“Ganhadeiras de Itapuã”, as mulheres negras baianas que trabalhavam para comprar a própria alforria, foram tema/Foto: divulgação Viradouro

Viradouro vence o carnaval carioca com as “primeiras feministas do Brasil”

Postado em 27/02/2020, 10:36

A escola de samba de Niterói conseguiu de uma só vez contar uma história de invisibilidade e força femininas e ganhar o carnaval depois de 22 anos. Fazer crítica social e falar de histórias e pessoas que o Brasil não conhece foram a tônica de grande parte dos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro este ano.

“Levanta, preta, que o Sol tá na janela/ Leva a gamela pro xaréu do pescador/ A alforria se conquista com o ganho/ E o balaio é do tamanho do suor do seu amor”. E assim a Unidos do Viradouro levantou a Marquês de Sapucaí no primeiro dia de desfiles do grupo especial e levou o título de campeã do carnaval carioca. Dourada e cantando a orixá feminina das águas doces, Oxum, a Viradouro falou das “Ganhadeiras de Itapuã”, as mulheres negras baianas que trabalhavam lavando roupa na Lagoa do Abaeté, vendendo comida ou carregando água para se sustentar e comprar a própria alforria e de outras mulheres.

Vídeo: Marco Aurélio Silva

Enquanto a história oficial fala da benevolência da princesa Isabel como promotora da libertação dos escravos, as histórias das pessoas comuns e o carnaval vão preenchendo as lacunas da história do Brasil. E disputando a nossa memória. Quilombos e lavadeiras tiveram um protagonismo maior do que a memória brasileira gostaria de contar. E a Viradouro contou. Com luxo, água e um samba que levantou a arquibancada.

“Ó, mãe! Ensaboa, mãe!
Ensaboa, pra depois quarar
Ó, mãe! Ensaboa, mãe!
Ensaboa, pra depois quarar”

A segunda escola a desfilar na Marques de Sapucaí carnaval de 2020 conectou a história das negras escravizadas e libertas com a luta contemporânea das mulheres. Ela tanto homenageou as Ganhadeiras de Itapuã do passado quanto as mulheres que hoje compõem um grupo musical com o mesmo nome em Salvador. Foi através delas, todas mulheres negras, que a escola chegou à história das mulheres do século XIX.

Foto: Marco Aurélio Silva

A Viradouro fez a história, a atualidade e o samba fazerem sentido e empolgar a multidão. E o público cantava o refrão que colou e levantou a Sapucaí: “Ora yê yê ô Oxum! Seu dourado tem axé. Faz o seu quilombo no Abaeté. Quem lava a alma dessa gente veste ouro. É Viradouro! É Viradouro!”. Mestre Ciça faz uma paradinha, deixa o surdo fazendo marcando as batidas do coração, toca ijexá, leva cinco notas 10, a escola ganha o Estandarte de Ouro do Jornal O Globo de melhor enredo, as mulheres contam as histórias de dificuldade e de luta de ontem e de hoje, o público canta, uma ala de mulheres joga cocadas para a plateia, Oxum lava a avenida e a Viradouro leva o carnaval.

É bom dar contexto à essa vitória e pensar que segue até uma tendência. A campeã do ano passado foi a Mangueira, que também trazia um enredo feminino e invisibilidades da História. A escola também falou de personagens importantes e esquecidos como Luísa Mahin, mulher escravizada que atuou em revoltas ocorridas na Bahia no século XIX, e fez referência direta ainda às lutas e à morte da vereadora Marielle Franco, assinada no Rio de Janeiro em 2018.

https://www.facebook.com/unidosviradouro/videos/253568965633623/

Neste ano, depois da vitória da Viradouro, nos jornais da noite todo mundo fala de feminismo, da história não contada antes sobre as Ganhadeiras e apresentadoras de jornal até terminam matérias dizendo que as lutas das mulheres continuam hoje. Os sites complementam dizendo que a situação das mulheres ainda é de muita luta e desigualdade. As mulheres negras recebem, no Brasil, segundo o IBGE, menos da metade do que os homens brancos, que ocupam o topo da remuneração no país. As escolas de samba estão ocupando o lugar da crônica contemporânea brasileira e mostrando as histórias invisibilizadas e as desigualdades. O jornalismo e a escola vão aprendendo com o carnaval. E a gente também.

“São elas, dos anjos e das marés
Crioulas do balangandã, ô iaiá
Ciranda de roda, na beira do mar
Ganhadeira que benze, vai pro terreiro sambar
Nas escadas da fé/ É a voz da mulher!”

Assista ao documentário “As ganhadeiras de Itapuã”

*Vanessa Pedro é jornalista, doutora em Literatura pela UFSC, professora de Jornalismo da Unisul.