Mais de 5 mil mulheres indígenas dos cinco biomas do país ocuparam Brasília (DF) para a 4ª Marcha das Mulheres Indígenas. Intitulado “Nosso corpo, nosso território: somos as guardiãs do planeta pela cura da terra”, o encontro reuniu representantes de mais de 100 etnias, entre os dias 2 e 8 de agosto.

A cura pela terra emergiu nos debates diante da necessidade de elaboração de políticas públicas, bem como, na urgência de incidência política governamental e interministerial para a proteção e preservação dos corpos-territórios destas mulheres, no intuito do fortalecimento de estratégias conjuntas para barrar a devastação e as violações sofridas nas aldeias e comunidades indígenas. 

Dentre as articulações feitas pela Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga), uma delas foi a organização da 1ª Conferência Nacional das Mulheres Indígenas, junto ao Governo Federal e o Ministério dos Povos Indígenas. O Catarinas acompanhou a marcha presencialmente. 

Guardiãs-do-planeta-mulheres-indígenas-ocupam-Brasília-em-defesa-da-vida-e-dos-territórios-
Crédito: André Corrêa/Ministério dos Povos Indígenas.

Marco histórico na luta pela garantia de políticas públicas

A 1ª Conferência Nacional das Mulheres Indígenas, anunciada nos primeiros meses do ano, entrou na agenda pública das conferências nacionais de 2025. Fruto dos  encontros estaduais e regionais, as pré-conferências aconteceram de maio à julho nos territórios indígenas. A programação dentro da marcha, ocorreu entre os dias 4 e 7 de agosto. 

A partir da iniciativa, as mulheres indígenas estabeleceram demandas prioritárias na agenda pública, incidindo na garantia de acesso, formulação e implementação de políticas, serviços e equipamentos públicos destinados aos povos originários.

Para a delegada representante do bioma da Caatinga, a conferência realizada junto à marcha propiciou um momento valioso de debate. 

“Um momento em que nós nos reunimos e nos fortalecemos. Discutimos quais são as melhorias para os nossos territórios, quais são as políticas públicas que nós podemos levar. Tratar de todos os assuntos, tanto de saúde psicológica, como de saúde física. E tratar de como estão sendo nossas lutas, nossas bases”, contou Daniela Kanindé, da etnia Jenipapo-Kanindé, do Ceará, ressaltando a importância da troca de experiências e conhecimentos entre as mulheres de diferentes biomas.

Na abertura da conferência, no dia 4, houve uma sessão solene no palco da tenda principal com a presença das ministras Sônia Guajajara, do Ministério dos Povos Indígenas (MPI); Márcia Lopes, do Ministério das Mulheres (MMULHERES); Anielle Franco, do Ministério de Igualdade Racial (MIR); Macaé Evaristo, do Ministério de Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC); Margareth Menezes, do Ministério da Cultura (MinC); e Marina Silva, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).

Também participaram agentes públicos federais como a secretária Giovana Mandulão, da Secretaria Nacional de Articulação e Promoção dos Direitos Indígenas – SEART/MPI; secretária Ceiça Pitaguary, da Secretaria de Gestão Ambiental e Territorial Indígena do Ministério dos Povos Indígenas – SEGATI/MPI; a presidente da Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas), Joênia Wapichana; o secretário executivo Weibe Tapeba, da Secretaria de Saúde Indigena (SESAI); e a secretária Márcia Rolemberg, do MinC. Além da deputada federal Célia Xakriabá (PSOL-MG) e da diretora executiva da Anmiga, Jozileia Kaingang.

Sônia Guajajara estabeleceu como missão da conferência a elaboração de uma proposta para a formalização de um ato normativo, reiterando o compromisso interministerial das ministras presentes com as pautas das mulheres indígenas. Para ela, o documento deverá subsidiar a formulação da estratégia nacional de fortalecimento e proteção dos direitos dessas mulheres.

