Arte: Claudia Aguiyrre

Adélia Sampaio e o pioneirismo cinematográfico de Amor Maldito

Postado em 10/04/2021, 13:04

Adélia Sampaio é a primeira diretora negra a produzir um longa-metragem na América Latina. A cineasta inaugura a segunda temporada da série Pioneiras do Cinema, desta vez em formato de entrevista. Lançada em 2019, a série destacou as pioneiras do cinema mundial e seus legados para a história da cinematografia.

“Me considero ousada pela coragem de fazer cinema”.

“Eu sempre me senti negra. Tenho consciência do que é ser negra, do que nossa história representa e representou neste país. Nós existimos, queremos viver e queremos viver com afeto e dignidade”.

O pioneirismo cinematográfico é apenas uma das qualidades da brasileira Adélia Sampaio que faz eco às trajetórias destas mulheres do cinema. A forma de pensar o cinema também foi determinante para a importância dos feitos e das realizações destas criadoras. Na história da cinematografia mundial é possível entrever circunstâncias e condições semelhantes na vida de importantes nomes do cinema. Condições capazes de amplificar personalidades visionárias e abnegadas, que se tornaram também personagens essenciais para o cinema em toda sua abrangência. Circunstâncias desafiadoras o suficiente para colocar em marcha realizações femininas que marcaram a história do cinema.

Dirigindo o curta-metragem “Denúncia Vazia”/Foto: acervo pessoal

O paralelo mais evidente para Adélia Sampaio parece ser a pioneira maior da cinematografia mundial, a francesa Alice Guy-Blaché. Seu filme A Fada dos Repolhos, cujo título original é La Fee aux Choux, é o primeiro filme de narrativa ficcional de que se tem notícia e foi estrelado pela sua amiga Yvonne Serrand, que interpretava a fada na versão fílmica de um conhecido conto popular francês.

A realização teve que ser produzida com o apoio de amigos e “fora do horário de trabalho”, conforme solicitado por Léon Gaumont que a contratara para ser sua secretária. Aos 21 anos Alice Guy havia sido admitida pela empresa, que àquela data dedicava-se à comercialização de equipamentos e suprimentos fotográficos, para depois tornar-se uma companhia de produção cinematográfica em atividade até os nossos dias, com produções audiovisuais em diversos formatos. Ela havia feito um curso de taquigrafia para poder garantir seu sustento após o falecimento do pai e da falência das livrarias da família.

Ao ser contratada pela Gaumont a visionária Alice colocou-se no epicentro do surgimento do cinema e soube, desde então, que era o que queria fazer na vida. Suas concepções a respeito desta linguagem determinaram os rumos do cinema. Da mesma forma, Adélia Sampaio percebeu desde o primeiro contato com o cinema que era onde queria estar. Aos 13 anos sua irmã mais velha levou-a para uma sessão de cinema que literalmente mudou a sua vida. Encantada com as imagens projetadas, Adélia Sampaio lembra que tremia de emoção e foi então que sonhou em ser cineasta.

Separada de sua mãe e irmã ainda muito pequena, Adélia foi colocada em orfanatos até ser resgatada anos mais tarde por sua mãe, que custou a reconhecer num primeiro momento. A cineasta conta que foram anos de afastamento durante os quais guardou um par de sapatos da infância para não perder a referência de sua família: “(…) porque eu tinha a impressão de que se eu o perdesse eu nunca mais ia achar minha mãe”.

Adélia Sampaio ao lado da mãe Guiomar no Largo do Machado no Rio de Janeiro/Foto: acervo pessoal

De volta à sua família, Adélia teve diversos empregos até responder a um anúncio de jornal para uma vaga de telefonista. O ano era 1968, a cidade o Rio de Janeiro e o emprego era na Difilm, produtora que se transformou em reduto de pensadores do Cinema Novo. Este movimento cinematográfico nacional, inovador e revolucionário, surgia como alternativa ao cinema dominante das superproduções Hollywoodianas de então, a exemplo do Neorrealismo italiano e da Nouvelle Vague francesa, fortes influências do movimento brasileiro. A proximidade com importantes realizadores do cinema nacional foi uma escola para Adélia, que menciona ter trabalhado com pelo menos 15 diretores da época e que os filmes de Leon Hirszman e de Nelson Pereira dos Santos influenciaram suas obras. Circunstância semelhante viveu Alice nos primórdios do cinema com a sua proximidade com os criadores da cinematografia.

