“Honrar a beleza e a vida da Catarina, mantendo viva sua presença nas coisas bonitas que ela viveu e nas marcas que deixou em quem conviveu com ela.” Foi assim que a artista visual independente Claudia Lima Silveira, conhecida como Cacau Mello, definiu o sentido do mural em homenagem a Catarina Kasten, construído por ela e Janaína Piantino, com a colaboração de Thalyta Bianca Argivaes e Rogério Padial, em uma das paredes do Centro de Comunicação e Expressão (CCE) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde Catarina estudava e construiu parte importante de sua trajetória acadêmica.

Cacau, que também é tatuadora, explica que a homenagem coletiva surge como uma forma de reconhecer a trajetória de Catarina diante da violência que marcou sua morte. Catarina Kasten foi assassinada em novembro de 2025, enquanto percorria uma trilha na região da Praia do Matadeiro, no Sul da Ilha, em Florianópolis (SC). Horas depois, o corpo da professora de inglês e pesquisadora, foi encontrado por turistas em uma área de difícil acesso, logo no início do percurso. 

O caso teve forte repercussão em Santa Catarina e ganhou dimensão nacional ao mostrar os altos índices de violência contra as mulheres registrados no estado. Entre 2020 e 2025, foram contabilizadas 596 mortes violentas de mulheres, das quais 396 foram classificadas como feminicídio, segundo dados reunidos pelo Mapa do Feminicídio, o que equivale a cerca de dois em cada três casos com motivação de gênero. O estado também ultrapassa a média nacional de feminicídios: enquanto o índice no país gira em torno de 40,3%, em Santa Catarina chega a 61,4%

“Tentaram calar nossa voz mais uma vez”

A escolha do local para o mural não foi por acaso. A intervenção aconteceu poucos dias depois de um outro espaço de homenagem a Catarina, criado no mesmo local, nas dependências da UFSC, ter sido alvo de sucessivas depredações. O envolvimento da pesquisadora com a universidade ampliou ainda mais o impacto da comunidade acadêmica em relação à sua morte e às depredações ao memorial. Sua pesquisa de mestrado tratava do ensino e envolvia diretamente estudantes, o que fez com que sua ausência fosse sentida também como uma interrupção de processos coletivos.

A professora, doutoranda Thalyta Bianca Pinto Aguiar Argivaes, e também amiga de Catarina, acompanhou de perto esse processo e relembra como a construção do memorial surgiu ainda nos primeiros dias de luto coletivo. “Desde a perda da Catarina, as pessoas se conectaram muito. No velório, algumas artistas já estavam organizando ações, e professores e colegas pensavam em fazer algo na universidade como um memorial. Tinha um canteiro que não estava sendo usado e pensamos que ali deveria ser um local de memória e reconhecimento. Conseguimos autorização e plantamos uma árvore. Também colocamos uma placa com a foto da Catarina com a frase: ‘Justiça por Catarina Kasten: basta de feminicídio’.”

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Foto da placa antes de ser depredada | Crédito: Thalyta Bianca Argivaes.

A iniciativa, no entanto, foi interrompida por episódios de violência. A placa foi arrancada ao menos três vezes em um intervalo de poucos dias. Em duas ocasiões, apareceu jogada nas proximidades do jardim; na terceira, desapareceu completamente. Embora o local conte com câmeras de segurança, a equipe responsável informou que as imagens não registraram a ação.

A primeira retirada da placa chegou a ser interpretada como consequência da chuva, mas a repetição dos episódios acendeu mais preocupações. “Colocamos outra, depois reforçamos com madeira, depois com ferro. Na terceira vez, a corda estava cortada. Foi aí que percebemos que era um ataque e que era mais uma violência. Foi uma violência difícil de assimilar, que se somou à dor já deixada pela morte. Para quem acompanhou de perto, a sensação era de uma nova agressão, como se a memória também estivesse sendo atingida. Tentaram calar nossa voz mais uma vez”, conta Thalyta.

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Local onde estava a placa após depredação Crédito: reprodução.

Após o episódio, artistas visuais se reuniram e começaram a pensar na criação de um mural que fosse feito em alguma parede e se eternizasse como memória e resistência. Cacau conta que o convite para a ação já tinha partido do companheiro de Catarina, Roger Gusmão.

“Quando ele me chamou no Instagram convidando para essa homenagem, eu não pensei duas vezes. Foi como uma confirmação de que minha arte podia ajudar de alguma forma. Esse convite resgatou algo dentro de mim e da minha arte, me fez ver o quanto importa a nossa voz estar ativa e mostrar que não vamos aceitar o que está acontecendo, me fez abrir os olhos para essa epidemia de feminicídio que estamos vivendo e que devo lutar pelos meios que eu tenho, que é através da arte”, relembra. 

Cores que celebram sua alegria, andorinhas que guardam sua liberdade 

Quando lembra do momento em que teve contato com o caso, Cacau fala de uma sensação que mistura identificação e ruptura. “Eu lembro de quando li a notícia [da morte de Catarina] e o quanto aquilo me impactou. Eu pensava direto nela. Talvez por ter acontecido tão perto, talvez porque ela era uma mulher parecida comigo, que poderia ter sido minha amiga”, conta.

Antes mesmo de qualquer convite, a artista chegou a cogitar produzir algo sobre o caso, mas recuou. “Havia o cuidado de não invadir a dor de quem estava mais próximo. Minha arte sempre foi política, sempre abordou o feminismo. Eu pensei em fazer algo, mas achei que podia ser invasivo com a família naquele momento”, explica.

