Desespero. Foi por conta dele que, em 2022, Dalia Bristol deixou Cuba, com o marido e as duas filhas. Foi o desespero que a fez cruzar, em uma pequena canoa de madeira, o rio que divide a Guiana e o Brasil. Também foi ele que fez Dalia colocar a vida dela e da família na mão de desconhecidos, para percorrer os quase 10 mil quilômetros até Palhoça, município da Grande Florianópolis. Tudo isso com 15 mil dólares em espécie na mochila, quantia que durou até a família se estabelecer na cidade. Quando o dinheiro acabou, veio mais desespero. Só que dessa vez, acompanhado de hostilidade, não pertencimento e rejeição.

Para chegar ao Brasil, Dalia Bristol atravessou de canoa o rio da fronteira brasileira com a Guiana. Ela deixou Cuba com o marido e as filhas Dajari e Disare | Foto: Reprodução/Arquivo pessoal de Dalia Bristol. Arte: TETIIZ.

Assim como Dalia, as mulheres imigrantes que chegam em Florianópolis sofrem com a falta de acolhimento e o despreparo do poder público em integrá-las na sociedade. Migrar simboliza um recomeço que, para quem vem no desespero, é ainda mais difícil. Idioma, moradia, alimentação, saúde, emprego, educação: desafios que vão além de regularizar a documentação – processo que, por si só, já é complexo e pode levar meses para ser concluído.

“É como nascer de novo. Precisei reaprender a caminhar”, resume a cubana.

Somente em 2025, a Região Metropolitana de Florianópolis recebeu 2.532 mulheres migrantes, de acordo com dados do Sistema de Registro Nacional Migratório (SisMigra). Um contingente quase cinco vezes maior do que em 2020, com maioria de argentinas, cubanas, venezuelanas e haitianas. Quanto às refugiadas na região, o Comitê Nacional para os Refugiados (Conare) registrou 600 solicitações no último ano, grande parte de mulheres vindas de Cuba, Venezuela, República Dominicana e Irã.

Gráfico: Maitê Silveira

Em Florianópolis, quem toma frente no atendimento legal a essas mulheres é a Defensoria Pública da União (DPU), através do Setor de Atendimento ao Refugiado e Imigrante. Formalmente, a competência da instituição é ajudar o indivíduo na regularização do status migratório, reunindo documentos e redirecionando à Polícia Federal (PF). Entretanto, a equipe da DPU – formada por brasileiros e estrangeiros – também tem desempenhado um papel de escuta e orientação cada vez mais forte. 

“Não somos psicólogos, isso não é da nossa alçada. Mas, para muitas pessoas, até por conta do idioma, acabamos sendo o primeiro contato acolhedor que elas têm”, explica Jose Rafael Gonzalez, venezuelano que coordena o setor. Victoria Pizzanelli, funcionária e argentina naturalizada brasileira, mantém o profissionalismo nos atendimentos, mas diz que, pessoalmente, admira a coragem dessas imigrantes. “Elas têm muita garra. Meu papel como mulher é encorajá-las. Dizer que vai dar certo. Mostrar que é possível”.

Como as questões de gênero atravessam a migração

Uma publicação da Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres (ONU Mulheres) define a migração feminina como uma questão global de igualdade de gênero. Seja no país de origem, de trânsito ou de destino, a organização aponta que todas as etapas do processo migratório são atravessadas por leis, políticas e instituições que reforçam a vulnerabilidade das mulheres.

Tão difícil quanto a adaptação em um novo país, a decisão de abandonar a sua terra natal tem muitos motivadores. A ONU Mulheres cita os conflitos, desastres humanitários e mudanças climáticas como os eventos que mais intensificam os fluxos migratórios femininos. Além disso, a busca por condições mais dignas de vida – para si e/ou para a família – e a fuga da violência de gênero faz muitas mulheres irem em busca de um novo lar.