A pioneira francesa aprendeu todos ofícios que logo configurariam uma equipe de cinema e acabou sendo a primeira diretora de um estúdio cinematográfico, depois de dirigir e produzir muitos filmes próprios e de colegas. A pioneira brasileira também passou por muitas funções em diversas produções – foi maquiadora, continuísta, câmera, montadora e produtora –, até chegar à direção. Ambas tornaram-se referências na história do cinema ao desenvolverem estéticas com engajamento e discursos próprios.

Cena da festa de casamento entre Fernanda e Sueli em “Amor Maldito”/Imagem: reprodução

Adélia Sampaio dirigiu o primeiro filme brasileiro de longa-metragem produzido em formato cooperativado, sendo a primeira diretora negra a estar à frente de um longa-metragem na América Latina. Amor Maldito, ficção baseada em fatos reais, tornou-se um filme histórico e visionário ao abordar o relacionamento entre duas mulheres dentro de uma sociedade hipócrita e corrompida.    

Dirigiu outros dois longas-metragens, ambos documentários: Fugindo do Passado (1987) e AI-5 – O Dia Que Não Existiu (2001), em codireção com o jornalista Paulo Markun, no filme que retrata momentos históricos vividos no Congresso Nacional, em 1968. Como produtora, além de Amor Maldito (1984) assinou as produções: Parceiros da Aventura (1980), Ele, Ela, Quem? (1980) e O Segredo da Rosa (1974). Depois de estrear no cinema com Denúncia Vazia Adélia dirigiu outros curtas, entre as décadas de 70 e 80: Agora um deus dança em mim, Adulto não brinca e Na poeira das ruas.

Amor Maldito: um filme de atualidade assombrosa

A atualidade da obra é impactante e triste ao mesmo tempo, mas isso só reitera a convicção de Adélia Sampaio de que “o cinema tem essa obrigação de deixar rastros, explicações e mostrar”, referindo-se às realidades que quer tornar visíveis. O longa-metragem acaba confrontando o espectador com circunstâncias sociais de profunda injustiça, que ainda se fazem presentes em nossa crueza cotidiana, mesmo quase três décadas depois de seu lançamento, em 1984. O filme reúne as representações corajosas de um sistema judiciário corrompido, da perseguição cega praticada por certas crenças religiosas, da repressão familiar em função de uma ordem social instituída dentro de um sistema de poder deturpado e excludente. O filme é ainda hoje um enfrentamento com o instituído pela maioria das sociedades estabelecidas.

Cartaz do longa-metragem “Amor Maldito”/Imagem: reprodução

Sua filmografia é, sim, um ato de confronto ao que a realidade impõe, pois assim a diretora entende o cinema. Adélia Sampaio considera que o pioneirismo em suas realizações foi apenas circunstancial e que a necessidade era usar o cinema como meio de denúncia.

E acrescenta que faz “filmes sobre o ser humano e principalmente sobre coisas que toquem a minha alma”.

Foi assim com Denúncia Vazia seu primeiro curta-metragem, baseado em uma notícia de jornal. Foi assim com seu primeiro longa, também fundamentado em fatos reais que chamaram a atenção da cineasta.

Adélia na direção de “Denúncia Vazia”/Foto: Cláudia Ferreira

Entre as duas obras há mais quatro curtas-metragens dedicados a temas urgentes ainda nos dias de hoje. O próprio título Amor Maldito foi retirado de uma manchete de jornal da década de 60, que estampava a notícia do suposto suicídio de uma ex-miss, que envolvia um caso de amor entre duas mulheres e a acusação de homicídio que recaiu sobre uma delas. O filme é uma ousadia sensível como a que caracteriza toda a trajetória desta importante cineasta que entende que fazer cinema é “filmar o filme que tem o que denunciar”, como no caso deste longa em que era preciso tratar a representatividade das mulheres lésbicas. A trama envolve uma garota de família religiosa e devota que se apaixona por outra mulher e o julgamento que decorre da morte de uma delas.

Amor Maldito é uma obra vigorosa que para poder existir foi realizada de modo cooperativado, o que é outro dos pioneirismos de Adélia Sampaio. Com a negativa de financiamento da extinta Embrafilme, distribuidora e financiadora de centenas de filmes brasileiros durante a década de 70, e que chegou a contemplar outras de suas iniciativas, a cineasta conta que o projeto teve que encontrar outros caminhos para sua realização.

