O encontro de cinco mulheres negras para uma imersão, em 2018, deu início a um importante movimento de incentivo à representatividade de gênero e raça na política institucional brasileira: o Mulheres Negras Decidem (MND). 

Batizada inicialmente de Rede Umunna, a iniciativa de Gabriele Roza, Lorena Pereira, Juliana Marques, Diana Mendes e Ana Carolina Lourenço nasceu como resultado do programa Minas de Dados, uma formação para dados abertos, narrativas e tecnologia para governos, realizada por Transparência Brasil, Olabi e Data_Labe. 

O objetivo era debater a sub-representação das mulheres negras, promover ciclos de formação política, disponibilizar dados e criar novas narrativas sobre essa população. E assim tem sido desde então. O Mulheres Negras Decidem realiza ações de incidência política que incluem o mapeamento de ativistas negras, pesquisas com parlamentares e relatórios que denunciam a falta de diversidade no judiciário brasileiro. 

Este ano, o MND esteve intensamente envolvido nas mobilizações pela indicação de uma ministra negra para o Supremo Tribunal Federal (STF). Através da campanha #MinistraNegraJá, o movimento anunciou uma lista com a defesa de três nomes para assumir a cadeira deixada por Rosa Weber, após a aposentadoria da magistrada.

Conversamos com Gabrielle Abreu, historiadora e integrante da coordenação nacional do MND, para falar sobre o saldo dessa campanha, os cinco anos do movimento – que elas se reuniram para celebrar no início de novembro – e as expectativas para o futuro. Confira.

Kelly Ribeiro: O que motivou a criação do movimento e qual era o contexto daquele ano? 

Gabrielle Abreu: O movimento foi criado em 2018 por cinco fundadoras. Três delas viviam no Rio de Janeiro, uma em São Paulo e outra na Bahia, em Salvador. Essas mulheres estavam reunidas para uma imersão em dados de representação política, elaborada pela Transparência Brasil junto com outras organizações, e o Mulheres Negras e Decidem é uma espécie de substrato dessa imersão. Como resultado dessa imersão, essas mulheres precisavam gerar algum tipo de reflexão e iniciativa que tivesse um problema social como mote, e elas elegeram a questão da sub-representação de mulheres negras nos espaços de tomada de decisão como tema para trabalhar. Inicialmente o movimento chamava-se Rede Umunna e o Mulheres Negras e Decidem era uma espécie de lema. Poucos dias depois que essas mulheres fizeram a apresentação da Umunna, a vereadora Marielle Franco foi assassinada. 

O assassinato da Marielle, da maneira como foi, tinha tudo para ser um elemento desmotivador desse engajamento que estava sendo construído, mas ele acabou materializando, expressando de uma forma muito violenta que, de fato, a gente precisava gerar uma reflexão coletiva sobre a sub-representação de mulheres negras na política. Então, tudo acabou fazendo sentido. Não precisávamos desse assassinado para nos mostrarmos importantes, relevantes e necessárias, mas ele escancarou a urgência de falarmos sobre o quanto esses espaços institucionais afetam a vida das mulheres negras.

Gabrielle Abreu, historiadora e integrante da coordenação nacional do MND. Foto: Arquivo Pessoal

O que significa Umunna?

Significa clã e irmandade em igbo, uma das línguas faladas na Nigéria. Esse é um nome muito bonito, mas sentimos que o Mulheres Negras Decidem era mais forte e já trazia de cara as nossas intenções, desejos e ambições.

Quantas pessoas compõem o movimento atualmente? De quais regiões elas são, quais as especialidades? São todas mulheres? 

O movimento é formado só por mulheres. Mulheres cis, mulheres trans, mas todas mulheres. São mais de 200 espalhadas em 19 estados do Brasil. Essas mulheres desempenham funções distintas, seja partindo de uma atuação parlamentar, na condição de mandatárias ou na equipe de parlamentares atuando como assessoras. Portanto, há integrantes que estão na atividade parlamentar, seja na cabeça de mandato ou não, outras que atuam na sociedade civil organizada, como eu, por exemplo, mulheres que estão na iniciativa privada, trabalhando com responsabilidade social, relações governamentais, direitos humanos, diversidade e inclusão. Temos mulheres em organismos internacionais, também professoras em diferentes etapas de ensino e muitas jornalistas. Temos uma gama muito diversa de atuação, a partir da nossa rede de articuladoras políticas, que é como a gente chama essas mulheres que se aproximam do movimento. 

Em 2023, o movimento mobilizou a campanha #MinistraNegraJá, que cobrava a indicação de uma ministra negra para o Supremo Tribunal Federal. O que motivou a iniciativa? 

