Em agosto deste ano, o Catarinas publicou o termo “pessoa gestante” nas redes sociais e sofreu uma nova onda de ataques. Foram centenas de comentários munidos do mesmo argumento transfóbico: apenas fêmeas humanas engravidam.

Episódios como esse fazem parte do cotidiano da nossa redação. Quando produzimos conteúdos transafirmativos, feministas radicais trans-excludentes (TERFs) convocam seu exército a atacar o nosso trabalho. Em poucas horas, recebemos centenas de mensagens de pessoas que não estão interessadas em dialogar conosco, nem mesmo quando fazemos jornalismo de seu interesse. 

Importante destacar que há seis anos o Catarinas pauta o combate à misoginia, ao racismo e à violência de gênero, e atua na defesa dos direitos sexuais e reprodutivos das pessoas com capacidade de gestar, mas os impactos positivos do nosso jornalismo não parecem suficientes para produzir sequer ponderação. 

Em geral, essas mensagens adotam o recurso retórico da repetição de frases prontas, em tom acusatório, como numa câmara de eco, sem qualquer possibilidade de escuta. Judith Butler já apontou a tendência ao fascismo desses movimentos e acabou censurada pelo Guardian, o que só reforça sua teoria.

“A ideologia anti-gênero é uma das tendências dominantes do fascismo em nossos tempos. Assim, as TERFs não farão parte da luta contemporânea contra o fascismo, que exige uma coalizão pautada pelas lutas contra o racismo, o nacionalismo, a xenofobia e a violência carcerária, atenta aos altos índices de feminicídio no mundo, que incluem altas taxas de ataques a pessoas trans e queer”, disse a filósofa.

O Catarinas faz jornalismo contra-hegemônico e para isso precisa se manter em diálogo e constante atualização. Primeiro porque sabemos que o jornalismo faz parte do projeto responsável pela estigmatização e pelo apagamento de pessoas e grupos, cenário evidenciado na pesquisa de Fabiana Moraes. A nossa voz tem ressonância e precisamos nos responsabilizar pelo que publicamos. Segundo porque os feminismos não são estáticos e entendemos que fazer alianças com grupos oprimidos pelo patriarcado é essencial e estratégico para a nossa luta. 

A afirmação dos feminismos, no plural, demarca nosso entendimento sobre a complexidade das frentes de saberes e de lutas que, em função da multiplicidade de sujeitos políticos, contrapõem-se às forças conservadoras e reacionárias. É no mínimo paradoxal pensar em um feminismo excludente com as pessoas que rompem a lógica do binário de gênero imposta pelo próprio patriarcado colonial. 

Pessoas que menstruam

Expressões como “pessoas que gestam” e “pessoas que menstruam ” não são modismos. São resultados de discussões e reflexões empreendidas a longo prazo pelos movimentos sociais e pela academia, a fim de incluir novos sujeitos, e não apagá-los. Enquadramentos sobre a necessidade material e a lógica por trás da ampliação do reconhecimento dos termos e linguagens de gênero já foram publicados extensivamente aqui no Catarinas. 

“Não precisamos temer a perda de termos relacionados a categorias analíticas de gênero. E podemos e devemos ampliar o vocabulário com que tratar estas questões. A gente vem fazendo isso há anos. Tensionar a categoria analítica ‘mulher’ sempre foi tarefa dos feminismos, e os estudos de gênero e o feminismo têm isso em comum. O reconhecimento de que o binário de gênero cisheteronormativo supremacista branco e colonial não dá conta da realidade é outra perspectiva da qual feminismos e estudos de gênero comungam. Formas não patriarcais (e anti-patriarcais!) com que pensar e expressar questões de gênero são necessárias”, defendeu a colunista Joanna Burigo em um texto publicado no ano passado, e assinamos embaixo.

Na semana retrasada, a filósofa Djamila Ribeiro argumentou contra o termo “pessoas que menstruam” no maior jornal do país, a Folha de S.Paulo. Lemos seu texto e também acompanhamos os posicionamentos da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) e do Instituto Brasileiro de Transmasculinidades (Ibrat). 