A entrevista concedida pela cineasta aborda um pouco de cada um destes assuntos relativos ao sonho de criança com o qual construiu sua trajetória. Sempre a partir de uma postura sensível e impregnada da “consciência do que é ser negro, do que nossa história representa e representou neste país”. Ela relembra que foi a mãe que lhe incutiu este sentimento de pertencimento:

“Eu sempre me senti negra. Sempre tive certeza da importância de ter esse orgulho e de procurar ser a melhor no que quer que estivesse envolvida”.

Amor bendito e eterno pelo cinema

“Eu sou uma mulher assumida”, ecoa o grito da protagonista no tribunal de Amor Maldito com o olhar dirigido diretamente ao espectador. A cineasta confessa que grande parte do discurso da personagem está fundamentado nos autos do processo real que inspirou o filme, mas que esta frase específica é de sua autoria. E complementa que vai morrer sendo assumida em todos os sentidos:

“sou uma negra assumida, uma cineasta assumida, uma mãe assumida, uma avó assumida e vou por aí me assumindo em todos os sentidos. A mulher tem que se assumir”.

“Não estava em busca de ser a primeira ou a última!”, diz a cineasta a respeito de seu pioneirismo singular/Fotos: acervo pessoal

Adélia Sampaio é uma referência ímpar não apenas para a cinematografia nacional, mundial e feminina, mas também para quem quer enfrentar desafios com a valentia que estes pedem.

“Nós existimos, nós queremos viver e queremos viver com afeto e dignidade”.

Para ela “o grande barato que traz felicidade” é perceber que as obras conquistam seus próprios caminhos, para além das intenções dos realizadores. A cineasta começou sua relação profissional com o cinema no início da década de 70 e continua ativa em seus projetos e criativa em sua arte. Adélia Sampaio conversou com Catarinas a respeito de sua trajetória e pioneirismo. Só resta à plateia os justos aplausos agradecidos!

Adélia Sampaio ao Catarinas

Catarinas – Você é considerada como a primeira mulher negra a dirigir um longa-metragem no Brasil e segundo a historiadora Edileuza Penha de Souza¹ também na América Latina. Porém, em diversas entrevistas você menciona que nunca postulou a este título e que sequer tinha conhecimento do fato até a própria pesquisadora, que desenvolve investigações na área de cinema com ênfase no Cinema Negro, trazer o feito à luz.
Adélia Sampaio – Sim, Edileuza é minha amiga, pessoa que respeito. Criou o Prêmio Adélia Sampaio de Cinema em Brasília, que é bastante concorrido.

III Mostra Competitiva de Cinema Negro Adélia Sampaio, na Universidade de Brasília (UNB)/Foto: reprodução

Catarinas – Nas entrevistas já citadas você também comenta que fez o filme Amor Maldito com a intenção de deixar uma reflexão para que seus netos não fossem preconceituosos e que a referência fílmica para o longa foi a vida. Em relação aos seus netos: que tipo de reflexão percebe que o filme provoca neles?
Adélia Sampaio – Agora já adultos se assombram ao ver o filme e não conseguem entender o porquê de nada ter mudado.

Catarinas – Entende que o legado do filme pode ajudar na formação de posturas críticas e discernimento sobre as consequências do preconceito? Adélia Sampaio – Com certeza e tenho vivenciado isso nos tempos de hoje, na forma como os jovens assistem ao filme e pelas perguntas nos debates me apercebo que a partir do filme eles refletem e fico muito feliz.

Catarinas – Lendo sobre sua trajetória é interessante perceber a sua convicção em relação a que se tornaria uma diretora de cinema. Pode descrever o que provocou tamanha certeza ainda muito jovem?
Adélia Sampaio – Retornando de um asilo no interior de Minas, pela primeira vez entrei na sala de um cinema que tinha tapete vermelho e balaústres dourados, creio que foi na verdade a primeira grande alegria no asilo, era a estreia de um filme de origem russa, Ivan, O Terrível [filme de 1944, escrito e dirigido pelo cineasta Serguei Eisenstein].

Fui levada pela minha irmã Eliana Cobbett. Quando acendeu a tela e eu vi as imagens desejei entrar na tela e ficou em mim a certeza que seria cinema o que eu faria. Ao fim da sessão, confidenciei à minha irmã este desejo e ela sem paciência retrucou “para de sonhar para de ser a menina dos ovos de ouro”. Apesar de ela não aceitar, ficou gravado em minha alma esse desejo. Fazer um filme.