Guardiãs-do-planeta-mulheres-indígenas-ocupam-Brasília-em-defesa-da-vida-e-dos-territórios-conferencia
Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil.

Já o início dos trabalhos coletivos conduzidos e debatidos pelas lideranças e delegações das mulheres – biomas, aconteceu na terça-feira, dia 5. Cada Grupo de Trabalho (GTs) vinculou-se a um eixo temático: Direito e Gestão Territorial; Emergência Climática; Políticas Públicas e Violência de  Gênero; Saúde; e Educação e a Transmissão de Saberes Ancestrais para o Bem Viver.

Angélica Sateré Mawé, secretária da Associação de Mulheres Indígenas Sateré Mawé (AMISM) participou no eixo Direito e Gestão Territorial, tema em que a o debate consistiu no rechaço contundente ao Marco Temporal e na urgência da demarcação de terras, bem como, na proteção dos territórios. 

Em sua fala destacou o papel vital das mulheres no chão da aldeia pois “são elas que fazem a produção do território”. Além disso, o debate definiu garantias para o apoio às mulheres e a “capacitação para tomarem conta de seus territórios, para poderem plantar, cultivar e fazer prosperar seu território”, ressaltou Angélica. 

No eixo voltado às Políticas Públicas e Violência de Gênero, a psicóloga Iterniza Pereira, do povo Macuxi, delegada representante governamental da Sesai, falou sobre a importância da escuta das participantes e de suas propostas para aproximar as demandas. A psicóloga do Programa Bem Viver dos Povos Indígenas destacou ainda a urgência de garantir os direitos voltados às mulheres indígenas e o fortalecimento de estratégias de enfrentamento e prevenção das violências de gênero.

No eixo da Saúde, Kuasary Membyra, do povo Tupiniquim, também destacou pontos fundamentais: a atuação conjunta e articulada do Ministério Público com a Sesai, para a garantia de prioridade nos atendimentos dos povos originários e respeito às especificidades; ao transporte para o seu deslocamento, independentemente de faixa etária; e o respeito da medicina tradicional e o parto humanizado às mulheres. “Valorizando e considerando nosso corpo que é o nosso território”, complementou a delegada do bioma da Mata Atlântica.

Já a coordenadora Elisa Pankararu, do departamento das mulheres da Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (APOINME) ressaltou a presença do Bem Viver na conferência, a partir da articulação entre os eixos temáticos, frisando o fundamento político e espiritual da vida nos territórios indígenas. 

“Eu penso que o Bem Viver é uma demanda que se articula com todas as outras. O Bem Viver caminha para a saúde, para a educação, para as questões territoriais e para a não violência, nos diferentes contextos. É como se o Bem Viver fosse o eixo principal, o eixo da vida – a vida em suas vertentes, a vida em seus vieses, a vida em seus caminhos”, partilhou a doutoranda do bioma da Caatinga.  

A programação também incluiu reuniões na Funai. Delegações foram recebidas por Joenia Wapichana, pelas diretoras Mislene Metchacuna, Lucia Alberta e Janete Carvalho, e membros da equipe técnica da autarquia. 

As propostas debatidas pelas delegadas e convidadas indígenas e não – indígenas, aprovadas na Plenária Final, na quarta-feira, dia 7, além de definirem prioridades de políticas públicas, a serem implementadas no escopo de ações interministeriais, marcaram as estratégias de resistência que a Anmiga tem protagonizado desde a sua criação para a proteção da vida e autodeterminação dos corpos-territórios das mulheres indígenas. 

Foram aprovadas 49 propostas, de acordo com o documento público disponibilizado. O processo foi conduzido a partir de escuta, mobilização e construção coletiva prévia e no marco da conferência. Reitera-se na carta – documento a garantia de políticas públicas integradas, interculturais e interseccionais pelo Estado brasileiro, que respeitem a diversidade dos povos indígenas e assegurem a proteção dos corpos-territórios das mulheres indígenas.

