Era abril de 1977 quando Xod Fei tomou a palavra durante a 8ª Assembleia de Chefes e Representantes Indígenas, realizada no estado do Rio Grande do Sul. Mulher indígena da etnia Kaingang, com apenas 25 anos, ela denunciou a violência praticada contra sua comunidade.

O território estava sendo gradualmente tomado pelos brancos, e a população indígena vivia sob constante vigilância daqueles que Xod chamava de “Chefes de Posto”. Após romper a relação conjugal com um homem branco, a jovem sofreu perseguições, foi presa, submetida a abusos sexuais e psicológicos e teve seus filhos levados. 

Crédito: Reprodução / Assembleia de Chefes Indígenas, 1977, Ruínas de São Miguel das Missões (RS)

Foi ali, numa assembleia de lideranças, que sua denúncia entrou para a história, tanto pelos relatos que apresentou quanto por se tornar uma das primeiras mulheres indígenas a discursar publicamente naquele espaço.

“Ninguém veio me acudir. […] O cacique tá enxergando, o Chefe tá enxergando e podiam resolver esse negócio. Quando é no fim nós ficamos sem a terra, eu não quero que aconteça isso. […] O que é que vem a ser isso?”, declarou.

Em plena ditadura militar, Xod convocou os presentes a nomear a violência a qual eram submetidos, inserindo no debate uma perspectiva de gênero. Poucos dias antes, o então presidente Ernesto Geisel havia fechado o Congresso Nacional e imposto o Pacote de Abril, um conjunto de medidas que endureceu o regime, restringindo eleições e ampliando a censura prévia a jornais, livros e manifestações públicas. Esse cenário político também se refletia na atuação da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), órgão indigenista do Estado que, sob controle militar, operava em áreas de conflito fundiário. 

O episódio evidenciou um movimento que começava a ganhar visibilidade: ao nomear as violências vividas, mulheres indígenas afirmavam sua presença política e abriam caminhos para uma mobilização que se ampliaria nas décadas seguintes.

Do apagamento histórico à linha de frente

O relato de Xod Fei integra a tese “Indígenas mulheres entre colonialismo e resistência de longa duração — século XX e XXI”, de Paula Faustino Sampaio, doutora em História e pesquisadora no campo da história das mulheres e de gênero.

Quando decidiu escrever uma tese sobre indígenas mulheres e suas lutas, a autora encontrou resistência no meio acadêmico, pois parte dos pesquisadores sustentavam um discurso de que seria impossível realizar a pesquisa devido à ausência de fontes históricas. Diante disso, iniciou um longo trabalho de catalogação das fontes, buscando ressignificar essas ausências e problematizar a suposta falta de documentos para historiar as trajetórias femininas.

Nesse processo, os jornais alternativos, principalmente os produzidos por organizações indígenas, foram fundamentais. O pioneirismo de Xod, por exemplo, foi registrado pelo jornal Luta Indígena, feito por indígenas e missionários da Regional Sul do Conselho Indigenista Missionário (Cimi). À época da assembleia, o veículo publicou:

“Esta foi a primeira reunião de caráter nacional declarada pelos Índios e também foi a primeira da qual participou uma mulher, que apresentou seu depoimento e deu apoio nas posições tomadas.”

Na década seguinte, Marta Guarani foi reconhecida como sucessora de seu tio, Marçal Guarani, liderança histórica assassinada por fazendeiros. Em 1990, ela concedeu uma entrevista ao jornal Mensageiro sobre sua atuação política:

“Sou uma pessoa revoltadíssima dentro de mim, de ver a minha aldeia, onde eu nasci, onde eu conheci tudo, hoje só colônia. Na câmara e em todos os lugares que eu podia, ia levando esta questão da aldeia, os conflitos que haviam”, relatou. 

Paula destaca que essas mulheres realizaram diversas formas de resistência em seus contextos étnicos, com registros mais frequentes a partir dos anos 80 e 90, e sobretudo no século 21, quando passaram a ocupar órgãos estatais. “Mas isso ainda não tinha sido dado na historiografia”, observa a pesquisadora.