Catarinas – Você teve algum tipo de apoio para desenvolver seus próprios projetos?
Adélia Sampaio – Sempre contando com o apoio da minha irmã Eliana que era na época uma produtora executiva.

Adélia Sampaio em seu segundo trabalho como diretora “Adulto não brinca”(1981)/Foto: Cláudia Ferreira

Catarinas – Como foi lidar com o predomínio masculino na área naqueles tempos?
Adélia Sampaio – Naqueles tempos mulheres só como continuístas e maquiadora, o set sempre foi masculino, mas eu tentei driblar de várias formas essa visão de que mulher no set atrapalha. Num set me tornei continuísta, maquiadora, claquetista e me arvorei em fazer a direção de produção de um filme de Marcos Farias, “A cartomante”. A produção executiva era de Miguel Borges que condenava Marcos por me experimentar na produção. Nos primeiros dias foi complicado, eu dava uma ordem e a técnica se fazia de surda, então fiz um discurso: “Não é à toa que chamam vocês de turma da pesada. Somos neste set todos pretos, vamos nos respeitar”. Tempos depois fui eleita rainha da pesada! São meus amigos até hoje.

Catarinas – Ainda no período na Difilmes você passou a ser encarregada de atividades cineclubistas com exibições em 16mm: como eram estas experiências e de que forma elas podem ter influenciado o seu cinema?
Adélia Sampaio – Na época, explodi de felicidade e guardo até hoje a carta enviada a mim por Luiz Carlos Barreto me entregando a função. Os cineclubes eram em escolas particulares, funcionavam como formação de plateia para o cinema. Não houve influência no meu cinema porque os filmes eram locados e levados pelos alunos.

Catarinas – Como se dava a escolha dos títulos?
Adélia Sampaio – Eram sempre filmes nacionais de Glauber [Rocha], de Joaquim [Pedro de Andrade], de Leon [Hirszman] e muitos outros.

Catarinas – Certa vez mencionou que comprou “muita fruta para seus filhos com o dinheiro destes curtas”.
Adélia Sampaio – Meus curtas tiveram o apoio do Sr. Mario Falachi, com quem eu trabalhei na Difilmes. Ele era amigo dos exibidores e se encarregava de marcar os meus curtas. Sr. Mario era uma eminência parda da Difilmes, que apoiava o Cinema Novo e tinha uma sala na Difilmes eu o assessorava no que fosse preciso. Foi uma pessoa que me estendeu a mão e gostava muito dos meus curtas. Ele sabia que eu tinha dois filhos pequenos em casa.

Adélia em uma das suas produções/Foto: acervo pessoal

Catarinas – Pode comentar as inspirações para seus cinco curtas antes do longa-metragem Amor Maldito?
Adélia Sampaio –

Eu acredito no cinema onde se possa denunciar ou alertar as pessoas. Todos os curtas são baseados em fatos reais, até mesmo o AI5, em que fiz a direção artística (reconstituindo os fatos com atores) e com a direção geral de Paulo Markun.

Catarinas – Qual a relação do reconhecido crítico de cinema Leon Cakoff com o seu longa Amor Maldito?
Adélia Sampaio – É que na época ele era considerado o melhor crítico de cinema e ele entrou pra assistir o filme e fez uma crítica de protesto, que ele achava um absurdo, embora ele não conhecesse a diretora, um absurdo o filme ser lançado numa área pornô, quando era um filme que abordava questões sociais, preconceitos, violência. Então ao sair a crítica dele que era muito bonita, muito bem escrita, reverteu o quadro do filme. O exibidor deu mais três salas de cinema e o filme seguiu carreira. Essa é a relação do Cakoff com o meu filme Amor Maldito.

Adélia Sampaio no set de “Amor Maldito” dirigindo Monique Lafond e Tony Ferreira/Foto: acervo pessoal

Catarinas – Consta que alguns destes títulos foram extraviados da Cinemateca do MAM, pode comentar este episódio?
Adélia Sampaio – Muito triste. Desapareceram os negativos másters de imagem e de som na Cinemateca do Rio de Janeiro e até hoje não me deram satisfações.

