Por meio de música, arte, cinema e reflorestamento, a Feira da Resistência Indígena de Floripa (SC) reafirma, neste fim de semana (18 e 19 de outubro), a presença viva dos povos originários na capital catarinense. Realizada na Casa de Passagem Indígena e Ponto de Cultura Goj Ta Sá, no bairro Saco dos Limões, a iniciativa integra o projeto de Fomento à Cultura Ancestral em Florianópolis, que busca fortalecer ações de memória, educação e valorização das culturas indígenas. 

Desde 2021, as feiras são realizadas de forma contínua na Goj Ta Sá, espaço criado pelo Cacique Merong Kamakã, liderança histórica de retomadas em várias regiões do país.

“O Cacique Merong estabeleceu essas feiras como espaços de resistência, memória e fortalecimento comunitário. Seguimos seu legado, mantendo viva sua trajetória e a presença indígena na cidade”, afirma Cíntia Mendonça Kamakã, supervisora do projeto.

Com o apoio da Mandata Bem Viver, da Secretaria Municipal de Licitações, Contratos e Parcerias e da Associação Laboratório Terra Orgânica, as feiras vêm ganhando maior visibilidade. A Goj Ta Sá se consolidou como um espaço de referência cultural, educativa e de resistência, já reconhecido oficialmente pelo Governo Federal como Ponto de Cultura.

As atividades se articulam em um circuito que une arte, educação e agroecologia. Além das feiras de artesanato, o espaço recebe visitas escolares guiadas, promovendo o diálogo entre estudantes e lideranças indígenas. Na última visita, por exemplo, crianças e professoras participaram do plantio de 40 mudas nativas e de um piquenique na agrofloresta coletiva, fortalecendo redes de agroecologia urbana na cidade.

A edição deste fim de semana foi organizada de forma colaborativa e participativa, com curadoria de lideranças Kaingang, Xokleng e Guarani, que também coordenam o Mini Museu da Cultura Viva Ancestral Goj Ta Sá.

“Esse modelo reafirma a autonomia dos povos indígenas sobre suas próprias narrativas, fortalecendo o direito de contar a história a partir de quem a vive”, explica Cíntia.

Durante o processo preparatório, foram realizadas oficinas de cartografia social, unindo conhecimentos técnicos e saberes tradicionais. A metodologia resultou na produção de materiais didáticos que apoiam escolas na implementação da Lei nº 11.645/2008, que prevê o ensino da história e da cultura indígena e afro-brasileira.

“Um povo que conhece sua história, fortalece sua identidade, reconhece suas relações com o presente e cultiva um futuro saudável, próspero e feliz para toda a população”, ressalta Cíntia.

Recontar a verdadeira história de Florianópolis 

A programação desta edição vai além das apresentações culturais. No sábado à noite, será exibido o filme “Jornada do Piatã: O Despertar do Sol”, seguido de conversa com o público no Cine Goj Ta Sá. Já no domingo, ocorre um mutirão de reflorestamento do Bosque da Goj Ta Sá, com a doação de 600 mudas nativas da Mata Atlântica pela Associação de Preservação do Meio Ambiente e da Vida (APREMAVI).

A feira é também um ato político e educativo. Para Cíntia, reconhecer a resistência indígena em Florianópolis é recontar a verdadeira história da cidade.

“É romper com a narrativa ocidental que apresenta os povos indígenas como figuras do passado, como se tivessem desaparecido com a colonização, e recolocar a ancestralidade viva no centro da formação da cidade e da sua gente”.

Cíntia recorda que há evidências e memórias da presença contínua dos povos originários no território, como: os Sambaquis, os sítios arqueológicos e as artes rupestres, por exemplo, mapeados e expostos no portal Floripa Arqueológica.

“Mas a resistência não está apenas nos vestígios. Ela segue nos grafismos, nas retomadas, nos nomes de bairros, na culinária, nas trilhas sagradas, nos artesanatos, nas sementes coletadas e transformadas em arte e sustento. Cada expressão cultural reafirma que os povos indígenas não se foram: seguem aqui, produzindo, ensinando e reconstruindo o sentido do que é viver bem nesta ilha”, afirma.

Até dezembro, o projeto realiza mais duas edições da feira, em 22 e 23 de novembro e 13 e 14 de dezembro, e encerra o ano com o lançamento do Museu Vivo Goj Ta Sá, um local interativo e educativo dedicado à presença e à resistência indígena em Florianópolis.

Para fortalecer a dimensão comunitária e a economia solidária, estão abertos dois formulários públicos. O primeiro é um chamamento para empreendimentos do segmento da alimentação, vinculados ao movimento de economia solidária. O segundo, é voltado à mobilização de artistas e coletivos culturais, ampliando a participação e a divulgação das feiras.

Programação

Sábado (18/10)

9h às 18h – Feira de Artesanato Indígena
9h – Acolhimento
11h – Abertura e Apresentação da Luta Casa de Passagem
14h – Apresentação Cultural Kaingang
14h30 – Lançamento do 3º Painel do Mini Museu
15h30 – Coral Guarani Mbya (Aldeia Tava’i)
16h – Sarau Músicas de Reza
18h – Encerramento com Roda no Fogo

Domingo (19/10)

9h às 18h – Feira de Artesanato Indígena
9h – Acolhimento com as Lideranças
11h – Apresentação Cultural Kaingang
14h – Apresentações Artísticas
18h –  Encerramento com a Comunidade

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