Trata-se de crimes do patriarcado colonial moderno de alta intensidade contra tudo o que o desestabiliza, contra tudo o que parece conspirar e desafiar seu controle”, escreve Segato na obra lançada em 2022 no Brasil.

Rita Segato | Imagem: reprodução.

Qual é a relação entre religião, política e direitos das mulheres?

Nos últimos anos, setores religiosos ampliaram sua influência sobre debates relacionados ao aborto, à educação sexual e aos direitos reprodutivos.

Na perspectiva da mafialização da política, essas disputas também fazem parte da reorganização das relações de poder.

Quando interesses econômicos, políticos e religiosos convergem, o corpo das mulheres torna-se um campo de disputa moral, jurídica e institucional.

O controle da reprodução, da sexualidade e da autonomia feminina deixa de ser apenas um debate sobre costumes e passa a integrar estratégias mais amplas de controle social.

“A religião hoje se apega ao controle fundamentalista dos corpos (e aqui coloco no mesmo nível o véu obrigatório no Islã e a obsessão antiaborto entre os cristãos) por razões de soberania jurisdicional, de controle do rebanho e de ostentação desse controle, e não por uma ordem teológica, moral ou doutrinal”, analisa Rita.

O que o caso Banco Master revela sobre a mafialização da política?

Embora o caso Banco Master esteja relacionado principalmente a questões financeiras e institucionais, ele ajuda a compreender o conceito de mafialização da política formulado por Rita.

Para a antropóloga, a mesma lógica que permite a captura do Estado por interesses privados também estrutura formas contemporâneas de violência, inclusive a violência contra mulheres.

Economia, política, religião, crime organizado e controle social deixam de atuar separadamente e passam a integrar um mesmo sistema de poder.

Sob essa perspectiva, a guerra contra as mulheres não ocorre de forma isolada. Ela revela como o poder é organizado, disputado e exercido na sociedade contemporânea.

“O aparato do Estado e seu território são atravessados por novas realidades jurisdicionais — empresariais-corporativas, político-identitárias, religiosas e bélico-mafiosas — que capturam para si uma influência importante na tomada de decisões e no acesso a recursos”, afirma a pesquisadora.

Quem é Rita Segato?

Antropóloga argentina, reconhecida e premiada internacionalmente pelos trabalhos em torno do feminismo e da violência contra as mulheres. É professora emérita da Universidade de Brasília (UnB), onde lecionou entre 1985 e 2010.

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Rita Segato | Imagem: reprodução.

Trabalhou como perita antropológica e de gênero no histórico julgamento da Guatemala, em que se condenaram membros do exército pelos delitos de escravidão sexual e doméstica contra mulheres maias da etnia g’egchi

Em 2002, elaborou uma proposta de políticas públicas e ações afirmativas para populações indígenas, junto com um grupo de 41 mulheres indígenas no Brasil. No mesmo ano, foi coautora da primeira proposta de cotas para estudantes negros e indígenas na educação superior brasileira.

Entre as suas obras estão “A Nação e seus Outros” (2007), “A guerra contra as mulheres” (2017), “Contrapedagogias da crueldade” (2018), “Crítica da colonialidade em oito ensaios” (2021) e “Cenas de um pensamento incômodo: gênero, cárcere e cultura em uma visada decolonial” (2022).

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