Gráfico: Maitê Silveira

Atualmente, elas representam cerca de 48% do número total de imigrantes pelo mundo, segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM). No Brasil, as mulheres passaram a representar 45,6% do total de imigrantes registrados no SisMigra em 2025. Dez anos antes, elas correspondiam a apenas 35% dos registros. Esse aumento proporcional exemplifica a “feminização da imigração”, fenômeno em que as migrações femininas ocupam um espaço cada vez maior frente à parcela de homens que migram. 

Gráfico: Maitê Silveira

Para a mestre em Estudos Étnicos e Migratórios Gabriela Martini, o termo é fruto de um olhar mais engajado diante dos fluxos migratórios. “As mulheres sempre migraram, mas, por questões de machismo institucional, se interpretava que elas estavam somente acompanhando os maridos”, destaca a internacionalista. Hoje, a compreensão é de que elas têm cada vez mais autonomia de decisão nesse processo.

Na DPU, Victoria Pizzanelli enxerga o reflexo dessas mudanças no perfil de quem vem solicitar auxílio à instituição. “Tenho visto mais imigrantes jovens e sozinhas, algumas só com os filhos ou grávidas”, relata. É o caso de Beny Simba, que veio ao Brasil em 2022. Quando pegou o avião que a trouxe de Angola ao interior do Ceará, com o objetivo de estudar e construir carreira no país, Beny – que tinha 23 anos, na época – nem imaginava que estava grávida.

“Não vou mentir, foi muito ruim. Fiquei em negação. Só fui frequentar o hospital no oitavo mês e aí, quando ouvi o coraçãozinho dela, eu mudei”, confessa. Por conta da filha, Beny mudou não só como mulher, mas também mudou de cidade: em 2023, ela chegou em Florianópolis com Ester, que tinha apenas três meses. Foi na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) que Beny viu a possibilidade de conciliar a vida de mãe solo sem abandonar a de estudante. 

Como mãe solo, Beny Simba concilia a vida de estudante com as demandas da filha Ester Valentina, de 3 anos | Foto: Reprodução/Redes sociais. Arte: TETIIZ.

Estudante de Ciências Sociais, a angolana tem conseguido se sustentar com os auxílios da universidade, uma bolsa do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid) e a vaga de Ester em uma creche do município. Como a moradia estudantil da UFSC não aceita crianças, Beny divide aluguel com dois colegas e conta com o apoio de amigas do Coletivo MãEstudantes UFSC para conciliar a rotina dela com a da filha.

“Independente do que eu tenha passado, não me arrependo de nada. Fiz e faço por ela, meu maior amor do mundo”, assegura Beny. Arrependimento é uma palavra que também não passa pela cabeça da venezuelana Merlina Saudade Ferreira. Para criar os filhos, Máximo e Manuel, com condições dignas, a venezuelana estava disposta à abandonar tudo: a carreira, a terra natal e até mesmo o companheiro.

Era 2017 quando Merlina deu um ultimato ao marido: “Você quer ficar? Fica. Eu estou indo embora”. No ano anterior, ela havia tido uma complicação no parto do segundo filho – uma atonia uterina que quase a levou à óbito por ausência de medicamentos. Desde então, Merlina considerava deixar a Venezuela. No fim, o marido acabou topando e a família, Máximo com um ano  e Manuel com 5, partiu para Roraima. Só em 2018 que Merlina chegou em Florianópolis, trazida por promessas de oportunidades e uma vida melhor.

“Ninguém queria alugar uma casa para uma família de imigrantes, ainda mais com duas crianças”, desabafa.

Para ela, a xenofobia e o machismo em Santa Catarina são realidades inesperadas frente às quais tem aprendido a resistir. “Revalidar o meu diploma foi um parto de elefante. Fui muito desacreditada, inferiorizada e subestimada. Ou te discriminam ou te pintam como ‘tadinha’”, critica.

Os olhos de Merlina lacrimejam ao lembrar de todos os percalços. “Dói ter deixado coisas para trás. É pesado para mim, para nós. Mas quando eu vejo meus filhos hoje, penso ‘que se lasque tudo isso’”, conta. É um sentimento que Dalia Bristol, a cubana, também compartilha. Mãe de Dajari e Disare, de 9 e 11 anos, ela e o marido migraram juntos, mas por motivos diferentes. “Ele veio por questões políticas. Eu vim porque sou mãe. Vim pela minha integridade e das minhas filhas”.