CARTA PELA VIDA E PELOS CORPOS-TERRITÓRIOS: “Nosso corpo é território! Somos as guardiãs do planeta pela cura da terra!” 

Nosso corpo, nosso território: somos as guardiãs do planeta pela cura da terra

O acampamento montado no Eixo Cultural Ibero-Americano (antiga Funarte) para receber a 4ª Marcha das Mulheres Indígenas foi abrilhantado pelas cores dos artesanatos indígenas e pelas manifestações políticas das diversas etnias presentes. 

As novidades nesta edição foram as tendas: uma destinada a atividades e cuidados com as crianças para promover a participação das mães nas ações; outra voltada para socialização e encontros entre as mulheres indígenas de outras latitudes e geografias; e o espaço para produção do podcast “Mulheres Indígenas Biomas”, com entrevistas e falas de convidadas e participantes da marcha, comandado pela integrante da Anmiga, Ingrid Sateré Mawé.  

A Tenda Sementinhas da Ancestralidade contou com voluntárias educadoras indígenas e não indígenas, oferecendo um espaço seguro, lúdico, artístico e de lazer às crianças. Altaci Kokama, professora universitária, que esteve nos cuidados com as crianças, contou que durante a marcha passaram pela tenda mais 150 crianças por dia. E destacou a importância do espaço para o futuro indígena, pois “cuidar das mulheres é também cuidar das nossas crianças e essas sementinhas hoje são o futuro da ancestralidade dos povos indígenas”.

No Espaço Ancestral de Resistência Global também foram realizadas atividades todos os dias. As ações foram conduzidas por integrantes da Anmiga, com foco estratégico de articulação e cooperação internacional. Nance Dalia, representante da Aliança Global de Comunidades Territoriais (AGCT) partilhou da experiência construída coletivamente. 

“Consideramos que a importância de poder articular com outras mulheres do mundo é precisamente para poder alcançar maior incidência política nos espaços internacionais, onde se está debatendo nosso futuro.”

Em sua análise da conjuntura global, há muitos governos decidindo e falando em nome dos territórios indígenas, enquanto os povos e principalmente as mulheres indígenas estão lutando contra as ameaças governamentais e empresariais. Em sua fala, destacou o sentido político de permanecer articuladas, juntas e unidas “porque finalmente as lutas são as mesmas, são os mesmos objetivos, são as mesmas demandas, são as mesmas ameaças que enfrentamos”, concluiu a ativista mexicana.

Veta Lula! Marcha contra o PL da Devastação!

“Nenhuma coisa que vem pra destruir nossos territórios vamos permitir”, declarou Alawero Meynako, do território sagrado no Vale Xingu, nas proximidades do Congresso Nacional, às vésperas do prazo limite para a manifestação do presidente Lula  ao PL 2.159/2021, o chamado “PL da Devastação”.  

Para as guardiãs do planeta, o projeto de lei representa uma vulnerabilidade ainda maior para os territórios indígenas, que hoje tem sofrido constantemente com invasões de madeireiros clandestinos, exploração ilegal de minerais, contaminação das águas e de terras e perseguições às lideranças indígenas, inviabilizando e ameaçando, assim, o futuro dos povos originários, seus modos de vida e espiritualidade. 

marcha-das-mulheres-indigenas-2025
Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil.

Jandira Kurabacairi, do bioma Pantanal, falou sobre os impactos aos corpos-territórios das mulheres indígenas, iminentes com a aprovação do projeto: “Porque nós sem os biomas não somos nada. Nós somos terra, nós somos vida! Nós vivemos pela terra”. 

Nessa mesma direção, Amanda Guajajara relatou os motivos para a marcha: “Por toda a luta contra a violência que a gente vem sofrendo nos nossos territórios. Queremos melhoria, respeito também pelas organizações que nos apoiam e nossas lideranças caciques, mulheres e homens, pois estamos sofrendo muitas ameaças nos nossos territórios. Aqui é uma maneira da gente estar lutando”.