Catarinas – Você tem cópias de alguns destes filmes?
Adélia Sampaio – Tenho cópias habilitadas no YouTube para quem quiser ver.

https://youtube.com/channel/UCVcvsoqRG6qC09VU-KV5rCw

Catarinas – Na pesquisa para o desenvolvimento do filme Amor Maldito você teve acesso aos autos do processo criminal retratado no filme. 
Adélia Sampaio – Os autos foram conseguidos pelo roteirista José Louzeiro. A vida toda ele foi repórter de polícia e por isso teve acesso aos autos. Fizemos inúmeras reuniões com os atores para o desenvolvimento do filme.

Catarinas Pode comentar como se desenvolveu a produção do filme de modo cooperativo?
Adélia Sampaio – Na medida em que a Embrafilme não aceitou financiar o filme, uma engenheira elétrica de Furnas (Edy) ofereceu um cheque no valor de Cr$ 30.000 (Cruzeiros). Coloquei ela em contato com minha irmã que seria a [produtora] executiva para fechar contratos. A partir daí, Eliana começou a fechar parcerias com técnicos e atores. Era um elenco de amigos de longa data, que sabiam dos meus sonhos e apostavam no meu taco. O grande mérito era de minha irmã que apostava no meu sonho.

Catarinas – Como foi essa experiência inédita no cinema brasileiro?
Adélia Sampaio – Foi lindo, foi caloroso.

Catarinas – Os desafios do longa Amor Maldito não terminaram com a finalização da obra. A exibição foi mais um deles. Pode relatar qual foi a saída encontrada para poder exibir o filme em salas de cinema?

Fui a São Paulo e o exibidor me disse que cederia duas salas, mas que eu teria que travestir o filme de pornô. Reuni o elenco e resolvemos aceitar (era um momento do Pornô nos cinemas). Na segunda semana em cartaz, o crítico Leon Cacof foi assistir ao filme e estampou na página do jornal uma crítica comentando o absurdo do filme ser visto como pornô. Depois desta crítica o filme vingou.

Catarinas – Sobre a estética e as opções narrativas de Amor Maldito: pode comentar a opção pelo olhar dirigido direto para a câmera como elemento estético e narrativo?
Adélia Sampaio – Optei por utilizar a dinâmica do travelling porque se assim não fosse teríamos um filme estático! Complicado trabalhar com câmera em movimento, por isso uma semana antes fomos até a locação (Tribunal de Niterói) eu e Paulão, dois pretos tentando acertar. Ensaiamos muito o movimento dos advogados e ficamos felizes por conseguir. Cada plano em que os personagens dialogam com a plateia foi proposital para chamar a atenção, com isso quebramos a quarta parede e fiz isso sem medo.

Adélia em set de filmagem do curta “Denúncia Vazia”/Foto: acervo pessoal

Catarinas – Pode comentar a opção pelo espaço cênico claustrofóbico para representar o tribunal no filme?
Adélia Sampaio – Teria que ser rodado num tribunal para dar credibilidade a cada cena ali rodada. Quando enquadro o Cristo na cruz tem um recado subjetivo. O barato é que os espectadores percebem.

Catarinas – O filme parece ser um contraponto entre diversos tipos de violência e uma certa ingenuidade e leveza. Você pensa seus trabalhos com este grau de consciência ou esta relação vai sendo construída?
Adélia Sampaio – Não, tem uma construção que se faz no decorrer do trabalho. A leveza se dá por eu ser uma mulher.

Catarinas – Pode comentar quais outras funções exerceu no cinema?
Adélia Sampaio – Fui continuísta, maquiadora, claquetista, assistente de produção, diretora de produção e durante uns tempos me dividia com minha irmã Eliana Cobbett; ela na produção executiva e eu na direção de produção e campo.

Catarinas – Sobre a consciência negra: entende que há avanços a comemorar neste sentido?
Adélia Sampaio – Certamente existe um avanço, mas nem sempre colocado de forma correta. Mas vamos chegar lá.

