Amélia nunca teve um orgasmo. Aos 76 anos decide que vai ter um a qualquer custo. A forma como ela consegue é o diferencial do curta-metragem “O Prazer é Todo Meu”, da cineasta brasileira Vanessa Sandré, lançado em 2023. Sua inspiração veio da vontade de trazer algo que ainda não tinha espaço no cinema: a sexualidade da mulher idosa. “[Meu filme] foi uma antítese de tudo que eu estava entendendo que representava a mulher no grande cinema: um corpo jovem sexualizado para o prazer masculino”, relata Vanessa. 

O filme reflete um avanço para a libertação sexual feminina ao colocar Amélia como protagonista do seu próprio prazer. Porém, o assunto ainda se mostra um tabu, impulsionado principalmente pelo machismo estrutural, que coloca a satisfação do homem como prioridade.

A representação da mulher no cinema era uma questão que estava em pauta em 2017 quando Vanessa começou seu mestrado em crítica feminista e estudos de gênero, o que a motivou a produzir seu curta-metragem. Foi a partir da quarta onda do feminismo, por volta de 2013, que o debate sobre como a mulher era representada nas telonas cresceu. 

“Os filmes eram todos feitos para vender para o olhar masculino, ou seja, era a sexualização da mulher”, explica a cineasta. O fenômeno tem nome: male gaze, termo cunhado por Laura Mulvey em 1975 que descreve o modo como as mulheres são retratadas nas mídias visuais como objetos. 

Outro problema que estava sendo questionado era que as personagens femininas, muitas vezes, estavam em busca do amor romântico e a “mocinha” sacrificava tudo por isso e por um homem. “É colocado para as mulheres que o sexo está inserido nessa relação com o amor. E pros homens não, pra eles é dito que sexo é sexo, amor é amor”, afirma a pesquisadora do Instituto de Estudos de Gênero (IEG) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Cristina Wolff.

Essa nova onda do feminismo começou a refletir fora das redes. Vanessa afirma que a partir daí as mulheres passam a ser notadas também como audiência e a grande mídia começa a produzir filmes em que elas não ocupam mais esse papel estigmatizado. “Boa sorte, Leo Grande”, longa de 2022, é um exemplo desse movimento. Ele conta a história de uma viúva que contrata um garoto de programa por uma noite com o objetivo de realizar os seus desejos.

Boa Sorte, Leo Grande explora tabus sobre sexualidade, velhice e aceitação do próprio corpo| Crédito: Divulgação Boa Sorte, Leo Grande.

Além do cinema, outras áreas da cultura pop também abordam o prazer feminino. No cenário musical brasileiro, Rita Lee foi uma precursora da libertação sexual. “Vê se me dá o prazer de ter prazer comigo”, letra da canção Lança Perfume, coloca a mulher no centro do seu prazer como também merecedora desse direito. 

A cantora foi uma das quatro apresentadoras iniciais do “Saia Justa”, programa da GNT que discute diversos assuntos tabus da sociedade, inclusive a sexualidade. Depois dele, “Amor e Sexo” movimentou a Globo de 2009 a 2018. A última edição do programa sofreu um boicote nas redes sociais pelos apoiadores de Jair Bolsonaro, na época candidato à presidência.

Prazer e sexo para a mulher

O que é prazer para você? Está necessariamente relacionado ao sexo? 

Essas perguntas foram feitas em uma pesquisa no segundo semestre de 2025 para esta reportagem por meio de um formulário online aberto e anônimo com cerca de cem mulheres de idades variadas. A maioria das respostas dizia o mesmo: o prazer para a mulher não está ligado só ao sexo, mas a outras razões também, como autoconhecimento e liberdade.

  • “Acredito que as mulheres sentem prazer em várias coisas, por exemplo se sentir bonita e atraente, sair para jantar ou quando ela é totalmente independente.” (mulher hétero, tem entre 25 e 40 anos)
  • “O prazer tem muita relação com o quanto a gente conhece o nosso próprio corpo, o que nos faz sentir bem, e não necessariamente tem ligação com o sexo. Várias vezes, vejo nas minhas redes sociais mulheres relatando que sentem mais prazer quando estão explorando seus corpos sozinhas do que com o outro.” (mulher bissexual, tem entre 18 e 25 anos)
  • “Sem querer soar clichê, mas o prazer feminino é muito mais sobre autoconhecimento do que sexo.” (mulher pansexual, tem entre 18 e 25 anos)
  • “Liberdade é o maior dos prazeres femininos: se permitir fazer, sentir e ver sem culpa.” (mulher bissexual, tem entre 18 e 25 anos)
  • “Pra mim, prazer feminino é quando o parceiro ou a parceira está concentrada não apenas em sentir prazer, mas em dar prazer também.” (mulher bissexual, tem entre 18 e 25 anos)
  • “É a mulher sentir-se segura e realizada consigo mesma em atividades pensadas para mulheres. É sobre se sentir livre em várias áreas da vida, como na sexual.” (mulher bissexual, tem entre 18 e 25 anos)