O MND sempre discutiu a importância de termos mais mulheres negras em todos os espaços de tomada de decisão. Nos últimos cinco anos, nós estivemos mais empenhadas em uma discussão voltada para a política institucional, que é uma das instâncias mais importantes de deliberação, de decisão a respeito dos rumos políticos, sociais e econômicos do país. Mas sentíamos a necessidade de incidir um pouco mais nesses ambientes. Quando a gente chega em 2023 e percebe nessas discussões relacionadas Supremo Tribunal Federal uma janela de oportunidade, tendo em vista o quanto o STF ganhou centralidade no debate político e no debate jurídico no Brasil, entendemos que seria importante ter uma mulher negra nesse espaço onde se decidem os destinos de milhares de brasileiros, inclusive de homens e mulheres negros. Essa discussão toda em torno da próxima vaga do STF deu uma arrefecida, naturalmente. Houve um ponto alto da campanha, há cerca de um mês e meio, dois meses atrás. Mas o movimento se mantém engajado. Seguimos mobilizadas, pressionando. 

Qual o saldo da campanha até aqui?

O acúmulo enquanto movimento é importantíssimo. É super significativo. Foi muito importante entrarmos nessa discussão sobre o judiciário este ano, com tanta força. Falar de justiça e outros temas que já estava presente nos últimos cinco anos do MND. Mas, de fato, a gente alça isso a um outro patamar ao longo deste ano. Inclusive, para a gente enquanto articuladoras, parte desse núcleo menor que conduz o MND e toma as decisões do movimento, também foi importante adentrar essa discussão. Poder falar de representação de mulheres negras para além da política institucional. Hoje, nos sentimos em condições de travar essa discussão para debater mercado de trabalho, presença nas universidades, por exemplo. 

Também há o acúmulo comunicacional. Fizemos uma campanha muito bonita, muito grande e impactante que chegou em muitas pessoas. Modéstia à parte, acho que fomos líderes nesse processo. Ficou muito explícito que essa era a principal bandeira, pressão e iniciativa do MND ao longo de 2023. Claro, existe um acúmulo para a sociedade, para o movimento de mulheres negras, mas, pensando para o MND, há também um saldo comunicacional. Alcançamos outro lugar em termos de sensibilização, de alcance, o que nos deixa muito felizes e satisfeitas. 

Como analisam as críticas à campanha, considerando que algumas são do próprio campo progressista, minimizando a importância da representatividade racial e de gênero nas nomeações? 

Não era algo que não esperávamos. Percebemos que havia um grupo específico que não conseguiríamos convencer, digamos assim, não íamos conseguir aproximar. Então, tratamos de nos comunicar com quem queria nos ouvir. Claro que quanto mais longe a campanha chegasse, melhor seria para as nossas expectativas, mas entendemos também que havia alguns setores da sociedade, inclusive progressistas, onde esse diálogo não ia se firmar. Acho que foi bom também ter essa compreensão para entender onde colocaríamos energia. A gente tratou de conversar com quem estava aberto, receptivo.

Quando discutimos raça e gênero, existem grupos, inclusive no campo progressista, que vão ter uma dificuldade tremenda de identificar a importância desse tipo de assunto e essas são pessoas, com certeza, racistas, misóginas etc. Existem limitações até no campo da esquerda em relação às nossas pautas. O Mulheres Negras Decidem valoriza a radical imaginação política de mulheres negras.

E ela é radical e revolucionária porque ela alcança justamente o cerne dos problemas.

Vilma Reis, uma ativista importante da Bahia, do Movimento de Mulheres Negras, fala que as mulheres negras empurram a esquerda para a esquerda. Quem está na ponta de lança do engajamento progressista de esquerda no Brasil são as mulheres negras.

Isso não é algo contemporâneo. Isso é parte da formação política e ativista de mulheres negras desde sempre. Então, seguimos nosso trabalho muito convictas do caminho que estamos trilhando, muito certas de que a reivindicação precisa ser essa mesmo. A nossa radical imaginação não é um ativismo que se limita às redes sociais, é um ativismo que preza pelo diálogo, pela construção coletiva e pela valorização das mulheres negras.

O relatório “Mulheres Negras pela transformação do poder judiciário”, lançado em setembro pelo MND, a partir de dados do Conselho Nacional de Justiça, mostra que a diversidade no judiciário brasileiro está longe de ser uma realidade. Segundo o levantamento, 83,8% dos cargos são ocupados por pessoas brancas e apenas 14,5% por pessoas pretas ou pardas. A presença de uma ministra negra no STF é um passo importante para essa transformação?