Merlina Saudade Ferreira e o marido atuam como lideranças migrantes. Na ocasião, participava como delegada da II Conferência Nacional sobre Migrações, Refúgio e Apatridia (Comigrar), em 2024 | Foto: Reprodução/Arquivo pessoal de Merlina Saudade Ferreira. Arte: TETIIZ.

Mais do que redes de apoio, elas querem um lar

Três mulheres diferentes. Idades, nacionalidades, personalidades e histórias distintas. Por mais que não se conheçam pessoalmente, as trajetórias delas se encontram em uma experiência: o não pertencimento enquanto mulher imigrante. Beny, Merlina e Dalia, cada uma à sua maneira, identificam que, não importa quanto tempo passe, elas não se sentem parte da sociedade da Grande Florianópolis. Por mais que, legalmente, sejam iguais às brasileiras, é como se elas não pudessem ser cidadãs no mesmo “nível”.

Elas compartilham que muito disso se deve a discursos que rotulam as migrantes como ameaças, criminosas ou problemas sociais. No cotidiano, essas ideias também se refletem no racismo, xenofobia e machismo, com elas ou com a família. Às vezes, elas percebem através das palavras diretas. Por exemplo, quando a mãe de uma colega de Dajari deixou claro que as meninas não poderiam ser amigas, já que Dajari é negra. 

Às vezes, o distanciamento está nos olhares. Beny relata um episódio em que foi à igreja com a filha. Naquele dia, Ester estava muito inquieta. “Todos ali me encaravam e murmuravam. Me senti julgada. Fui para casa e chorei muito, enquanto minha filha tentava me acalmar”, conta. Beny reflete que, se nem na igreja, lugar que prega o acolhimento como virtude, ela foi amparada, em qual lugar ela se sentirá acolhida?

O não acolhimento também aparece em outras atividades básicas do cotidiano. Para Merlina, está no desconforto em ir sozinha até a escola conversar com o professor dos filhos, na dificuldade de ser bem atendida pelo garçom até que o marido o chame e na descredibilização do seu trabalho por ter se formado na Venezuela, país em crise. Merlina sintetiza que “falta afeto” nas relações construídas entre brasileiros e imigrantes. Entretanto, crê que essa lacuna pode ser preenchida pelo potencial das próprias mulheres em criar redes de apoio.

No ramo da assistência social e da psicologia, cultiva-se a ideia de que rede de apoio são grupos de pessoas, ou até mesmo instituições, que, quando necessário, são capazes de oferecer suporte emocional, prático, financeiro, profissional, entre outros. “Foi lá que me escutaram e eu pude me abrir. Foi a rede que manteve viva”,  frisa Merlina, mencionando o trabalho da Red de Venezolanos en Brasil (Redeven) quanto à importância da união entre as migrantes para unificar e fortalecer as demandas. 

Assim como a Redeven trabalha à nível nacional, a Associação de Angolanos de Florianópolis (Assaf) é uma rede de apoio local. Atualmente presidida por duas mulheres, Elisa Dulce Fundanga e Enair Cardoso, a Assaf reúne cerca de 150 migrantes da Angola que moram na Região Metropolitana de Florianópolis, incluindo Beny. Elisa Dulce e Enair, tal qual as outras personagens desta história, destacam que há uma idealização da simpatia do povo brasileiro que não encontraram aqui na região.

Pelo contrário, ao se deparar com a constante afirmação da alteridade – do ser diferente do outro – por meio da discriminação, as angolanas passaram a se descobrir como mulheres negras. “Fui estudar. Comecei a entender porque me trataram de tal jeito. Você não é só uma pessoa, você é uma mulher negra, imigrante e africana. Aqui esses marcadores  ficam evidente”, compartilha Elisa Dulce. Tanto ela quanto Enair acreditam que a Assaf ocupa um espaço crucial para debater esses assuntos.

