Em 77 da Era Comum, o naturalista romano Plínio disse, em Naturalis Historia, que o sangue menstrual tinha poderes devastadores: era capaz de matar abelhas, enlouquecer cachorros e espalhar um cheiro terrível no ar.

Quase dois mil anos depois, ainda estamos falando sobre menstruação do mesmo jeito. Como algo que é sujo e cheira mal. De corpos femininos como abjetos e falhos.

Recentemente, o Boticário lançou a  “primeira linha brasileira de cosméticos corporais desenvolvida para o ciclo menstrual”, a Cuide-se Bem Cereja de Fases.

O problema já começa pelo nome. A instabilidade emocional retratada como traço feminino (“Mulher de Fases” é inclusive o título de uma música horrorosa dos Raimundos) é, no mínimo, um velho estereótipo de gênero

Mas  quero falar especialmente de um dos itens da linha: o spray íntimo desodorante que “ajuda a manter a sensação de frescor” e a “combater odores relacionados à menstruação”. 

Para começo de conversa, o sangue menstrual tem um cheiro suave, que lembra um odor metálico associado à presença de ferro. O que altera esse cheiro é o contato dele com os materiais do absorvente. Mas isso é o de menos. O ponto aqui tem a ver com nojo, vergonha e culpa. Sentimentos que nós, mulheres cis, e outras pessoas que menstruam aprendemos a experimentar desde muito cedo.

Sabe quais os principais sentimentos de vítimas de assédio e violência sexual, além do medo?

Vergonha, culpa, nojo do próprio corpo. 

“A vergonha precisa mudar de lado.” Essa fala da Gisèle Pelicot deveria ser ensinada nas escolas.

Nós não precisamos de mais motivos para ter vergonha. Já temos demais e estamos tentando nos livrar deles, porque não são reais. Por isso não precisamos do primeiro odor block de menstruação do mundo.

Inventar produtos que, em alguma medida, sugerem que nossos corpos são motivo de vergonha ou nojo é um desserviço. E quando eles aparecem embalados como cumplicidade, acolhimento, experiência compartilhada, a história fica ainda mais lamentável.

Toda vez que um marketeiro resolve passar o verniz do autocuidado em um tabu que nós estamos há décadas tentando desconstruir, milhares de meninas, mulheres e e outras pessoas que menstruam saem perdendo. 

Meninas, mulheres e e outras pessoas que menstruam deveriam estar ouvindo e entendendo que seus corpos são livres e poderosos, que a menstruação não é a falha que acontece se você não engravida, que vulva tem cheiro de vulva e não precisa ter notas de cereja, calda, framboesa, groselha preta, chantilly, pera e maçã vermelha. 

Se uma marca quiser realmente apoiar nossos ciclos menstruais e a saúde dos nossos úteros, há  muitas formas de fazer isso. Pagar influenciadoras para falar com profundidade sobre menarca, endometriose, menopausa, miomas, prevenção de gravidez na adolescência, ovários policísticos. Apoiar ONGs e coletivos que trabalham e lutam pela dignidade menstrual. Adotar banheiros públicos, garantindo segurança, infraestrutura e itens básicos de higiene. Investir em pesquisas científicas sobre saúde menstrual e uterina (áreas historicamente subfinanciadas). Só para citar alguns exemplos. 

Eu não estou dizendo que todo mundo que menstrua precisa gostar de menstruar (mas, se quiser pode). Nem querendo ser fiscal do que as pessoas passam no próprio corpo, muito menos julgando quem encontra algum conforto usando um “óleo com efeito bolsa térmica” (outro item da linha do O Boticário).  

Só quero que o mundo pare de repetir que nossos corpos são nossos inimigos.

APOIE O JORNALISMO INDEPENDENTE


Fazer uma matéria como essa exige muito tempo e dinheiro, por isso precisamos da sua contribuição para continuar oferecendo serviço de informação de acesso aberto e gratuito. Apoie o Catarinas hoje a realizar o que fazemos todos os dias!

CONTRIBUA COM QUALQUER VALOR NO PIX
  • Diretora criativa, redatora e pesquisadora acadêmica. Atua na interseção entre comunicação, feminismos, antropologi...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Últimas