Educação sexual

Em meio ao fortalecimento de grupos conservadores e de extrema direita, pautas progressistas como a educação sexual nas escolas são muitas vezes atacadas. Um relatório da ONG internacional Human Rights Watch (HRW) de 2022 analisou mais de 200 projetos de lei em tramitação e leis aprovadas no Brasil. Concluiu que essa campanha política e legislativa que o país enfrenta tem enfraquecido ou até proibido a educação sobre sexualidade e gênero nas escolas.

“Mesmo a gente tendo na BNCC [Base Nacional Comum Curricular] uma pauta para abordagem de aparelho reprodutor e métodos contraceptivos, ainda há um embate dentro das escolas”, aponta Raissa Guerra, professora de biologia e educação sexual para o ensino fundamental II e o ensino médio. Para ela, esse embate vem principalmente através dos pais dos alunos, já que os próprios estudantes aproveitam a oportunidade para esclarecer diversas dúvidas. 

Foi por essa dificuldade de ensinar que a professora criou seu perfil no Instagram, Biologia Subversiva, onde ensina educação sexual para além da ciência: “O objetivo é que a gente entre num consenso entre a família e a escola para que os dois ajam pelo estudante. É aí que entra na questão da doutrinação; não dá tempo nem de fazer o básico dentro da sala de aula, imagina doutrinar um estudante.” 

Muitos pais não têm informação suficiente para ensinar suas filhas sobre sexualidade, então falam apenas sobre menstruação. Segundo a pesquisadora Cristina, a falta de educação sexual acarreta na dificuldade das mulheres acessarem os conhecimentos sobre seu próprio corpo e sexualidade. A educadora Raissa pensa o mesmo: “A partir do momento que eu entendo que eu mereço sentir prazer também, que não dependo só do homem para isso e posso sentir de diferentes formas, estando na companhia de uma amiga, por exemplo, eu tiro um pouco dessa pressão do amor romântico”.

Quando há educação sexual nas escolas, a discussão muitas vezes fica limitada apenas a explicar a reprodução e os métodos contraceptivos. Nas aulas da Raissa a ilustração do aparelho reprodutor feminino inclui a indicação do clitóris, o único órgão do corpo humano voltado exclusivamente para o prazer. Afinal, é importante que as meninas conheçam a sua existência, porém em muitas aulas ele não é nem mencionado. “O problema é que as aulas de educação sexual só explicam a reprodução, não explicam o prazer e nem que é necessário que tenha consentimento. Tem uma série de coisas que são fundamentais e não são discutidas, porque não são consideradas essenciais para a reprodução”, diz Cristina.

Descoberta do clitóris: O órgão foi mapeado em sua anatomia completa somente em 1998 pela urologista Helen O´Connell

Essa ideia de que o sexo deve ser voltado exclusivamente para a procriação está muito ligada à tradições religiosas conservadoras, especialmente de matriz cristã. Na pesquisa desta reportagem, mais de 50% das mulheres afirmaram que já sentiram culpa ou vergonha após se masturbar. Para Cristina, isso tem relação com o sexo ser colocado como algo culposo: “Tudo o que vai contra a reprodução é visto como pecado. Por mais que hoje nem todas as pessoas frequentem a igreja, isso está entranhado na nossa cultura e acaba sendo mesmo esse tabu.”

Outro ponto que certas religiões prezam é pela manutenção da família tradicional. Uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (FGV) de 2025, baseada em dados do IBGE, concluiu que 52 em cada cem lares brasileiros são chefiados por mulheres. Esse cenário revela em parte um maior posicionamento político feminino no mundo. De acordo com Cristina, algumas pessoas acreditam que mulheres que conhecem seus direitos e reconhecem abusos vão desestruturar a família tradicional. “Porque a família que eles estão pensando é a patriarcal, na qual os homens têm o poder e as mulheres são submissas. Isso é uma família estereotipada”, cita, como apontado pela pesquisa da FGV.