Cartazes de “Ele, Ela, Quem?” (1980), “AI-5 – O Dia Que Não Existiu” (2001) e “Parceiros da Aventura” (1980)/Imagens: divulgação


Catarinas – Sua infância teve um fato muito marcante que tem a ver com par de sapatinhos que você guardou por muito tempo como uma espécie de símbolo de esperança. Pode contar qual foi esta circunstância? Você ainda tem os sapatinhos?
Adélia Sampaio – Sim, viemos para o Rio eu, mamãe e minha irmã com a promessa da patroa dela nos colocar para estudar. Nesta época, eu tinha 4 anos e nunca havia me separado da mãe e da mana. No dia seguinte em que chegamos ela nos pegou e deixou num colégio interno (União das Operárias de Jesus), mas não forneceu o endereço para mamãe de onde havia nos deixado. Ao entrar no colégio eu só chorava querendo minha mãe, eu não comia, fui perdendo peso. A diretora ligou para a patroa da mãe avisando que ficaria com a criança maior, mas com a menor não, pois temia pela minha saúde. A patroa apareceu e me levou para casa dela. Me matriculou em uma escola paga que seria descontada do salário da mãe. Toda manhã, ao sair de casa, a mãe dizia “estuda, você tem que tirar dez”. O ano letivo fechou e minha nota foi 9,5. Ao entregar o boletim, mamãe começou a chorar. Minha nota foi a maior da sala, ela dizia: “te pedi para tirar dez”. No dia seguinte, a patroa me levou para uma loja de roupas, comprou um enxoval pra mim, não permitiu que eu me despedisse da mãe e me colocou num avião direto para Belo Horizonte. Depois fui de carro a um asilo em Santa Luzia. Os anos passavam e cada dia tinha certeza que minha mãe não me amava, nunca me visitou.

Eu guardava os sapatos, com os quais fui para lá, porque acreditava que ele saberia o caminho de volta para achar a minha mãe. Quando fiz treze anos, minha irmã que não reconheci e a mãe chegaram. Foi o dia mais iluminado e alegre de minha infância, agora adolescência. Mamãe explicou no caminho, voltando para o Rio de trem, o porquê dela não ter me visitado: precisou quitar cada centavo para ir à minha procura.

Adélia Sampaio com a equipe do filme “Ele, ela quem?”, no qual assinou a produção/Foto: acervo pessoal

Catarinas – Pode comentar a influência de sua irmã Eliana Cobbett, produtora executiva do Cinema Novo, em sua trajetória?
Adélia Sampaio – Eliana que além de minha irmã acreditava no meu talento, um dia me disse: Se ninguém acreditar em você minha irmã eu acreditarei sempre. Acho que sem ela eu não teria conseguido. Tive pessoas incríveis, o professor Eduardo Leone (professor da ECA – USP) que montou os meus filmes e cada encontro nosso aqui em casa era uma aula teórica. Contei com José Louzeiro (roteirista), José Medeiros (melhor fotógrafo de cinema), meu irmão, meu amigo, com ele aprendi muito.

Catarinas – Qual é o filme que ainda lhe falta fazer?
Adélia Sampaio – Rodei recentemente o curta O Olhar de Dentro reflexões de uma atriz dos anos 60. Tenho outro curta Meu Nome é Carretel sobre um menino da comunidade que solta pipa e ao se tornar adolescente vira entregador de farmácia e se depara com o racismo na Zona Sul. (Terá que passar a Covid-19).

Tenho o roteiro pronto do longa A Barca Das Visitantes, um registro do que passaram as visitas dos presos políticos de 68 a 69. Eu vivi essas visitas cuidando de visitar o pai dos meus filhos e acho que será importante falar de tempos doídos e vividos.

¹ A pesquisadora e historiadora Edileuza Penha de Souza é também curadora e documentarista, além de idealizadora e organizadora da Mostra Competitiva de Cinema Negro – Adélia Sampaio, na UnB.

* Claudia é cineasta, artista multimeios, educadora e pesquisadora, graduada em Comunicação Social – Habilitação Jornalismo e pós-graduada em Estudos Culturais, ambas pela UFSC. Trabalhou por 15 anos como docente em cursos de Cinema e Realização Audiovisual, Comunicação Social. Sua experiência mais extensa é como documentarista. Roteirizou mais de 15 documentários desde 1989. Como pesquisadora desenvolve estudos inovadores que se alinham com o movimento do cinema feminino atual e com o resgate das trajetórias de mulheres pioneiras na cinematografia mundial.

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Claudia Aguiyrre é cineasta, artista multimeios, educadora e pesquisadora, graduada em Comunicação Social – Habilitação Jornalismo e pós-graduada em Estudos Culturais, ambas pela UFSC. Trabalhou por 15 anos como docente em cursos de Cinema e Realização Audiovisual, Comunicação Social, nas habilitações de Jornalismo e Publicidade e Propaganda. Sua experiência mais extensa é como documentarista. Já dirigiu e roteirizou mais de 15 documentários desde 1989.
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