Na mesma matéria, que destacava o protagonismo feminino no movimento indígena, Marta também refletiu sobre os desafios internos e externos: “A posição da mulher índia na sociedade é ainda muito discriminada pela própria sociedade. Pelas mulheres indígenas, tudo bem, a gente é bem aceita. Elas estão começando agora a envolver-se na questão dos movimentos e reuniões, começando a questionar as principais situações que passam dentro da comunidade.”

Outros nomes como Deolinda Tukano (do povo Dessana) e Quitéria Pankararu emergiam paralelamente, consolidando os sinais de uma mobilização feminina de alcance nacional.

Crédito: Acervo / Encontro Potiguara de Luta e Resistência e Encontro Internacional em Altamira. Jornal do Grumin.

Das anciãs às mais jovens

Os caminhos abertos por essas e outras lideranças possibilitaram que a resistência das mulheres indígenas se manifestasse em múltiplas frentes: do meio acadêmico às redes sociais, da organização comunitária à ocupação na política institucional. 

A trajetória da primeira bioarqueóloga indígena do país, Bibi Nhatarâmiak, ilustra esses movimentos. Do povo Borum-Kren, no alto do Rio das Velhas, Paraopeba e Rio Doce, ela migrou para Belo Horizonte (MG) para estudar arqueologia, mas manteve na comunidade suas maiores referências de sabedoria. 

Para ela, a memória e a coletividade são essenciais para continuar resistindo:

“Eu sou uma pessoa coletiva. Não consigo e não preciso viver sozinha. Porque um povo é coletivo e eu tenho isso comigo. Faço pensando em mim, nas minhas avós, no meu marido, nas minhas futuras filhas e filhos, nas minhas amigas, nas minhas primas. Então, como essas resistências, insistências e existências atravessam os nossos corpos?”, argumenta.

Suas referências femininas são variadas, mas todas carregam consigo o sentimento de pertencimento e força. Bibi defende que a resistência se constrói entre gerações. “Nas anciãs e nas mais jovens. Aprendo com elas a importância da insistência. Aprendo, além de ser eu mesma, manter a minha integridade, manter a minha humildade, manter o meu ser na terra, o meu pé firme no chão, não esquecer de onde eu vim”, completa.

Crédito: Acervo pessoal / Bibi Nhatarâmiak

Sobre a vida em contexto urbano, ela afirma que são necessárias estratégias para lidar com um ambiente que pode ser cruel. E desabafa: “É uma sobrevivência estar nesses lugares. Mas a gente não quer sobreviver, a gente quer viver. Não estar esperando a boa vontade das pessoas de serem gentis, de serem seres não racistas, seres não cruéis.”

A assessora de comunicação Vanessa Fe Há, da etnia Kaingang, também migrou para uma capital. Com origem na Terra Indígena Mangueirinha, no interior do Paraná, território onde nasceu e foi criada, ela atualmente vive e atua no território indígena de Florianópolis. “Sim, Floripa também é terra indígena”, ressalta.

Apesar da distância geográfica, Vanessa afirma que leva sua ancestralidade para todos os espaços que ocupa. 

Ela conta que a coragem para se tornar comunicadora e atuar pelas causas indígenas vem, em grande parte, pelas vivências com as mulheres de sua comunidade.

“Com minha irmã mais velha, Daiane, aprendi o significado de ser forte. Com minha irmã Danieli, descobri como ser corajosa diante do novo. Com minha irmã Valéria, entendi o que é ser uma guerreira constante. E com minha mãe, a mulher mais forte que conheço, aprendi a ser destemida.”

Crédito: Acervo pessoal / Vanessa Fe Há

Vanessa traduz o aprendizado familiar em gestão e ativismo. Hoje, ela atua como coordenadora de comunicação do Distrito Sanitário Especial Indígena – Interior Sul e do Planeta.doc, festival internacional de cinema socioambiental, além de ser cofundadora da Ga Jãre, Associação de Mulheres Indígenas Kaingang/Guarani do Paraná.