A comunidade trans se sentiu violentada pelo texto de Djamila. Em resposta, a Ibrat escreveu uma carta a ela e à Folha, contendo uma farta lista de referências bibliográficas. Até o momento, esse conteúdo não foi publicado. Enquanto isso, a filósofa comemorou nas redes sociais quando seu texto chegou aos mais lidos do jornal, acusou os críticos de falta de leitura e se recusou a pedir desculpas.

Na semana passada, a Folha de S.Paulo anunciou que Djamila falaria novamente sobre sua coluna em uma live para assinantes. Outra vez, nenhum homem trans, pessoa transmasculina, intersexo e/ou não binária foi convidada a participar. Com isso, milhares de pessoas tiveram acesso apenas ao ponto de vista da escritora sobre um tema que impacta tantos grupos que carecem de visibilidade e políticas públicas.

A escritora feminista estadunidense Rebecca Solnit diz que existem três elementos fundamentais para se ter uma voz: audibilidade, credibilidade e relevância. É audível quem é ouvido, sobretudo porque não foi excluído de determinadas arenas de debate. É credível quem não sofre descrédito dentro desses espaços. É relevante quem importa. 

“Se você tem importância, tem direitos, e as suas palavras servem a esses direitos e lhe conferem o poder de dar seu testemunho, fazer acordos, estabelecer limites.”

O Catarinas sabe que não reúne condições socioeconômicas de disputar alcance com a Folha, mas vem abrindo espaço para as contranarrativas como forma de contribuir para a audibilidade, credibilidade e relevância das pessoas não-cis.

Combate ao ódio

Como dissemos, não há evidência alguma do “apagamento de mulheres”, como sustentam as TERFs, pela ampliação dos discursos de inclusão de gênero. A reivindicação de exclusividade do sujeito político mulher, nas lutas feministas, é que pode suscitar apagamentos e reproduzir opressões de gênero, classe e raça, quando se utiliza do mesmo discurso de essencialidade e universalidade, por conseguinte superioridade, que diz combater. 

É perfeitamente possível usar a terminologia “mulheres cis e outras pessoas que menstruam”. O que não é certo nem justo – nem adequado para os propósitos das ciências e da saúde pública – é exigir que não se fale “pessoas que menstruam” – como foi bem demonstrado por Bruna Benevides, Hailey Kaas, Joanna Burigo e Lana de Holanda.

Também há de se considerar as implicações práticas de questionar a validade da amplificação da linguagem de gênero, em que ambientes e de que forma esses questionamentos são feitos, pois podem fomentar a violência contra pessoas não-cis. Por exemplo: na semana passada, ao falar do tema em sua estreia no Catarinas, Lana de Holanda foi atacada nas redes sociais com comentários criminosos. Se antes tínhamos como política interna apagar comentários transfóbicos, após esse episódio, passaremos a mantê-los e denunciá-los aos órgãos competentes. 

Transfobia é crime no Brasil. Em 2019, o Supremo Tribunal Federal decidiu que atos de transfobia devem ser enquadrados no crime de racismo, sob pena de um a três anos de reclusão e multa. A legislação descreve a transfobia como “qualquer ação e/ou discriminação motivada pela identidade de gênero de um indivíduo”. É através dessa decisão que a Justiça do Rio de Janeiro condenou o vereador Douglas Gomes (PTC), de Niterói, pelo crime de transfobia contra a vereadora Benny Briolly (Psol). O motivo? Ele chamou Briolly de “homem”.

O Catarinas se solidariza com as vítimas da transfobia. Para nós, o alinhamento de movimentos feministas às pautas relacionadas às sexualidades e identidades contra-hegemônicas, representadas nos movimentos LGBTQIA+ e antirracistas, é indisputável. O corpo é marcado por um discurso colonial e é com base na contestação à primazia desse discurso, e não na sua afirmação, que resistimos à negação e à hierarquização das humanidades, que são plurais e complexas.

Portal Catarinas

Redação Catarinas

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