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“Doce Olho do Furacão” narra mulheres que rompem com padrões de feminilidade passiva

Postado em 17/09/2021, 8:59

Novo livro de Elizia Haubert reúne contos que retratam personagens femininas violentas e disruptivas  

Figura conhecida aqui no Portal Catarinas, Laura Elizia Haubert é responsável pela coluna Chicas que Escrevem. A escritora, que hoje vive em Córdoba, Argentina, começou a escrever quando ainda era criança – aos 15 anos e, ainda no Ensino Médio, teve seu primeiro livro publicado. 

Hoje, aos 25 anos, Elizia lança Doce Olho do Furacão e outras fúrias, pela editora Penalux. O livro leva o selo Auroras, que marca as publicações de autoras mulheres. Os 23 contos que compõem o livro trazem histórias de mulheres mergulhadas em violência, cujo comportamento e agressividade rompem com os padrões de feminilidade passiva impostos pelo patriarcado. A narrativa que dói, incomoda e edifica já se mostra no conto de abertura, onde uma jovem vítima de abuso sexual sai pelas ruas matando cachorros a paulada, literalmente. 

Laura também é autora do livro “Memórias de uma vida pequena”, publicado pela Quintal Edições em 2019, e “Sempre o mesmo céu, sempre o mesmo azul”, publicado pela Patuá Editora em 2017. Já teve contos publicados na Revista Ponto do SESI-SP, na Revista Gueto e na Revista Subversa, além de participações em antologias como “As coisas que as mulheres escrevem”, da editora Desdêmona, publicado em 2019. Além de escritora, é graduada e mestre em Filosofia pela PUC-SP, e doutoranda em Filosofia pela Universidad Nacional de Córdoba, Argentina. 

Como escreve Monique Malcher na sinopse do livro, “mais assustadora que a morte é uma vida que se repete nas mesmas tristezas e incapacidades de mudanças. Doce olho do furacão e outras fúrias é um livro com as garras de muitas mulheres, que por não aceitarem a morte que o cotidiano pode trazer, tentam – cada uma a seu modo – uma nova realidade.”

Elizia Haubert escreve sobre mulheres que rompem com o padrão de feminilidade
Foto: Arquivo Pessoal

Portal Catarinas: Você poderia contar um pouco de sua trajetória como escritora?

Eu escrevo desde pequena. Sempre brinco com a minha editora, que eu não tenho uma época antes da escrita. Desde que eu tenho memória, eu escrevo. Eu publiquei meu primeiro livro aos 15 anos, quando ainda estava no Ensino Médio. Mas era outra pegada, literatura fantástica – que era muito o que eu consumia na época. 

Foram surgindo mais livros, a coisa foi mudando. Esse livro em específico, reflete muito de toda essa vivência feminina, que eu vinha refletindo nos últimos tempos. Especialmente, porque eu passei por um relacionamento muito abusivo no meio do caminho. 

Isso influenciou muito a forma como eu decidi abordar personagens femininas não tão pacíficas, não tão passivas. Mudar um pouco o tom. Porque todas as minhas personagens femininas anteriores não eram tão agressivas. Eram todas voltadas para uma questão mais melancólica, com pouca ação. 

Esse livro, pra mim, é disruptivo, dentro do que eu escrevo. Porque ele é bastante diferente. Nele eu também toco em vários temas que são pesados. No primeiro conto, a gente tem o abuso sexual. Depois, eu vou tocar em outros temas como a maternidade indesejada. 

Estou bastante apreensiva para a recepção, sabe? É um pouco diferente do que eu costumo escrever. Mas foi uma tentativa de experimentar também, com a escrita. E refletir sobre muitas histórias que são conhecidas. 

Eu tive na família, por exemplo, mulheres que passaram por abuso. E a gente ainda tem uma tendência de suavizar isso, quando escreve, ou quando fala sobre isso. Eu queria botar o dedo na ferida. Eu não queria passar por esse tom mais tranquilo. Doce olho do furação pra mim é uma revolução dentro do que eu escrevo. 