Nascida na capital catarinense, Cacau sempre teve uma relação de confiança com o território. Caminhar sozinha, fazer trilhas e ocupar espaços ao ar livre eram práticas comuns na sua rotina. “Eu sempre fui de sair, fazer trilha, andar sozinha. Aquilo mexeu muito comigo”. A sensação, segundo ela, foi de perda de uma segurança que parecia natural até então.

A construção visual do mural partiu de um cuidado atento em preservar a complexidade de quem Catarina foi em vida, sem permitir que sua história fosse reduzida à violência que a interrompeu. Sobre como foi pensada a identidade visual, Cacau conta que mesmo sem ter conhecido pessoalmente Catarina, buscou se aproximar por meio de fotos, áudios e relatos, numa tentativa de construir uma imagem que afirmasse sua presença para além da morte. 

“A ideia foi usar cores alegres, como ela. As andorinhas representam as tatuagens que ela tinha e também a liberdade que seguimos buscando. O brilho é para mostrar que ela segue iluminando. A vida já foi tirada. A gente não pode deixar que a história de nenhuma mulher seja também”.

Durante a execução da produção artística, houve muita emoção: “Teve um momento em que as amigas de Catarina agradeceram e falaram que aquele tinha sido o último lugar onde a viram antes de sua morte. Foi muito forte. Me emocionei muito pintando e depois, editando o vídeo desse dia, não consegui conter a emoção. Ver como a arte pode dar lugar de conforto e alegria também nos momentos difíceis… trazer memória e sentimentos através da arte pode impactar pessoas”, diz.

Janaína Piantino, técnica de enfermagem, tatuadora paramédica que atua com mulheres vítimas de câncer de mama e artista visual ligada à arte urbana, integra o coletivo Lambe Floripa e participou diretamente da construção da homenagem. Foi dela a criação do stencil com o rosto de Catarina, um processo que exigiu tempo e envolvimento emocional.

“Eu fiz a máscara de stencil, desenhei, recortei. Eu ficava fazendo os recortes do rosto dela à noite, enquanto meu filho dormia. Foi um processo de reflexão, de pensar em tudo o que aconteceu e em como eu poderia contribuir para que ela não fosse esquecida. Esse sempre foi o principal motivo: ela não ser esquecida”, relata. 

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Stencil com o rosto de Catarina | Crédito: Janaina Piantino.

Janaína lembra que a praia do Matadeiro fazia parte da sua rotina e de tantas outras mulheres. Hoje, essa relação foi atravessada pelo medo. “Era o percurso que eu fazia. Eu acordava cedo, colocava um biquíni, pegava a prancha, ia nadar, ver o sol nascer. Saía sem chave, sem celular. Era um lugar onde a gente se sentia em casa”, afirma. 

No entanto, a confiança de estar em espaços considerados seguros, como uma trilha ou uma praia, foi profundamente abalada após o crime. “Hoje tenho muitas amigas que não vão mais para lá, nem com os filhos. Ou por medo, ou pela memória. Espero que nossa arte mostre o quanto podemos ser fortes e que essa história não caia no esquecimento, para dizermos todas que basta de violência”. 

Para quem convivia com Catarina, a presença se manifesta de forma íntima e cotidiana. O mural artístico, construído de forma coletiva, se expressou como uma linguagem que resiste.

“Passar na frente do mural e ver o rosto da minha amiga no lugar onde eu sempre encontrava ela dá uma aquecida no coração. A gente sente ela um pouco mais perto”, complementa Thalyta.

Catarina também é lembrada na websérie “Ausências: as histórias por trás do Mapa do Feminicídio”, uma realização do Ministério Público de Santa Catarina dedicada a retratar histórias de mulheres mortas pela violência de gênero. A produção mostra trajetórias interrompidas por relacionamentos abusivos ou pela violência motivada pela condição de gênero. O episódio “No caminho de Casa – A história de Catarina Kasten” encerra a série ao evidenciar os impactos humanos do feminicídio, tanto para quem parte quanto para quem fica.

Memorial Catarina Kasten 

No fim de abril deste ano, a UFSC inaugurou o Memorial Catarina Kasten, em frente ao Centro de Comunicação e Expressão (CCE). A homenagem, organizada pelo Programa de Pós-Graduação em Inglês, no qual Catarina cursava mestrado, reuniu cerca de 200 pessoas, entre familiares, colegas, professores e representantes da universidade, em um ato marcado pela comoção e por manifestações contra a violência de gênero.

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Inauguração do Memorial Catarina Kasten | Crédito: Gustavo Diehl/Agecom UFSC.

O memorial conta com um banco vermelho, símbolo da luta contra a violência contra as mulheres, um jardim e uma placa com referências à trajetória de Catarina. Durante a cerimônia, também foram plantadas novas mudas de flores e um manacá-da-serra em sua memória. Além do memorial, o CCE prepara uma sala de estudos que receberá o nome da estudante. 

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Memorial Catarina Kasten | Crédito: Gustavo Diehl/Agecom UFSC.

A homenagem acontece em meio ao andamento do processo judicial que investiga o feminicídio de Catarina e mantém o caso em evidência na comunidade universitária. O caso segue em tramitação na Justiça. Giovane Correa Mayer, de 21 anos, preso preventivamente pelo crime, foi pronunciado e deverá ir a júri popular. Réu no processo desde dezembro de 2025, ele responde por feminicídio qualificado, estupro e ocultação de cadáver. Segundo o Tribunal de Justiça de Santa Catarina, ainda não há data definida para o julgamento, pois o processo segue em fase de recursos.

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  • Ediane Oliveira

    Jornalista e produtora cultural, é mestre em Antropologia pela UFPel e doutoranda em Jornalismo na UFSC. Pesquisa mídia...

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