Conexão e Retomada

Com o objetivo de ocupar espaços para comunicar sobre a própria cultura e ativismo, Ana Tabajara, ou Îasýtatá na língua tradicional, compartilha sua vivência como jovem indígena através do Instagram. Natural do estado da Paraíba, ela faz parte do povo Tabajara e integra o coletivo jovem de sua aldeia, que realiza ações de reflorestamento voluntário, resgate linguístico e promoção da história Tabajara.

Foi com a convivência com mulheres da sua família que aprendeu sobre o exercício da arte e da maternidade. Mãe de Îasypitã, a jovem deseja repassar os ensinamentos sobre a cultura e luta indígena.

“Na maternidade, quem me inspira é a minha mãe, pois ela foi capaz de gerar a mim e meus irmãos. Como artesã, quem me inspira é a minha tia Sônia Tabajara, que se dedica a esse trabalho como ninguém”. 

Crédito: Reprodução/ Levi Tapuia. Acervo pessoal/ Ana Tabajara

Sol Juruna também encontrou nas plataformas uma maneira de amplificar as ações de seu povo. Ela foi integrante de uma das mais recentes ocupações feitas por mulheres indígenas. Durante um mês, o Movimento de Mulheres Indígenas do Médio Xingu, composto pelos povos Xingu, Xikrin, Juruna, Xipai, Arara, Kuruaya, Parakanã e outros indígenas aliados à luta contra a mineradora canadense Belo Sun, ocuparam a sede da Funai em Altamira/Pa. 

A mineradora pretende construir a maior mina de ouro a céu aberto do país na região da Volta Grande do Xingu, território já impactado pela usina de Belo Monte. 

Mais uma vez, as mulheres indígenas pautaram a mídia nacional com sua revolução, tendo como uma de suas principais lideranças Nhgrenhkarati Xikrin, que ganhou destaque nos noticiários ao empunhar um facão diante de representantes do Ministério dos Povos Indígenas e da Fundação Nacional dos Povos Indígenas. Um gesto que remete ao de Tuíre Kayapó que, ao tocar  a lâmina de um facão no rosto de um engenheiro da Eletronorte, em uma audiência realizada em Altamira, conseguiu adiar por duas décadas a construção de um complexo de hidrelétricas no rio Xingu.

Crédito: Eliane Brum/SUMAÚMA

“Levantar o facão ali é demonstração da revolta de ver mais uma vez um grande empreendimento tomando nossos rios, nosso território. Querendo terminar de matar o rio Xingu. É mostrar a nossa resistência, a revolta em relação a deixar o governo entregar nossas terras, nosso território, para esses grandes empreendimentos”, afirma Sol.

Crédito: Acervo pessoal/ Sol Juruna

Para a comunicadora, o sonho é que as futuras gerações de meninas continuem firmes na defesa do território: “Que consigam sobreviver a tudo isso, não perdendo o nosso modo de vida, a cultura. Vejam o acesso à educação dentro dos nossos territórios”, complementa.

Num contexto em que as vivências não são registradas pela historiografia formal, a oralidade ocupa um espaço essencial. Suellen Ramos faz parte do povo Goiá, etnia responsável por dar nome ao estado de Goiás, foram os primeiros a ter contato com os bandeirantes paulistas.

A produtora cultural e pesquisadora conta que os efeitos das políticas colonialistas por muito tempo afetaram os modos de vida e a saúde mental das mulheres indígenas de sua comunidade.

“Não cheguei a conhecer minha bisavó, mas sempre ouvi muitas histórias dela, que ela saiu do território dela muito cedo, na Bahia. Ela foi tratada como louca, e morreu num manicômio. Depois descobri que várias outras mulheres indígenas tiveram esse tratamento, foram tratadas como esquizofrênicas e internadas”, relata.

Mas foi através dos estudos que sua família a inspirou a resistir e melhorar a qualidade de vida. Sua mãe, única entre os 10 filhos a se formar no ensino superior, mostrou a Suellen um novo caminho.

Crédito: Arquivo pessoal/ Suellen Ramos

Olhando para as gerações mais recentes, Suellen sonha com um futuro melhor para as meninas indígenas: “Eu desejo que elas tenham autoestima, confiança, que elas tenham clareza da identidade delas, que não duvidem de quem são. É muito difícil ser uma pessoa racializada em Goiás, nesse contexto que ainda é muito coronelista.” 