Por estarem longe de casa, a Assaf também ajuda a matar a saudade da Angola e empoderar a cultura africana. Em festas ou no grupo de WhatsApp, os angolanos – e os imigrantes da África em geral – da Grande Florianópolis valorizam o impacto da coletividade no cotidiano. A um Oceano Atlântico de distância, manter-se conectado com as raízes é uma forma de acolhimento que conseguiram concretizar.

Considerar Florianópolis como lar, no entanto, ainda é um desafio para grande parte das mulheres imigrantes. Dalia Bristol, a cubana, viu sua saúde mental se deteriorar várias vezes ao longo dos três anos que está no Brasil. “Eu sentia que nunca iria progredir neste país. Me sentia excluída, isolada”. Hoje, o sentimento mudou, mas Dalia ainda não se sente em casa. De vez em quando, bate o gorrión

O termo é uma expressão comum aos cubanos que deixam a terra natal. Dalia explica que é como um aperto do peito por saudade ou nostalgia extremas da terra natal. Por mais que o gorrión a deprima, ela precisa enfrentá-lo. “Quando me dá esse gorrión, digo para mim mesma que tenho que aguentar. Pelas minhas filhas, pela minha mãe, pelo meu futuro. Aguento porque sei que um dia, eu ainda vou voltar”, assegura. Enquanto não retorna à Cuba, ela se dedica a criar as filhas para mostrar ao mundo que, independentemente da nacionalidade, elas são capazes de tudo. 

Dalia Bristol trabalha como manicure em Palhoça, atendendo na entrada da casa que divide com o marido e as filhas Dajari (à esquerda) e Disare (à direita). Foto: Maitê Silveira. Arte: TETIIZ.

Construindo uma Florianópolis mais hospitaleira

“Bom tratamento; amabilidade, gentileza”: esse é um dos significados atribuídos à “hospitalidade” pelo Dicionário Michaelis. Do latim hospitalitas, que significa “receber alguém como visita”, a palavra implica o acolhimento generoso do outro. Em Florianópolis, a Círculos de Hospitalidade, organização da sociedade civil (OSC) que atende refugiados e migrantes, se apropria desse conceito como propósito de atuação. Através dos eixos de proteção, integração e conscientização, a entidade trabalha para fortalecer a inclusão das populações migrantes na comunidade local.

Fundada em 2016, a Círculos começou com um projeto para atender às necessidades das mulheres sírias que chegavam à capital de Santa Catarina. Devido à guerra civil e à consequente crise humanitária no país árabe, a migração ao Brasil teve seu ápice em 2015. Segundo dados do Conare, naquele ano, 2.077 sírios estavam em terras brasileiras, cerca de 25% do total de refugiados. A diretora da organização, Bruna Kadletz, estruturou aulas de português para as sírias, reforço escolar para as crianças e recreação para os menores de quatro anos.

Mestre em Sociologia e Mudança Global pela Universidade de Edimburgo, Bruna explica que a Círculos se molda através da escuta e percepção atenta às demandas das migrantes. “A perspectiva é sempre de perguntar primeiro, de entender qual é a necessidade da comunidade. Nunca falar ‘eu acho que vocês precisam disso’”. Ela reforça que, apesar do acolhimento ser uma carência geral e permanente, as ações desprendidas dele são personalizadas e momentâneas. 

Como exemplo, ela cita as transformações nos próprios serviços oferecidos pela Círculos. A organização passou do ensino básico do idioma ao acompanhamento de pré-natal, assistência nas consultas médicas e participação nas reuniões de pais e entrega de boletins nas escolas. Em seguida, vieram sessões de arteterapia e um curso de empreendedorismo em parceria com o Núcleo de Empreendedorismo (NUEM) do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC), ampliado às imigrantes da Venezuela, Haiti e Cuba. A pandemia de Covid-19 em 2020 intensificou, principalmente para as venezuelanas, problemas de segurança alimentar, violência doméstica e trabalho.