Quando falamos em defesa de uma ministra negra no STF é porque realmente acreditamos que isso pode mudar a justiça brasileira. Claro que existe um simbolismo aí e os símbolos são importantes. Ver uma mulher negra com a toga, tomando decisões, uma mulher negra progressista porque é dessas mulheres que estamos falando. Quem não entende isso está de má-fé. Mas tem um peso muito prático porque uma ministra negra no STF dá um recado importante no que se refere ao acesso à justiça no Brasil. Dá um recado de que o país pode ser outro.

No que se refere à representação em outras instâncias, queremos ver juristas negras presentes em várias cortes, na justiça do trabalho e também em instituições jurídicas como o CNJ [Conselho Nacional de Justiça], como a OAB [Ordem dos Advogados do Brasil], e lecionando em universidades de Direito. Ter uma ministra negra no STF torna possível uma certa paridade de gênero e raça no que se refere a esses espaços institucionais tão caros para o sistema judiciário. Não resolve todos os nossos problemas, mas considero um ponto de partida bastante importante. 

Quais os principais ganhos do movimento nesses cinco anos? E quais os planos para o futuro? 

O balanço nesses cinco anos é muito positivo. Fizemos provocações, criamos insumos muito sofisticados, muito embasados, priorizando narrativas acolhedoras para mobilizar as pessoas. Fico muito satisfeita com o que construímos até agora. Para o futuro, os anos eleitorais são sempre anos muito quentes para o MND. Sempre temos uma expectativa muito grande e são sempre anos muito difíceis. Eu, particularmente, gosto muito de eleições municipais e vejo nas eleições municipais uma potencialidade de capilarização do MND porque temos candidaturas um pouco mais próximas de nós. O corpo a corpo é frequente, é uma estratégia que tende a alçar lideranças coletivas, lideranças que buscam o bem viver nas suas comunidades. Minha expectativa é conseguirmos sensibilizar a população brasileira de que é importante votar em mulheres negras e potencializar essas candidaturas no âmbito municipal. Dar todo e qualquer insumo a essas mulheres que decidem se candidatar e principalmente as que decidem se candidatar no município, que é sempre mais difícil no sentido de que é mais arriscado. Os obstáculos que as mulheres enfrentam na política se intensificam no âmbito municipal. Nosso objetivo é acolher essas mulheres negras progressistas que vão se candidatar no próximo ano. 

Qual a potência de integrar um movimento formado por mulheres negras engajadas em construir um país mais democrático e justo?

O Mulheres Negras Decidem mudou a minha vida. A minha e a de várias outras mulheres que também compõem o movimento. Quando cheguei ao MND eu tinha uns 22 anos, era estudante de História da UFRJ [Universidade Federal do Rio de Janeiro], fazia estágio, e sonhava muito, mas nunca sonhei tão alto. O MND me ensinou isto: sonhar muito alto. 

Sonhar em relação às minhas próprias experiências, às minhas vivências, ao que eu quero conquistar na vida. Também me fez sonhar alto em relação ao Brasil, à nossa democracia, em relação à participação de mulheres negras na política, em espaços de tomada de decisão, de maneira geral.

Mesmo partindo de lugares, às vezes, muito traumáticos, doloridos, porque somos mulheres negras e somos atravessadas constantemente por misoginia e por racismo, o MND me dá muita esperança. Me dá muita motivação, acima de qualquer coisa, e muita esperança de que, de fato, podemos transformar o Brasil, fazer um Brasil melhor e, definitivamente, o principal motor dessas construções é a radical imaginação política de mulheres negras brasileiras.

Eu tenho certeza que essa democracia e esse país só não ruíram por completo por conta da força das mulheres negras. Por figuras como Eliziane Gama, Benedita da Silva, Alice da Mata, Marielle Franco, Áurea Carolina, Tarília Petrone, Mônica Cunha, Dani Monteiro, Erika Hilton, Vivi Reis, Laura Sito e tantas outras mulheres negras incríveis que colocam suas vidas à disposição do coletivo.

O MND, de certa forma, catalisa toda essa energia, toda essa força, e nos dá muita esperança, muita expectativa por dias melhores e mulheres no Brasil. Acho que é por aí.

O jornalismo independente e de causa precisa do seu apoio!


Fazer uma matéria como essa exige muito tempo e dinheiro, por isso precisamos da sua contribuição para continuar oferecendo serviço de informação de acesso aberto e gratuito. Apoie o Catarinas hoje a realizar o que fazemos todos os dias!

Contribua com qualquer valor no pix [email protected]

ou

FAÇA UMA CONTRIBUIÇÃO MENSAL!

  • Kelly Ribeiro

    Jornalista e assistente de roteiro, com experiência em cobertura de temas relacionados a cultura, gênero e raça. Pós-gra...

Últimas