Entre 2003 e 2022, a taxa de homicídio de mulheres indígenas no Centro-Oeste atingiu 9,7 por 100 mil habitantes, mais de três vezes a média nacional, que foi de 2,8 por 100 mil, segundo estudo publicado na revista científica Ciência & Saúde Coletiva. Meninas e mulheres entre 15 e 29 anos concentram 40,4% dos homicídios registrados.

Realidade em dados

O Brasil possui mais de 1,6 milhão de pessoas autodeclaradas indígenas, segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), realizado em 2022. O mesmo censo aponta que cerca de 41% da população indígena vive com menos de um quarto do salário mínimo per capita mensal. O percentual é mais que o triplo da média nacional, que ficou em 13,3% naquele ano.

Dados da Gênero e Número mostram ainda um aumento expressivo nos casos de violência contra mulheres indígenas no país. Entre 2014 e 2023, as notificações desse tipo de agressão saltaram 258%, um percentual superior à média nacional de 207% registrada entre todas as brasileiras no mesmo período.

Entre as indígenas, os registros de abusos sexuais, que incluem assédio, estupro, exploração sexual e pornografia infantil, tiveram um salto de 297%. Em contrapartida, entre a população feminina brasileira como um todo, esse crescimento foi de 188%.

Os dados foram obtidos por meio do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), vinculado ao Ministério da Saúde. O levantamento considerou três categorias de violência: física, psicológica e sexual.

Para ampliar a visibilidade desse cenário e ampliar a atuação das lideranças femininas, o Instituto Socioambiental, em parceria com a Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga), lançou o Mapa Interativo das Organizações das Mulheres Indígenas no Brasil. A ferramenta digital reúne 250 coletivos e organizações lideradas por mulheres indígenas em todo o território nacional, permitindo buscas por região e acesso a contatos como sites e redes sociais. O objetivo é conectar iniciativas e fortalecer a atuação conjunta dessas mulheres.

No campo político, como desdobramento desse processo de organização e enfrentamento das desigualdades, também há conquistas recentes. Quatro parlamentares indígenas assumiram cadeiras na Câmara dos Deputados em 2022: Sônia Guajajara (PSOL-SP), Célia Xakriabá (PSOL-MG), Juliana Cardoso (PT-SP) e Silvia Waiãpi (PL-AP). Antes delas, apenas Joenia Wapichana (Rede-RR) havia sido eleita, em 2018.

Luta anticolonial, anti-imperialista e corpo-território

A historiadora Paula Faustino Sampaio destaca que a política feita pelas indígenas não se encaixa na lógica do feminismo hegemônico, vertente geralmente associada ao feminismo liberal branco e de classe média, que prioriza pautas como o empoderamento individual. 

Para ela, a atuação das indígenas se assemelha mais ao feminismo comunitário, vertente cunhada pela escritora e feminista boliviana Julieta Paredes, que integra a luta contra o patriarcado à luta anticolonial e anti-imperialista e insere o conceito de corpo-território.

“Para o movimento indígena importa a atuação coletiva, importa a resistência coletiva. A luta delas não é apartada da luta do território. Na verdade, o corpo das indígenas mulheres é uma das últimas fronteiras de invasão dessa política neoliberal. As lideranças indígenas mulheres sofrem todas as violências que os homens sofrem quando estão nesse lugar de liderança, somadas à violência sexual”, reforça.

Contrariando a invisibilidade histórica imposta, as mulheres indígenas criaram seus próprios meios de reivindicar direitos e compor a luta, passando a pautar a mídia nacional. Parte dessa invisibilidade, lembra a historiadora, está relacionada a um entendimento racista que historicamente enquadra pessoas indígenas como “não-pessoas” ou “não-humanas”.

“Mas quando elas se reúnem em Brasília e fazem uma manifestação, são três, quatro mil mulheres. A mídia se vê tendo que fazer ao menos uma notinha”, complementa.

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  • ariele-lima

    Natural de Juazeiro, sertão baiano. Estudante de Jornalismo em Multimeios pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), c...

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