Para Bruna, a migrante é, muitas vezes, vista como um corpo a ser explorado e descartado pelo mercado de trabalho, mais suscetível a subempregos ou à informalidade. A partir das vulnerabilidades relatadas pelas migrantes, ela reflete sobre a feminização das migrações.

“O quanto esse processo é realmente libertador, que busca equidade? Ou é um processo que fortalece uma hierarquia social, em que determinadas mulheres vão ter mais direitos e privilégios em detrimento do sacrifício de outras mulheres?”, questiona.

Da fundadora às coordenadoras, às voluntárias, às estagiárias e, por fim, às migrantes e refugiadas, as mulheres são maioria na organização. Dentre as 6.645 pessoas atendidas pela Círculos em 2024, 53% eram mulheres. A diretora complementa que elas costumam aderir com mais frequência que os homens às iniciativas ofertadas pela OSC. Ativo desde 2022, o “Projeto de Extensão InterAções: Interculturalidade, Acolhimento e Migrações” é voltado exclusivamente ao público feminino e preza pela formação de vínculos e redes de apoio. Através de trocas sobre saúde mental e ativação dos sentidos com a arte, as migrantes podem estimular o diálogo, autonomia e consciência emocional.

“Estamos falando de mulheres que também têm sonhos. Que têm potenciais muitas vezes tolhidos durante o processo migratório pela falta de integração”, destaca Bruna. Em nome da Círculos, ela incentiva que Florianópolis ressignifique o olhar sobre as migrantes para reconhecer suas potencialidades sem replicar dinâmicas assimétricas de poder.

“Precisa haver a sensibilização dos órgãos públicos e privados com relação à população migrante. O que a gente faz aqui ainda é visto como caridade. Não é caridade, é direito”, argumenta.

Trabalhar em rede amplia o alcance da hospitalidade valorizada pela Círculos ao somar recursos e conhecimentos de outros atores e instituições. No projeto Hospitalidade na Comunidade, por exemplo, são realizados mutirões de regularização migratória e orientação sobre acesso a serviços públicos. Os atendimentos acontecem em espaços externos como postos da PF, Centros de Referência de Assistência Social (CRAS), universidades e institutos federais.

A Círculos de Hospitalidade conta com uma sede localizada no Centro de Florianópolis. No espaço, a organização atende migrantes e capacita servidores | Fotos: Maitê Silveira.

Apesar da terra desbravada, o caminho ainda é longo

“Eu não tenho que agradecer pelo que é meu direito”, defende a venezuelana Merlina Saudade Ferreira. A frase também dá o título à dissertação de mestrado da internacionalista Gabriela Martini, que trabalha com integração socioeconômica, atendimento ao migrante e advocacy há mais de 10 anos. Gabriela e Merlina se conheceram em 2018 através do Centro de Referência e Acolhimento dos Imigrantes e Refugiados (CRAI) em Florianópolis.

Iniciativa do governo catarinense, o CRAI durou apenas um ano e meio, ativo entre fevereiro de 2018 e setembro de 2019. Era um espaço de assistência especializada e 100% dedicada à comunidade migrante. Foi lá, atendendo mulheres como Merlina, onde Gabriela entendeu a complexidade de formular políticas capazes de acolher as particularidades das mulheres migrantes e refugiadas. 

“Uma das minhas maiores dificuldades no CRAI era atender mulheres que estavam precisando de trabalho, mas não tinham com quem deixar os filhos”, relembra a internacionalista. A oferta de vagas em creches é um problema estrutural do Brasil ainda mais “dramático” para as estrangeiras, devido à ausência de uma rede de apoio.

“Se o cenário não é acolhedor nem para as brasileiras mais pobres e vulneráveis, quem dirá para as migrantes e refugiadas?”, questiona. 

Gabriela acredita que um passo necessário é trabalhar a consciência da população: se há creche para os filhos das migrantes, vai ter creche para os filhos das brasileiras. “É preciso superar a ideia de que as mínimas garantias aos migrantes são privilégios diante dos brasileiros”, afirma ao expor uma compreensão fruto dos aprendizados que teve com Merlina. A venezuelana luta pelo reconhecimento dos direitos das mulheres migrantes como dignos e comuns à qualquer cidadã. São direitos, reforça ela, não generosidades ou atos de benevolência do poder público.

