O feminismo deve mesmo contemplar a materialidade dos corpos, e a partir daí tensionar a linguagem. Fazer isso ajuda a entender e explicar que homens trans podem menstruar, que pessoas intersexo podem menstruar, que pessoas não binárias podem menstruar, e que algumas mulheres podem não menstruar — e não me refiro somente a mulheres trans; muitas mulheres cis não menstruam, por natureza ou intervenção médica, todo mundo sabe disso.

Assim, não deveria haver desconforto, menos ainda discordância acerca da expressão “pessoas que menstruam” ser boa e útil. Essa é terminologia concretamente material com que descrever a ampla realidade da diversidade dos corpos. Mais ampla do que “mulheres que menstruam”. Isso não é complicado de entender. 

O binário de gênero é um conceito controlador de corpos pela redução da linguagem. Uma pessoa não é binária, assim como um programa computacional não tem sangue. E ainda que a existência de algumas pessoas aconteça integralmente dentro da lógica binária que separa a humanidade em fêmeas/mulheres e machos/homens, existem muitas pessoas para cuja existência este binário simplesmente não dá conta.

Existem nesse mundo pessoas machos e fêmeas e intersexuais e mulheres e homens e cis e trans e não-bináries. Há aqui na Terra homens que menstruam, mulheres com próstata, pessoas com características sexuais primárias e secundárias diversas existindo em um mesmo corpo, e sempre foi assim. Expressar reconhecimento da materialidade desta diversidade não é “ideologia de gênero”, e sim comunicação honesta sobre a realidade concreta da humanidade. Pessoas efetivamente existem fora da linguagem que expressa gênero de forma binária. Por isso, precisamos de extensores de linguagem: para que contemplem a materialidade de todos os corpos para além dos que já estão contemplados pelo binário. O binário não dá conta da sofisticação e complexidade de gênero para toda a humanidade. Nós somos feitos de sangue e palavra. Somos carne e discursos. Não deveria dar medo a ninguém precisarmos de mais terminologia, e não de menos, com que reconhecer e operar nossos múltiplos fenômenos. 

A filósofa Djamila Ribeiro, em sua coluna na Folha de São Paulo de 01 de dezembro de 2022, expressou desconforto com a expressão “pessoas que menstruam”, implicando que esta seria uma forma reducionista com que enquadrar mulheres. Em suas redes sociais a comunicadora feminista Lana de Holanda comentou, com tanta precisão que compartilho o texto na íntegra, que: 

“A transfobia usa os mesmos métodos da extrema direita, criando espantalhos e espalhando pânico moral. Ninguém quer, de forma alguma acabar com o termo “mulher” ou anular a realidade das mulheres cis. O que se quer, e é justo, é incluir outros corpos em pautas necessárias.

Nem toda mulher menstrua, e existem pessoas que menstruam e que não são mulheres. Então, obviamente, o termo “pessoas que menstruam” tá correto porque inclui todos os tipos de corpos. O mesmo ocorre nas pautas de gestação, de aborto e de violência obstétrica, por exemplo.

E isso é diferente de quando falamos de feminicídio, onde as vítimas são mulheres. Repito: ninguém propõe que o termo mulher, ou a categoria mulher, ou o ser humano mulher, deixem de existir. É ridículo. A intenção é incluir, quando for o caso, outras pessoas além das mulheres.

Mas a quem interessa atacar pessoas trans através desse pânico moral baseado em exageros e mentiras? Pq a bolha progressista acha que a transfobia, ao contrário de outros ódios e preconceitos, é aceitável? O que diferencia essas pessoas das que falam em “ideologia de gênero”?

Homens trans e pessoas não-binárias estão tentando ter acesso à saúde obstétrica e ginecológica. A linguagem é um passo importante na legitimação e reconhecimento de identidades, de lutas, de vidas. Pq algumas mulheres cis querem ter o monopólio discursivo sobre a menstruação?

Incluir, não excluir, esse é o caminho. E algumas vezes, para incluir outros grupos e vivências, a gente precisa repensar termos, repensar parte da nossa forma de comunicar. Sempre foi assim na história do mundo, na luta por direitos. Qual o incômodo específico com pessoas trans?”

Em 2021 escrevi que “o lugar de onde a gente fala é sempre uma reflexão importante a se fazer quando a gente fala”, invocando a teoria da própria Djamila Ribeiro para criticar o fato de que, no debate público, “algumas discussões importantes acabam por virar ar quente, fumaça, um rio de palavredo num mar de opiniões”.

Coincidentemente, usei como exemplo destas discussões furadas justamente a menstruação, dizendo que “é próprio da fisiologia humana, e não um privilégio, ou coisa de mulher. Mas há, sim, privilégios que podem ser observados pela análise de como sujeitos diferentes têm ou não acesso a higiene e saúde sexual e reprodutiva necessárias pela sinalização de serem/sermos sujeitos que menstruam. É misoginia e é também transfobia o que informa a criação de políticas públicas que interrompam o acesso a higiene e saúde sexual e reprodutiva de gente que menstrua. Falar sobre menstruação é falar sobre a gente, sobre a humanidade. Não é pauta exclusiva de quem menstrua. E nem todo mundo que menstrua é mulher. E nem todas as mulheres menstruam, trans ou cis ou intersexo. E menstruação ainda assim continua sendo uma pauta de mulheres E pauta de homens trans também; há várias permutações possíveis entre pautas e identidades.”