Até as pessoas que são mais próximas, que leram a primeira vez, ficaram um pouco chocadas. Eu diria que é um filho único, não se parece com nada que eu já tenha escrito. 

O último livro que eu tinha escrito era um romance de formação. Tinha uma personagem feminina disruptiva, mas muito mais tranquila. Esse livro é bastante diferente. Foi um livro que me deu muito trabalho, eu reescrevi muitas vezes, até encontrar o tom de alguns contos. Foi muito experimental pra mim, e quero ver o resultado. 

Elizia, me conta: Como é passar de alguém que entrevista autoras, para autora entrevistada?

Eu prefiro entrevistar do que ser entrevistada! [risos]. Eu gosto de estar de trás das câmeras. Brinco com a minha editora que eu escrevo porque eu não gosto muito de falar em público. Então, sempre que eu tenho que ser entrevistada, pra mim é muito mais difícil, eu fico muito mais cômoda entrevistando. 

Acho que também é meio complicado, porque o que o escritor tem de consciência da própria obra, às vezes não é a mesma coisa que aparece para o leitor. Então, é meio estranho pra mim estar aqui falando, no lugar de pensando no que a outra pessoa está fazendo. 

Você comentou que está apreensiva com a recepção. Tem medo de como o livro será recebido, ao trazer mulheres neste papel de violência e raiva, geralmente ocupado por homens? 

Não é medo, é mais curiosidade na verdade. Eu não sei se ele vai ser bem recebido, como os leitores vão se identificar, se as mulheres vão se identificar com isso. 

Porque tem essa coisa que a gente tem muito na gente, que é uma coisa dessa educação patriarcal, essa coisa de não ser violenta, sempre sorria, seja essa pessoa mansa, passiva. Escrever essas mulheres que matam, que torturam, que tem prazer na violência., é colocar a mulher nesse outro papel, que como você bem disse, é um papel masculino. 

É uma experiência interessante, mas eu não sei como os leitores vão se sentir lendo isso. Se eles vão, digamos, embarcar junto nessa minha ideia. 

Eu costumo brincar que geralmente o livro se escreve sozinho. Eu comecei a perceber que tinha uma temática depois de vários contos, que eu escrevia soltos. Daí eu comecei a perceber que todos eles tinham esse fio, essa mulher revoltada, fora do padrão. A partir daí, quando eu tomei consciência, eu comecei a montar o livro.

As histórias foram saindo e eu fui internalizando, essa coisa catártica que a gente faz, com a arte e tudo que a gente internalizou, tudo que eu passei, acabou se convertendo em uma outra forma.  

E aí claro também, as influências da literatura. Eu li muita coisa parecida nesse momento. Eu estava vendo muito Flannery O’Connor, os contos dela são bastante nesse sentido também, com personagens violentos. 

Foi uma influência de tudo, de várias autoras que eu já gostava, que fazem esse trabalho, juntou com essas vivências, e o livro foi saindo à sua própria maneira. Surpreendendo até eu mesma. 

Além da Flannery O’Connor que você citou, quais escritoras te inspiram?

É muito de fases. Escrevo muito em resposta ao que estou lendo na época. Eu já tive muitas autoras com quem eu dialoguei. Agora, neste último livro, eu dialogo com outras autoras. 

Uma autora que me marcou muito, que foi uma inspiração, foi a Lúcia Berlim, de Manual da Faxineira. Foi uma leitura que eu fiz e ficou ecoando na minha cabeça, me influenciou muito para criação de Doce olho do Furacão. 

Então Flannery O’Connor, Lucia Berlin, Pilar Quintana, Cormac McCarthy. Uma série de outras mulheres, porque eu leio muito. Várias mulheres contemporâneas. E também, esse hábito que eu tomei, de ler muitas mulheres, e ler mulheres contemporâneas. 

A troca com o Chicas, também, ter o contato com outras escritoras, ver o que elas estão fazendo. Algumas delas também tinham essa pegada. Tudo isso influenciou bastante.

Você comentou que os contos foram escritos soltos, e depois reunidos em um livro. Como foi o processo de produção e de publicação?