Ambas recordam que o fechamento do CRAI se deu pelo desinteresse político da pauta. “No jogo político, a migração é ínfima. Afinal, migrantes e refugiados não votam”, afirma Gabriela. Na época, o governo estadual justificou que as demandas atendidas pelo CRAI já estavam contempladas no escopo de serviços dos CRAS e, portanto, poderiam ser absorvidas pelos mesmos.

Esse é um argumento que a gerente do SUAS, Débora Nunes Barbosa, contesta. Como assistente social, Débora atuou no CRAS do bairro Eldorado, na Palhoça, município da Grande Florianópolis. Lá, em 2018, teve o primeiro contato com a comunidade migrante: cerca de ⅓ dos atendimentos da unidade eram de haitianos. “Dei sorte de ter um mediador intercultural que falava crioulo. Sorte porque ele era voluntário, o município não arcava com nada”, conta.

Florianópolis não tem um protocolo institucional de atendimento à mulher migrante para os funcionários do CRAS. A fim de contemplar as demandas das famílias haitianas, Débora diz que ficou “batendo a cabeça” para entender e explicar à equipe o processo de regularização migratória e os demais assuntos que iam surgindo com o tempo. Fez tudo isso por conta própria. “Na minha experiência, não há um real compromisso ou responsabilidade estatal com a política da migração”, destaca. 

Para Débora, a capacidade do CRAS de absorver as necessidades das mulheres migrantes é volátil. Fica atrelada à articulação da equipe que está na “ponta” e à afinidade de certos profissionais com o tema. “É preciso uma formação mais preocupada e cuidadosa”, defende a assistente social. Desamparados pelo município, os funcionários dos CRAS conseguem se capacitar através de terceiros, como a Círculos de Hospitalidade e a Pastoral do Migrante.

O movimento citado por Débora exemplifica como a inércia da Secretaria de Assistência Social de Florianópolis – que não respondeu às tentativas de contato por parte da reportagem – faz crescer as organizações da sociedade civil. Entretanto, a internacionalista Gabriela alerta para um movimento dicotômico: essas instituições acabam assumindo um papel tão vital que eximem o Estado de suas responsabilidades. Para ela, o protagonismo social tem gerado comodidade aos gestores públicos e a desarticulação da pauta nos espaços políticos de mobilização.

Seja na pesquisa e advocacy com Gabriela, na assistência social com Débora ou na luta diária como migrante com Merlina, a palavra recorrente ao tratar de políticas públicas para mulheres migrantes é “reconhecimento”. Em uma região que se orgulha das ascendências europeias comprometidas com o desenvolvimento econômico, Gabriela questiona a ausência de reconhecimento às contribuições das migrantes para a indústria frigorífica, por exemplo.

“É sobre reconhecer as especificidades da mulher migrante, em particular, da sobrecarga feminina”, indica Débora.

As violências enfrentadas pelas brasileiras – doméstica, sexual, psicológica, financeira, entre outras – também permeiam a vida das estrangeiras que se estabelecem no país. “Os protocolos que já existem precisam reconhecer esses atravessamentos de gênero, nacionalidade e raça”, completa.

Merlina vê no reconhecimento a possibilidade de, finalmente, se sentir acolhida em Florianópolis. “Auxílio não é dependência. Você quer trajetória? Eu te mostro. Você quer diploma? Eu te mostro”, enfatiza a venezuelana ao falar do potencial de reconstrução que as mulheres migrantes cultivam. “Eu digo isso com confiança. Não preciso que ninguém fale por mim. E o meu silêncio também diz muita coisa”. 

Merlina Saudade Ferreira trabalha junto ao poder público para fortalecer o acolhimento às migrantes na Grande Florianópolis. No canto superior esquerdo, também está Bruna Kadletz, diretora da Círculos de Hospitalidade | Foto: Reprodução/Arquivo pessoal de Merlina Saudade Ferreira.

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