Com a mudança na configuração dos lares brasileiros, a discussão sobre sexualidade vai ganhando maior abertura. A fisioterapeuta pélvica Laila Linke compara a abordagem desse diálogo através das gerações de sua família e percebeu uma evolução: “Eu sou neta de uma mulher com 11 filhos. Na época, fazia-se educação sexual em casa; as mulheres aprenderam o que é sexo e como evitar filhos já nos relacionamentos. Dentro de casa nunca era uma sexualidade acolhedora, pelo contrário, xingava quando tocava no assunto.” Hoje, ela faz diferente. “Meus filhos conversam normal sobre sexo, no café da manhã”, afirma.

Sexo e qualidade de vida

A sexualidade também é uma questão de saúde. Durante a pandemia de covid-19, surge o movimento sexual wellness [bem-estar sexual] e o prazer aos poucos vai sendo considerado importante também para essa área. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a sexualidade é um aspecto central do ser humano e um dos pilares da qualidade de vida. 

Nesse sentido, a área da saúde pode ser uma grande aliada do prazer. A fisioterapia pélvica, por exemplo, auxilia mulheres que sentem dor na relação, que pode ocorrer por razões diversas ou pelo vaginismo, condição em que há uma contração involuntária da vagina, o que impede ou dificulta a penetração. “O vaginismo é causado por religião, medo, traumas ou abusos. Ele está 100% ligado ao emocional. Às vezes, a mulher nem tem dor, mas tem medo dela”, explica a fisioterapeuta pélvica Laila Linke. 

Essa condição não afeta somente a relação sexual. Segundo Laila, uma mulher que tem vaginismo não consegue realizar o exame Papanicolau, que ajuda a detectar câncer e Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST ‘s), o pré-natal, que acompanha a gravidez, ou mesmo engravidar.

As razões psicológicas, como as que causam o vaginismo, também merecem atenção da medicina. “A ginecologia trata das questões biológicas da mulher, mas a sexualidade não é só biológica, ela é psicológica, sociocultural e relacional também”, explica a ginecologista Jussimara Steglich, especialista na área sexual. 

Com as jovens a conversa não se limita mais apenas a métodos contraceptivos e como usar preservativos para não pegar IST ‘s. Jussimara também aborda a orientação sexual, a identidade de gênero e o consumo abusivo de pornografia. As adolescentes geralmente vão ao consultório acompanhadas das mães, então a médica faz a consulta em duas partes. “Uma parte com a mãe vendo as coisas que importam no desenvolvimento daquela jovem e a outra sozinha com a adolescente, porque só aí que tu vai conseguir ver o que está povoando a mente dela”, relata.

Conforme Jussimara, é muito importante que os ginecologistas estejam preparados para abordar as mulheres com respeito e em um ambiente acolhedor. Inclusive mulheres em relações homoafetivas. Segundo a ginecologista, elas também precisam ser examinadas, orientadas para que façam os exames de rotina e sobre o uso de brinquedos sexuais. “Tudo isso precisa de uma abertura maior, porque muitas vezes o ginecologista é muito conservador. A maior parte não sabe abordar as queixas porque falta treinamento suficiente”, afirma.

Masturbação

A representação sexual das mulheres nas telas de cinema anda evoluindo para abordagens mais respeitosas e cresce o mercado de bem estar sexual, com cada vez mais conteúdos relacionados ao prazer feminino. Porém, o machismo estrutural ainda permeia as relações heteronormativas e das mulheres com seus próprios corpos”. Para a psicossexóloga e terapeuta sexual Luísa Miranda, a mulher tende a priorizar o prazer masculino frente ao próprio. Ela chama isso de “terceirização de amor próprio”.

“É difícil você sentir falta de algo que você não conhece. Nós mulheres nos acostumamos a não ter prazer e abrimos mão disso com muita facilidade, é muito triste”, afirma.

A fim de agradar o outro, muitas mulheres fingem sentir prazer. Na pesquisa realizada para essa reportagem, mais de 70% das mulheres afirmaram já ter fingido um orgasmo. Algumas delas, responderam nunca sequer ter chegado lá.

Algo que pode melhorar esse cenário é a masturbação. Porém, ainda é perpetuada a ideia de que somente o homem deve dar prazer à mulher. A ginecologista Jussimara defende que as mulheres têm que aprender a ter orgasmo sozinhas e por isso a masturbação é excelente. Um de seus principais benefícios é o autoconhecimento. Entender as próprias preferências melhora, inclusive, a relação com o outro, porque assim é possível direcionar o parceiro. A terapeuta Luísa reforça: “Como você vai ter prazer com alguém se você não sabe como ter sozinha?”