Foi bastante lento. Eu vinha escrevendo por quase um ano e meio, estes contos de maneira mais solta, sem uma perspectiva de livro, até eu perceber. Foi um dos contos, que está no livro inclusive, que se chama “Fusível automotivo de lâmina média”. 

Neste conto eu percebi o fio com os outros contos, e comecei a montar o livro. Mas muitos não entraram pro livro. Foi um trabalho de montar a primeira edição, que eu enviei para as editoras. O livro inclusive tinha outro nome. 

E aí, com a editora Penalux, junto com a minha editora Dani Costa, a gente foi reconstruindo o livro. Reescrevi boa parte dos contos, tirei alguns, acrescentei outros. Um trabalho de reescrever, duas, três, quatro vezes o livro, até a gente achar que o tom estava chegando no meu melhor. 

O trabalho da capa também foi todo especial. A Ana Brandão fez uma tela, de verdade, pra ilustrar. Ela pintou, depois fotografou para fazer a capa. Tudo foi feito por mulheres, em um trabalho em conjunto. 

Foi uma experiência bastante única. Estou achando muito gostoso o trabalho que foi construir esse livro. Bem mais devagar do que os outros, mas também bem mais cuidadoso. 

Capa do livro Doce Olho do Furacão e outras fúrias
Foto: Divulgação

Porque as pessoas deveriam ler Doce olho do Furacão e outras Fúrias?

Ah, eu sou péssima me vendendo gente… Não sei! Acho que talvez pela experiência, ter essa percepção de um outro lugar. De um outro lugar que não é só dessa mulher adulta e adolescente que a gente tem no livro. O segundo conto passa por uma senhora idosa. São narrativas que nem sempre a gente vê por aí. 

Essas vozes, de mulheres de diferentes idades. Em alguns contos tem uma criança. Eu acho que pela experiência mesmo, pois cada experiência literária é única. Fica o convite para experimentar algo diferente. 

Quais são seus projetos para o futuro? Veremos mais contos sobre mulheres?

Sem dúvida! Por muitos anos eu escrevi só com personagens masculinos. E quando eu tomei essa consciência, entrei em contato com essa questão da mulher na literatura. 

Essa consciência de que eu sou mulher, eu to fazendo literatura, isso também é político. Eu comecei a adotar as mulheres como minha voz. 

Já tenho algumas coisas engatadas para sair em revistas online, revistas de literatura. Estou pensando num novo livro ainda, rascunhando algumas coisas. Mas é isso, o livro vai se escrevendo. Quando eu perceber que a gente tem um livro de novo, a coisa engata. 

Eu escrevo por hobby mesmo. Escrevo porque amo escrever. Eu brincava com a minha editora, que eu amo mais escrever do que todo o resto do processo. Então, pra mim, eu não gosto de fechar nada. Vamos ver o que vai acontecer. 

O que você diria para outras mulheres que escrevem?

Essa pergunta é bem mais legal quando eu a faço. [risos] É bem mais fácil. 

Escrevam, pra começo de história. Acho que tem muitas mulheres que ainda têm medo, não se sentem capazes, ou se sentem julgadas. 

Escrevam. Não deixem o medo ganhar. Falem, compartilhem. A gente ainda precisa tomar essa voz, ocupar esse espaço que ainda não é nosso. 

Indique um livro para os leitores, e também um filme ou série.

Livro: Um homem bom é difícil de encontrar e outras histórias – Flannery O’Connor

Série: Faz de conta que Nova York é uma cidade

Queria te agradecer Elizia. E espero que a experiência de ser entrevistada não tenha sido ‘traumatizante’. 

Não, foi um prazer. Só é um pouco estranho pelo deslocamento do lugar. Mas eu que agradeço, foi ótimo!

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Estudante de Jornalismo (UFSC) dedicada à escrita de reportagens, com foco na cobertura de direitos humanos. Estagiária no Portal Catarinas, sob supervisão de Paula Guimarães.
Veja a coluna da Gabriele Oliveira Silva