Em abril de 2016, a revista IstoÉ estampou o rosto de Dilma Rousseff com a manchete “As explosões nervosas da presidente”. A capa não apenas informava – ela performava. Performava um tipo de violência simbólica que mulheres em posições de poder conhecem bem: a desqualificação por meio de estereótipos de gênero. Não importava a complexidade do contexto político ou as disputas legítimas de um processo de impeachment; o que importava era enquadrar a primeira mulher presidente do Brasil como “histérica” e “fora de controle”, alguém cujas emoções a tornariam incapaz de governar. Era a velha tática do machismo midiático: transformar tensão política em histeria feminina.

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Crédito: reprodução.

Avançamos quase uma década e, em julho de 2025, Jair Bolsonaro, em entrevista à CNN Brasil, aparece em vídeo gritando, com o rosto ruborizado e dedo em riste: “QUE PORRA DE GOLPE?!”. É um homem, um ex-presidente, reagindo de forma abertamente agressiva, interrompendo o jornalista e deixando evidente o descontrole emocional em rede nacional. O momento também vira espetáculo midiático. Mas desta vez, a narrativa construída não é a de uma suposta incapacidade natural do gênero masculino. Ao contrário: muitos comentaristas apressam-se em defender sua autenticidade ou justificar o palavrão como indignação legítima. Outros, é verdade, o classificam como desrespeitoso, mas a reação coletiva não é marcada por um estigma de masculinidade inadequada.

A foto usada na capa da IstoÉ de 6 de abril de 2016 — em que Dilma Rousseff aparece com a boca aberta, como se estivesse gritando — não foi tirada durante um discurso oficial. A revista recortou esse momento espontâneo e o ampliou, criando a impressão de explosão emocional. Pesquisas como a de John Herik Pereira Marques (UnB, 2018) e Vivyane Garbelini Cardoso (Seminário Internacional Fazendo Gênero, 2017), mostram que a imagem foi sepultada de contexto no processo editorial.

Eis a contradição reveladora. Dilma expressava firmeza, a mídia a patologizava. Sem evidências com que justificar uma suposta reação emotiva, utilizaram uma foto apócrifa para a capa da revista e então a acusaram de “explosões nervosas”, “descontrole emocional” e “instabilidade”. Já Bolsonaro, mesmo gritando palavrões ao vivo na TV, é lido ora como espontâneo, ora como bravo, ora como apenas vivendo “mais um episódio” de seu estilo. A lente que captura o corpo político de uma mulher não é a mesma que captura o corpo político de um homem.

Este contraste não é acidental, mas estrutural. O jornalismo brasileiro tradicional – com honrosas exceções – ainda opera a partir de filtros patriarcais que interpretam emoções femininas como fraqueza e emoções masculinas como força ou carisma. Mas essa lente não está restrita às redações; ela atravessa toda a sociedade brasileira. 

No cotidiano, vemos mulheres sendo cobradas a manter serenidade inabalável em ambientes profissionais enquanto homens, ao demonstrarem raiva ou indignação, são percebidos como assertivos ou apaixonados pelo que fazem. Nas salas de aula, meninas que questionam com firmeza são chamadas de mandonas, enquanto meninos que interrompem ou gritam são vistos como líderes em formação. Nas famílias, mães exaustas são julgadas por “perderem a paciência”, enquanto pais que batem na mesa são descritos como “impondo respeito”. 

O episódio de 2016 com Dilma e o de 2025 com Bolsonaro são apenas versões públicas e amplificadas de um padrão social que todos conhecemos: ambos mostram líderes sob pressão, ambos exibem emoções à flor da pele.

Mas apenas um deles foi enquadrado como prova de “incapacidade” – porque, em uma sociedade que ainda privilegia o masculino como padrão universal, o mesmo gesto tem significados radicalmente diferentes a depender de quem o pratica.

Essa desigualdade não nasce na imprensa; ela é cultivada nas casas, nas escolas, nos parlamentos, e encontra na mídia apenas mais um palco.

Precisamos estar atentas às interpretações e narrativas que naturalizam padrões duplos de tratamento por gênero. Porque não é a emoção em si que incomoda o patriarcado – é quem a expressa. Dilma, enquadrada como histérica; Bolsonaro, como indignado. A mídia precisa se perguntar: quem tem o privilégio de poder demonstrar descontrole? Quem é acusada de descontrole mesmo sem apresentar nenhum traço dele?

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  • Joanna Burigo

    Joanna Burigo é natural de Criciúma, SC e autora de "Patriarcado Gênero Feminismo" (Editora Zouk, 2022). Formada pela PU...

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