Estar revivendo novamente uma chacina no estado do Rio de Janeiro é um absurdo. Na verdade, até a palavra absurdo é pequena: o que estamos vivendo é uma nova chacina, mas em lugares onde isso já é comum, lugares a que estamos acostumados.

A diferença desta não está em ter ocorrido no Complexo do Alemão e na Penha. A diferença está no número ainda maior. Chacinas sempre acontecem dentro das favelas e têm, em geral, o Estado à frente das ações, comandando.

O Estado do Rio de Janeiro é um ‘fabricador’ de familiares de vítimas e de jovens assassinados. Ele cria pessoas que obrigatoriamente terão de viver um luto eterno; ele fabrica o adoecimento a partir dessas chacinas — porque quem não tinha doenças as adquire, e quem já as tinha, as vê piorarem.

Estamos chorando hoje por 132 mortes, mas com a certeza de que vamos chorar amanhã por mais. É isso que dói. Não será a última. Não sei se a próxima terá mais ou menos mortes, mas acontecerá, nas mesmas localidades.

Se não for no Alemão ou na Penha, será no Chapadão, em Manguinhos, no Jacaré, em alguma favela da Baixada Fluminense — pode até acontecer nas favelas da Zona Sul.

Sendo favela, o sistema entende que pode: são lugares permitidos para as chacinas. Porque são locais historicamente destinados a negros e pobres, vistos como infectos, como se ali não existissem seres humanos. Então, ali pode tudo. “Eu posso matar, mas não é matar com um tiro: eu tenho que matar e humilhar; eu tenho que matar e não justificar. Eu tenho que matar perto da mãe o filho dela e não deixar, de maneira nenhuma, que ela se aproxime. Eu tenho que matar e decapitar, arrancar cabeça e braços, e fazer com que ela tire aquilo da minha frente.”

Humilhar — essa atrocidade — faz parte da tortura e do racismo perverso. Há quem se beneficie com isso, seja para o racismo recreativo ou para plataformas políticas. Esse tipo de atitude dá voto, porque existe uma minoria com muito dinheiro que manda; são eles que são eleitos e que estão no poder desde sempre.

Enquanto isso, as pessoas que vivem nas favelas não têm direito a ter perícia. Essas pessoas não têm direito a ter respeito nos hospitais públicos, nem vivas e nem mortas. Essas pessoas não têm direito a ter direito. Antes da chacina, essas pessoas não recebiam comitiva nos territórios para ouvi-las, e o que estamos vendo hoje só acontece por causa de uma chacina.

Digo ao seu Cláudio Castro: a comitiva de diversas pessoas tinha que ter ido quando a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) aprovou uma lei que concedia aos policiais um benefício extra se matassem mais. A chamada “gratificação faroeste” nada mais é do que uma licença para matar. Já não basta o governador ordenar: a Alerj aprova uma lei, se você matar, você ganha mais. Então, se matar 132, o bolso de quem vai ficar como? Esse é o pensamento deles.

Dizem que só devemos chorar pelos quatro policiais assassinados. É óbvio que também devemos sentir por eles — são vidas, tinham família, mãe e pai que sofrem. Mas por que apenas a família deles merece afeto, consideração e respeito, e as nossas não? Por que não podemos falar das mães sobre os corpos para reconhecer seus filhos?

Por que, para nós, é preciso ouvir um parlamentar como Arthur do Val, ou relembrar as palavras de ex-governadores como Sérgio Cabral, para que reafirmem, com desprezo, que “dos nossos úteros nasce uma juventude que eles podem matar”? Por que, quando se trata de nós, o respeito desaparece? Com a nossa dor, muitos tripudiam, dançam em cima, transformam sofrimento em espetáculo — gritam, sorriem, zombam. Por que, para a gente, tem que ser sempre assim?

Ninguém se solidariza. Ninguém acredita que do nosso corpo sai sangue vermelho como do deles. Ninguém acredita que a gente deita e acorda como eles, que a gente come como eles, que a gente paga imposto. Quando a gente engravida, a gente quer criar. Quando a gente pare, a gente beija, a gente abraça. Na hora do nascimento, a gente chora ao ver a carinha. Por que não podem ter esses pensamentos em relação a nós?

A política genocida não é só do Cláudio Castro. Ele está sendo o pior, mas isso vem de anos.

Vamos falar desse número de 132, mas vamos falar do Jacarezinho: 28. Vamos falar de Vigário Geral: 21. Vamos falar de Acari: 11. Vamos falar da Candelária: 8.

Vamos falar da Penha, que os moradores também tiraram corpos da mata. Vamos falar do Salgueiro, em São Gonçalo, que as mães tiveram que entrar em lugares totalmente infectos, no Mangue, para poder buscar os corpos dos seus filhos

E aí, a única desculpa é “ter envolvimento”, “vende droga”, “bandido”, “traficante”. E o da Faria Lima? E o Roberto Jefferson? E a PEC da Bandidagem? E toda essa corja que sabemos que são os verdadeiros responsáveis por essas mortes e que pegam todo o dinheiro para si, com a desculpa de Deus e do povo? Eles podem tudo?

Eles tomaram nossos lugares nas universidades e no poder. Agem como se pudessem: credenciados a vestir terno, a empunhar uma caneta bonita e a assinar documentos e ordens que decretam nossas mortes.

Não adianta fazer comitiva só para falar dos 132. Hoje a favela sabe muito bem o que quer. A juventude negra sabe o que quer. As mulheres e mães negras sabem o que querem. Não ficaremos caladas. Não somos submissas. E é de punho cerrado que vamos buscar justiça.

O que eles mais odeiam é o que mais vamos fazer: gritar por memória, verdade, justiça e reparação. Vidas negras importam. Enquanto houver uma mulher negra se movimentando, todas nós nos movimentaremos — pelas nossas vidas e pela vida dos nossos.

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    Educadora social, ativista, defensora dos direitos humanos, co-fundadora do Movimento Mol...

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