Para Jaira Juruna, mulher – bioma da Amazônia, os direitos dos povos originários, e especialmente das mulheres indígenas, atravessa o direito à proteção e preservação dos territórios. É contra o ‘PL da Devastação’, contra o  Marco Temporal e as mudanças climáticas que estão acontecendo na região da Amazônia que as mulheres jurunas ocuparam o centro do país.

Marcielle Tupari, liderança indígena, conectou a discussão à Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025, a COP30, que será realizada em novembro, sediada pela Amazônia brasileira.

“A nossa luta, enquanto mulheres indígenas, é pelo nosso território. É pelas nossas vidas, porque sabemos que sem território não somos nada. E hoje estamos lutando contra o ‘PL da Devastação’, contra projetos de mineração dentro dos territórios indígenas e queremos a demarcação dos nossos territórios. Não podemos falar da COP sem falar sobre as mulheres, juventude, sem falar das crianças, sem falar sobre os territórios indígenas que são a principal barreira contra a crise climática hoje no mundo, não só no Brasil”, destacou. 

“Pela floresta, pela água, pelas mudanças climáticas nos nossos territórios, para preservar nossas matas e contra o projeto de lei que destrói nossas florestas”, completou Maria Barros, da etnia Gavião. 

“Estamos aqui em marcha contra o que vai destruir nossas florestas e nós não queremos! Somos nós que estamos lá, vivendo e sofrendo e se isso acontecer nossas crianças vão morrer, nossos rios vão morrer. Estamos aqui por isso, lutando contra esse projeto de lei que vem matar nossas matas, nossas florestas” defendeu.

Em cartazes e faixas, a pajé Nega Pataxó, liderança espiritual e professora do povo Pataxó Hã Hã Hãe, que teve a vida arrebatada ano passado, recebeu homenagens pelas mulheres de seu povo. “Hoje estamos aqui pelas mulheres indígenas que foram tombadas. Ela foi mais uma das mulheres indígenas que foram assassinadas, teve seu corpo ceifado pela luta por terra e território”, partilhou a pajé Rita Tupinambá.

O encerramento da marcha se deu com a leitura da Carta dos Corpos-Territórios da 4ª Marcha das Mulheres Indígenas: Por nossos corpos e territórios, curamos a terra! pela da diretora executiva da Anmiga, Jozileia Kaingang. 

Em trecho extraído da carta, a força ancestral das mulheres indígenas diante das ameaças ganhou destaque: “Somos a força de séculos de silenciamentos rompidos. Somos sementes que germinam mesmo em tempos mais difíceis. Somos a ancestralidade viva que pulsa em cada passo que foi dado nessa marcha”.

Por fim, a marcha foi palco de muitas intervenções artísticas e inventivas, contou com shows, com a perseverança dos maracás empunhados ao alto, com rituais sagrados e tradicionais para fortalecimento da luta e resistência. O evento colocou em evidência  a moda ancestral, movimento artístico das mulheres indígenas que se tornou marca registrada das edições passadas da marcha e foi celebrado com um desfile no palco principal. 

Carta dos Corpos-Territórios da 4ª Marcha das Mulheres Indígenas: Por nossos corpos e territórios, curamos a terra!

APOIE O JORNALISMO INDEPENDENTE


Fazer uma matéria como essa exige muito tempo e dinheiro, por isso precisamos da sua contribuição para continuar oferecendo serviço de informação de acesso aberto e gratuito. Apoie o Catarinas hoje a realizar o que fazemos todos os dias!

CONTRIBUA COM QUALQUER VALOR NO PIX
  • Nicole é feminista, latino-americana, mulher cis e migrante. Formada em Serviço Social pela Universidade Federal de Sant...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Últimas