Alerta de gatilho: este conteúdo contém relatos explícitos de tortura e violência sexual. Se você é sensível a esses temas, prossiga com cautela.

A condenação de Jair Messias Bolsonaro por participação em uma tentativa de golpe de Estado carrega forte simbolismo para quem conhece e tem consciência das perversidades cometidas na ditadura militar no Brasil e em outros países da América Latina.

Não é apenas uma vitória da democracia, mas também das mulheres, tantas vezes atacadas por ele. No julgamento do impeachment de Dilma Rousseff, o então deputado federal votou homenageando o coronel Brilhante Ustra: “o terror de Dilma Rousseff”, como disse. 

A cena grotesca contra a mandatária do país, torturada durante a ditadura, deu o tom do que estava por vir: golpe e violência de gênero. Desde então, vimos os limites das violências se alargarem, cada vez mais naturalizadas no espaço público.

Não é acaso a ligação entre ditadura e violência contra mulheres: militarismo e repressão sempre se sustentaram no patriarcado. A Comissão Nacional de Verdade não soube quantificar os estupros, mas reconheceu que foi uma prática disseminada para humilhar e subjugar mulheres. 

Os relatos das vítimas expõem a crueldade extrema dessas violências, que envolviam o uso de instrumentos de tortura como ácido, álcool, alicates, canivetes, facas, velas e cigarros acesos, cabos de vassoura, cordas, bastões elétricos, máquinas de choque, cassetetes e até mesmo furadeiras, além de insetos e animais, como baratas, ratos, cobras, até jacarés. 

As mulheres, porém, não eram torturadas apenas pelo que sabiam, mas por desafiarem o que se esperava de “ser mulher”. O relatório aponta que foram punidas com humilhações e torturas por romperem o papel de “esposa e mãe” e ousarem ocupar a política, espaço historicamente masculino.

As violências iam muito além da sexual. A CNV registrou casos de desnudamento forçado, abortos provocados, ameaças de esterilização, separação forçada dos filhos, tortura de familiares, uso da maternidade como instrumento de repressão e diversas formas de humilhação dirigidas especificamente às mulheres. 

“Mutilações nos seios privaram mães de amamentar seus bebês. Úteros queimados com choques elétricos tornaram muitas mulheres incapazes de engravidar ou de levar adiante uma gestação”, diz trecho do relatório.

Exemplo é o caso de Cristina Moraes Almeida que sofreu mutilações na região do tórax e nos seios e teve a perna estraçalhada por uma furadeira.

Ainda de acordo com o documento, “a ‘honra’ daqueles considerados inimigos pelo aparato repressivo também foi atacada no corpo de ‘suas mulheres’ — corpos historicamente tratados como butim nas mais diversas guerras”. Para além das inúmeras injúrias dirigidas às famílias de presos políticos, eram frequentes também as ameaças de estupro contra suas filhas e companheiras. Muitas eram estupradas na frente de seus maridos, como forma de aumentar a humilhação.

Amelinha Teles, jornalista que teve os filhos raptados e foi colocada diante deles após sofrer torturas físicas, relatou em audiência pública que, apesar de não gostar de trazer a memória esses fragmentos, reconhece a importância de tratar de verdade e gênero, ressaltando como os agentes do Estado se aproveitaram das desigualdades entre homens e mulheres para intensificar a tortura.

“Numa dessas sessões, um torturador da Operação Bandeirantes (…), eu amarrada na cadeira do dragão, ele se masturbando e jogando a porra em cima do meu corpo”, recordou.

A moral perversa da ditadura não poupou nem mulheres grávidas, submetidas a situações tão extremas que provocaram abortos. “Eu certamente abortei por conta dos choques que eu tive nos primeiros dias, nos órgãos genitais, nos seios, ponta dos dedos, atrás das orelhas”, disse Izabel Fávero em depoimento à CNV.

A memória e a verdade, em um país que não curou suas feridas, não se constroem apenas com discursos, mas com justiça. A ausência de punição a militares e agentes da ditadura que cometeram essas violências deixou um rastro de impunidade e abriu frestas para novas investidas autoritárias.

E quando discursos de autoridades públicas, eleitas democraticamente pelo voto, servem para elogiar ditadores, clamando tortura contra uma mulher, que no caso é a mandatária do país, a situação se torna ainda mais grave. O voto de Bolsonaro contra Dilma feriu todas nós, mulheres, mas não somente. Um país que aceita que um parlamentar elogie um torturador dentro do Congresso sem punição acaba tendo de prestar contas consigo mesmo em algum momento.

A condenação de Bolsonaro é uma prestação de contas da justiça com a sociedade brasileira pelo escalonamento da violência: pelas mortes na pandemia, pelas execuções policiais, pelo incentivo à violência contra jornalistas, especialmente às mulheres, pelo desprezo à democracia.

Como disseram, sem pudor no cinismo, durante o impeachment de Dilma, que se tratava de um impedimento “pelo conjunto da obra”. Pois Bolsonaro, para nós que sentimos as dores da sua perversidade, foi agora condenado justamente pelo conjunto da obra.

Vimos de muito perto a banalidade do mal: a naturalização da ideia de que tudo bem elogiar um torturador, de que tudo bem pedir a volta da ditadura, de que tudo bem cogitar que uma mulher só não seria estuprada por “não merecer”. Essa aceitação e relativização da violência, sobretudo misógina, se aproximaram de nós de forma assustadora, muito mais do que jamais imaginamos ou gostaríamos.

Dias atrás, enquanto minha mãe preparava o almoço, conversamos sobre esse episódio em que Bolsonaro, enquanto deputado, elogiou um torturador para humilhar a presidenta do país. Falei sobre os ratos na vagina das presas. Ela ficou perplexa. Como tantas pessoas, não sabia, e esse desconhecimento coletivo é parte da ferida aberta que ainda carregamos.

Também grande parte dos apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro, agora condenado, o fizeram imersos na alienação sobre o passado, desconhecendo o que de fato ocorreu.

O recorrente discurso em defesa da família é vazio quando se apoia no esquecimento: não se protege o futuro negando as violências do passado. A verdade e a memória são nosso compromisso como sociedade, devemos isso às vítimas, para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça.

A prisão de Bolsonaro abre janelas para imaginar futuros em que a mediocridade, a perversidade e o ódio não ditem mais a agenda pública. Hoje, ao menos por hoje, podemos nos permitir comemorar: a prisão de Bolsonaro, dos militares golpistas e de todos os que atentaram contra a democracia.

Dilma foi presa em janeiro de 1970, torturada e colocada no pau de arara. “Se não gostasse das respostas, ele te dava soco”, relatou a ex-presidenta à Comissão. Uma mulher que ousou lutar pela democracia em tempos de chumbo e foi impedida de continuar a exercer o cargo mais alto do país porque não se rendeu. Foi absolvida, sem que a justiça fosse feita. 

Agora a justiça, mesmo que tardiamente, alcança quem a violentou: a ditadura, Bolsonaro, a misoginia. Que tenhamos mais dias como esse. Por justiça àquela que foi humilhada por resistir e ainda assim venceu. Pela coragem e altivez de Dilma Rousseff, por todas nós: verdade, memória e justiça!

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  • Paula Guimarães

    Jornalista e co-fundadora do Portal Catarinas. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, pós-graduada...

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