O próprio estudo da sexualidade feminina ainda é muito recente, o que intensifica a dificuldade de falar sobre prazer. Uma maneira de lidar melhor com esse empecilho é através da terapia sexual. Ela pode ajudar as pessoas a entender melhor seus corpos e sua sexualidade, além de aprender a comunicar seus desejos, seja individualmente ou em casal. “As pessoas precisam pelo menos chegar até a terapia sexual para saberem como é, porque elas têm medo”, diz a sexóloga Luísa.

Além disso, é percebida uma mudança de comportamento das últimas gerações na relação com o prazer e o sexo. Uma série de pesquisas nos últimos anos apontam que a Geração Z – pessoas que nasceram entre 1995 e 2010 – estão transando menos. Há diversos motivos para isso, entre eles estão o maior acesso à educação sexual e a vontade de relações mais profundas com trocas mais emocionais. 

Esse cenário impulsiona o crescimento dos sex shops, já que há um maior interesse pelo prazer individual. “Os brinquedos sexuais tiram uma pressão do sexo. Você pode transar pela troca emocional e não só pelo orgasmo, porque isso você já tem em casa”, explica Luísa. 

A fisioterapeuta pélvica Laila tem 42 anos, não está na Geração Z, mas já testou um brinquedo sexual. “Nossa, o negócio é babado. Por que eu não comprei aquilo com 15 anos? É realmente maravilhoso, não se compara ao sexo porque é um prazer muito fácil e rápido”, conta.

Mercado Sexual

No cenário das sex shops, a Climaxxx se apresenta como a primeira brasileira voltada ao prazer feminino. “A gente começou de porta em porta. Fazíamos despedidas de solteira, íamos em jantares de mulheres e levávamos uma malinha de produtos. Era uma venda bem tímida”, conta Larissa Ely, fundadora da marca criada em 2016. 

De lá pra cá a loja cresceu, especialmente durante a pandemia de covid-19, quando o isolamento social impulsionou o setor. O número de empreendedores do mercado de sex shops triplicou e as vendas aumentaram significativamente. Larissa estima que seu faturamento na pandemia ampliou  cerca de 10 vezes.

A loja física da Climaxxx é localizada em São Paulo capital |  Crédito: Divulgação loja Climaxxx.

Além da vontade dos casais de se conhecer mais e diversificar a relação, a discrição das lojas online também foi um ponto de destaque. A preocupação é se as embalagens são discretas, mas a expectativa de Larissa é que no futuro isso não seja um obstáculo. “A gente quer quebrar isso, porque a nossa ideia é que comprar um vibrador seja algo que você não tenha que esconder”, afirma.

Diante do mundo wellness, que valoriza o bem-estar sexual, os brinquedos também mudam, ganhando uma nova aparência. Antes muito realistas, agora passam a ter formatos dinâmicos e cores vibrantes. Eles viram objetos de design, se desassociando da representação do membro masculino. Larissa explica que essa aparência realista estava relacionada à conexão que havia entre a indústria de sex toys e a pornografia. Nos anos 90, normalmente as sex shops tinham as seções de produtos e de vídeos.

Para a Climaxxx, o maior desafio é conseguir expandir seu público, porque pelas redes sociais isso é uma dificuldade. As plataformas ainda associam o conteúdo da marca com a pornografia, então não o “distribuem” para quem não segue o perfil. O obstáculo é colocado mesmo que as lojas veiculem em suas redes postagens sobre educação sexual, como consentimento e anatomia.

Outra questão é a reação dos homens heterossexuais sobre os brinquedos de suas companheiras. “Eles se sentem intimidados porque têm medo que a mulher vá sentir mais prazer com o vibrador do que com eles, quando na verdade é junto. Por que ela não pode ter os dois?”, questiona Larissa. Isso faz com que muitas mulheres que estão em um relacionamento e querem entrar nesse mercado optem por toys menores, que possam ser usados em conjunto. Hoje, há diversas opções, tanto para uso individual quanto compartilhado, independentemente do gênero da pessoa parceira. 

Para algumas mulheres, a naturalidade para falar sobre sexualidade e se libertar de certos tabus, vem com o tempo. Laila, por exemplo, percebe uma grande evolução na relação com o próprio prazer ao longo dos anos: “Hoje é ótima, mas demorou muito para ter maturidade de se tocar e ensinar o outro a fazer o que você gosta. Acho que quando a gente é mais novinha, o parceiro nem sempre te faz sentir prazer e com o tempo você põe na cabeça que tem que valer muito a pena, tem que ser prazeroso.”

Esta reportagem foi produzida originalmente para uma disciplina do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com orientação da professora Maria Terezinha Silva, e também editada pela equipe do Portal Catarinas.

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