Como venho dizendo há bastante tempo – aqui no Catarinas, inclusive, e mais de uma vez – tendo estudado e pesquisado gênero todos estes anos pelas perspectivas de muites autores trans e intersexuais – e como ficou bem claro no fino texto de Lana de Holanda, acima – o afã de novas terminologias é de inclusão. Desde que a publicação da importante feminista brasileira foi ao ar, vozes igualmente importantes porém menos conhecidas, dos ativismos trans, intersexo, LGBTI+ e feminista, sedimentaram entendimentos semelhantes nas suas redes. Cito alguns. 

A compilação de múltiplas perspectivas sobre o tema, de grupos de interesse e ativistas diversos, que foi feita pela conta @famíliaspeladiversidadeoficial. A publicação da asserção “eu ñ sou uma mulher (e menstruo)”, de Professore da UFRJ Dri Azevedo em seu Instagram, que foi acompanhada de mais reflexões na sua conta.

O didático texto de Hailey Kass no site Transfeminismo.com, que situa e dissipa a problemática com muito discernimento na retórica, lembrando que a categoria mulher segue existindo e sendo útil, só não é a única ou mais importante com que pensar gênero.

As elucidações feitas pela perspectiva das ciências de gênero e esportes do mestre, pesquisador e professor Eric Seger em sua conta de Instagram, que ressaltou com muita clareza que reivindicar que a experiência  de menstruar seja sinônimo de mulher é cisnormativo.

O forte convite ao diálogo feito pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) que corretamente exige escuta atenta e respeitosa de pessoas cis. O posicionamento firme do Instituto Brasieiro de Transmasculinidades (IBRAT), que ressaltou a máxima de Simone de Beauvoir, “não se nasce mulher; torna-se”, ainda que com outras palavras:

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Imagem: reprodução @IBRATnacional

Também destaco a intervenção da primeira deputada intersexual das américas, a sempre querida, generosa e bem articulada Carolina Iara, que fez no seu perfil de Instagram alguns apontamentos que certamente auxiliam feministas cis a pensar de forma mais ampla a respeito de questões de gênero – ela disse:

“Pessoas intersexo com aspectos dos 2 sexos, como eu, podem menstruar. Eu não menstruo pq fui mutilada! Como parlamentar não podemos excluir pessoas na escrita de Leis, por isso usamos “pessoas com útero”. (…) O termo “pessoas com útero” ou “pessoas que menstruam” não precisa apagar a categoria político-social “mulher”. Agora falando como cientista social: essas não são categorias excludentes, pelo contrário. Eu mesma sou mulher intersexo (condição biológica) e travesti (identidade). (…) Humanizamos as pessoas trans, intersexo, não binárias sem apagar mulheres cisgêneras, e na verdade, as mulheres negras cis são nossas aliadas históricas.”

No sábado (3) a desenvolvedora de automação robótica Amanda Palha aprofundou o motivo pelo qual é urgente desfazer essa problemática, explicitando em um post em sua conta de Instagram que as consequências do apego mal-informado a categorias de gênero sedimentadas no binário podem – e mais frequentemente do que não, vão mesmo – se transformar em políticas públicas reacionárias. E no domingo (4) a política gaúcha Natasha Ferreira ofereceu a explicação de uma forma que a professora em mim, particularmente, adora: com um bom e velho diagrama de Venn

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Imagens: reprodução @trv.amandapalha (à esquerda) e @eunatashapoa (à direita).

“Pessoas que menstruam”, tal qual “pessoas com próstata”, “pessoas com útero”ou “pessoas com testículos”,  são linguagem exata sobre corpos humanos, e, assim como “mulheres que menstruam”, estão também longe de ser as únicas formas com que expressar toda a sofisticação de questões de gênero na sociedade. Estas formulações não existem para excluir. Ao contrário, servem para reconhecer, incluir e respeitar sujeitos diversos, e aprimorar políticas públicas – importantemente, na área da saúde, onde rigor com a realidade dos corpos significa melhor ciência e bem estar para todes. 

Devemos estar abertas à possibilidade de que existam paranoias feministas – até para sabermos como rapidamente nos desfazer delas. Certas formulações somente existem como resposta a ameaças-fantasma, acabam por incentivar pânico social com retórica polêmica, e a consequência disso é ainda mais violência na direção de pessoas cujas demandas são materiais, reais, concretas, importantes e justas. 

Aqui fala uma mulher cis que ainda menstrua, e que conhece projetos feministas que combatem coisas como pobreza menstrual, a maioria dos quais não necessariamente inclui homens trans e pessoas intersexuais em suas formulações. E precisamos lembrar de não esquecer, excluir ou deixar ninguém para trás, seja em nossas falas ou ações. Não é desejável, nem faz sentido, que mulheres cis estacionem ou fiquem ressentidas com essa questão. Gênero é assunto amplo e de todes. 

Joanna Burigo

Joanna Burigo é natural de Criciúma, SC. Em 2001 se formou pela PUC-RS em Comunicação Social, e obteve seu MSc em Gênero Mídia e Cultura pela London School of Economics em 2012. É professora do MBA em Diversidade da Universidade La Salle, coordenadora da escola de formação feminista e antirracista Emancipa Mulher, membra do Conselho Editorial do Portal Catarinas, e consultora de comunicação e educação na Boleto+1. Parceira de publicações com a Editora Zouk, "Patriarcado Gênero Feminismo", de 2022, é seu primeiro livro autoral.

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